O CÃOZINHO QUE NASCEU COM AS PATAS BRANCAS
Era uma vez... era uma vez uma mulher que queria escrever uma história para a Fábrica de Histórias e não sabia ficcionar...
Chegara recentemente a essa conclusão e sentira-se um tanto ou quanto diminuída por isso. Era simples, a mulher, mas tinha o seu orgulhozinho e tamanha lacuna parecia-lhe estranhíssima. Tanto mais que ainda se recordava de ter ficcionado uma ou outra historieta para as filhas, em tempos que, há muito, já lá iam.
Caramba! De uma ficçãozita todos somos capazes! - Invectivou-se, como se aquilo lhe puxasse pelos cordelinhos da imaginação e pusesse a emperrada maquineta da memória a funcionar. Nada. Nem uma palavrinha para além do "Era uma vez"... só sentia.
Ah! Sentir, sentia! Sentia, nesse dia, uma particular gratidão por alguém que a ajudara a salvar a vida - ainda débil, ainda "tem-te, não-caias!" - da gatinha que a mãe lhe trouxera para casa há sete anos atrás.
Por isso e porque "sentir" sempre fora a sua especialidade, a mulher decidiu-se por contar
A HISTÓRIA DO CÃOZINHO QUE NASCEU COM AS PATAS BRANCAS
Foi há cerca de ano e meio. Não era, com certeza, Natal, mas era como se fosse. Ou melhor, passou a ser como se fosse...
Eu tinha ido ao veterinário com a Lupa e o Kico. Por essa altura um deles deveria estar meio adoentado. Provavelmente uma das "constipações" do Kico ou uma das "dores de barriga" da Lupa.
Recordo-me de ter ouvido quando, terminada a consulta, me propunha sair, um ganido baixo e fininho, quase sumido.
O veterinário acompanhara-nos à porta e eu desviei instintivamente o olhar do dele, procurando o local de onde me pareciam provir os ganidos.
- É um cachorrinho que trouxe ontem para o consultório. Não sei se o consigo salvar. - explicou-me o veterinário que acompanhara o curso do meu olhar.
Os meus olhos devem ter denunciado alguma surpresa, porque ele rapidamente se propôs mostrar-me o tal cachorrito. Subimos a pequena escada que leva à sala de banhos e tosquias e eu vi aquela coisita acastanhada envolta numa mantinha bordeaux, ligada a um frasco de soro que pendia de um suporte improvisado.
- Tão pequenino!- exclamei - o que tem ele?
- Fome. Estas coisas não se fazem! Era de um criador de boxers e eu trouxe-o ontem para cá...
- Mas... e a mãe?
- A mãe está com o dono, o tal criador. Tem mais sete cachorrinhos e está a alimentá-los...
- E este? Que se passa com este?
- Com este o que se passa é que nasceu com "defeito de fabrico"! Segundo o criador de boxers, claro... tem as pontas das patas brancas...
Olhei e reparei então que aquele castanho levemente manchado por estrias mais escuras terminava, efectivamente, em pequenas "botinhas" brancas que, no meu entender, lhe davam um certo encanto e o tornavam ainda mais patusco.
- Não me diga que já o não querem por causa disso...
- Digo, digo. E digo mais. Separaram-no da mãe e atiraram-no para dentro de um caixote onde o fui encontrar meio morto de fome e já desidratado. Foi por acaso. Fui fazer a revisão do puerpério à mãe e já me ia embora quando, no hall de entrada, vi o caixote com ele lá dentro. Que não servia, disse-me o criador. Que tinha defeito e estava a estragar a raça!
- E trouxe-o consigo?
- Pois trouxe! Ia morrer ali... perguntei se mo davam e tratei de pegar logo nele!
Olhei de novo para o filhote de boxer. O cãozinho que "tinha defeito" estava ali, deitado, quentinho, a soro, com um biberão meio de leite junto a ele. Tinha um nome. O veterinário tratara logo de lhe dar um nome, mas a minha memória já não é o que era e, para mim, ficou sempre a ser "o cãozinho que nasceu com as patas brancas".
E o que tem isto a ver com uma tradição de Natal? - perguntarão vocês. Provavelmente não tem mesmo nada a ver, mas o espírito está lá e eu já não sei ficcionar!... Mas gostaria - e aqui sim, entro no que nos foi pedido na Fábrica de Histórias! - de propor uma nova tradição para o Natal de Todos os Dias;
Que nunca, nunca mais se vote ao abandono, à indiferença, quem - não importa a espécie! - nasça com uma "diferença". Seja ela qual for!
Tela de René Magritte
Imagem retirada da internet
Escrito para : http://fabricadehistorias.blogs.sapo.pt/
Maria João
ResponderEliminarAdoro estar por aqui... Sabe? Eu li... Eu vi... Eu ouvi (apesar de repetida)... E gostei... Tenha um bom Domingo! Boas Festas! Abraços! António
Obrigada, António. Mas esta história não é repetida! Nasceu ontem em directo.
EliminarAbraço grande!
M. João
EliminarA repetição refere-se à música...
Abraços. António
Ah! Peço imensa desculpa...
EliminarAbraço gande!
Perdi o comentário à História.
ResponderEliminarVou tentar ir ao post outra vez.Ao sapo.
Até amanhã
Tem mesmo de ser no sapo, Nati. Para o post não precisas do outlook para nada... mas tu publicaste ontem! Tens dois posts no teu blog.
EliminarAbraço e até amanhã.
Gostei da história, mas infelizmente há sempre gente que só pensa no lucro...
ResponderEliminarPois há, Maria! E é tão triste que assim seja!
EliminarÉ tão triste por o lucro financeiro acima de todos os outros valores...
Um beijinho!
Oi Maria
ResponderEliminarGostei muito desta história
Sabe...A trasferi para pessoas.
Adotar um cão talvez seja mais fácil
Adotar pessoas (bebês)...
É um tormento sem fim
Tempo(não menos que 5 anos), burocracia, etc, etc.
Um grande abraço.
Serve para todos os seres vivos, Velucia. Tens razão em relação à adopção de bebés, Velucia. A burocracia é excessiva, embora eu concorde que tem de haver muito cuidado. Mas há burocracia a mais! Deveriam acelerar os processos de adopção!
EliminarAbraço grande.