NESSA CASA

 


Nessa casa


Os dias eram maiores...


As coisas eram, invariavelmente, vivas


E os vivos eram, pontualmente coisas.


Os medos e as revistas da novela


Arrumavam-se, sempre,


No quarto da criada


E as patologias


Dentro dos livros


Havia sempre livros


Nunca demasiados, contudo,


E as paredes


Eram cúmplices


Dos meus infantis murais.


A enorme janela da sala


A poente


Convidava


A vespertinos arroubos


Da criação


Que seria, sempre,


A Senhora da casa.


Depois havia mais casas


Parecidas, mas muito diferentes


A seguir era o Tejo


Aonde encontra o mar.


O Sol


Punha-se, sempre,


A nascente dessa casa,


Onde nasciam os abrunheiros.


As memórias


Tomavam chá connosco


E jogavam às cartas


Nessa casa.


Para além dela


O mundo era diferente...


No fundo


O mundo era apenas


Uma consequência dessa casa


Nessa casa.


Nessa casa escrevi,


Pintei e desenhei


Como hoje desenho,


Pinto e escrevo


Sempre que reinvento essa casa


Nesta casa onde sou


Consequência de mim


Nessa casa.


 


 


 


Poema dedicado à Ligeirinha


 


Imagem retirada da internet


 


 


A todos os amigos que hoje tiverem a bondade de me visitar, gostaria de pedir que não saíssem sem passar pelo jardinzinho interior   http://mumbles.blogs.sapo.pt/


 


Obrigada!

Comentários

  1. Olá Maria

    Está muito lindo este soneto dedicado a sua amiga ligeirinha.
    Essa casa...
    Que é sua, que é dela
    Nada inventa o que nela perfeitamente fica...
    É a amizade.

    Abraço

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    1. Obrigada, Velucia. Penso que sou um ser muito territorial. Devo ter uma costela de gato... este poema relata as duas grandes "casas" da minha vida, as que amei acima de qualquer palácio que pudesse surgir-me de uma qualquer lâmpada mágica... a casa da Rua Luís de Camões, em Algés, onde cresci e esta onde vivo há quase 37 anos. Há uma outra casa de infância da qual me recordo muito bem, embora nunca a tivesse sentido como "a minha casa"... era a casa da minha avò Maria, na marginal (Av Ivens, nº7, Dafundo). Essa era a casa dos "intervalos". era uma grande vivenda e eu adorava lá estar, mas NESSA CASA é a casa da rua Luís de Camões, 91-A em Algés.
      Sabes que já vi a praceta que tem o nome do meu avô no Sapo-Mapas? Ainda um dia hei-de lá ir!
      Abraço grande!

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    2. Oi Maria

      Pensei nesta hipótese dessas casas, mas como dedicou a Ligeirinha, pensei que esta casa tratava da amizade de vocês.
      Fiquei contente de saber também dessas casas. Espero que consiga ir lá. Algés é uma das cidades que também quero conhecer.
      Motivo: Lá fica uma filial da empresa Forever Living Products (EUA), que tem produtos naturais a base de aloe vera (aqui chamamos de babosa), uma planta excelente para a saúde, desde que seja autêntica bardanensis. E eu utilizo tais produtos para saúde e beleza.
      Ps. Não é propaganda! É que eu gosto muito deles.
      Quem sabe quando euestiver aí poderemos ir juntas?
      Acredito aue não vai demorar.

      Um abraço.

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    3. Ok, Velucia! Algés foi totalmente requalificada e está muito diferente da Algés da minha infância, mas ainda é muito bonita. Agora, muito recentemente, foram feitas obras de embelezamento e requalificação na rua Damião de Góis, mas eu ainda não fui lá ver... mas a praceta António de Sousa é em Caxias. Eu conheço mal Caxias. Ia lá muito, quando era menina, ao magnífico jardim, junto à estação da CP, mas nunca andei pela vila... ou então só me lembro do jardim, não sei.
      Beijinho!

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  2. Fizeste-me lembrar a casa onde cresci, um testo que tb escrevi sobre essa casa.

    Bonito, apresentado de outra forma, mas bonito na mesma.


    Beijos & Abraços

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    1. :) Foi um momento de relembrar a casa em que cresci... e de verificar que "a maior parte "do que era "nessa casa", continuo a ser "nesta" casa. São os meninos em nós...
      Abraço grande!

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  3. Estou em turbilhão existencial...mas vai passar! muito obrigado pelo miminho da casa.....!!!

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    1. Vai! Vai sempre! Estar pontualmente um bocadinho triste, é normal... o meu turbilhão, neste momento, é outro, tu sabes... estou apenas à espera do avanço da espada enquanto tento acreditar que ela se vai partir ao meio, ou desaparecer no ar... mas é tudo o que posso fazer, garanto-te. Viver é uma bela aventura, mas não tem nada de fácil!
      Beijinho!

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  4. Mágico, esse seu poema... Como se a casa estivesse onde estão todas as nossas emoções. Lindíssimo!

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    1. Olá Carla! É a co-vencedora do Poesia em Rede II, não é? Tenho tido muito pouco tempo, mas vou ver se por lá descubro o seu poema...
      Obrigada por ter vindo ao poetaporkedeusker!
      Abraço!

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    2. Sim, sou eu mesmo! Gostei de a ler!

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    3. Também gostei muitíssimo do seu soneto para o Poesia em Rede III! Hoje estou atrapalhada porque não consigo encontar um documento que é importante e urgente. Estou sempre a perder tudo... depois a visitarei com mais tempo.
      Obrigada e um abraço!

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  5. Muito lindo este poema, gostei muito,.
    bj

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    1. Obrigada Estrelinha! Tu nem calculas como está a minha cabeça hoje! Não encontro nada do que preciso...
      Beijinho!

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  6. Olá Amiga João. É só para te dizer que gostei muito do poema e do jardim interior, és aquele génio nato, Que nasceu para a poesia e para a observação do mundo que nos rodeia, onde também têm lugar embora não merecido, esses assassinos, que se digladiam com o sacrifício dos indefesos animais. Um abraço Eduardo.

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    1. Um grande abraço também para ti, meu amigo! Hoje estou tensa. Não consigo evitá-lo. E não é habitual em mim... sinto-me incapaz de encontrar as coisas... não sei onde as pus. Acreditas que me desapareceu uma pilha de cadernos cheios de sonetos? E eram tantos... e tinham por lá registos de que estou a necessitar. Enfim. Eles hão-de aparecer, quando eu me esquecer deles...
      Agora tenho de me esforçar por serenar.

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    2. Olá amiga João. É isso que tens que fazer, é descansar e eu também. Depois de trocar o endereço da Chica com o teu já fiz a mesma proeza duas vezes, estou de rastos. Um Abraço. Eduardo.

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    3. Amigo, descansa! Não te deixes ir abaixo e não te preocupes com as trocas de endereços!
      Eu também ando a trocar tudo... amanhã vou ter um dia muito cheio daquelas coisas que detesto fazer, mas logo se vê quando consigo publicar os prémios! temos de nos aguentar, com algum repouso, claro!
      Abraço grande.

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    4. Olá amiga João. Eu prometo que não te digo mais nenhuma vez que não te preocupes, porque tu já sabes o que eu penso. Um Abraço Eduardo.

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    5. Eu sei, amigo. lha, hoje quem me suavizou a caminhada foi uma cachorrinha que parecia estar a sorrir para mim! Felizmente tinha casa, donos e um belo jardim para brincar... mas que fiquei mais contente por fazer-lhe festas, fiquei! É tão simpática! Logo à noite publico o soneto que nasceu a seguir.
      Abraço. Ainda tenho outras caminhadas hoje.

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    6. Pois é amiga, Tu estás predestinada, a isso e não consegues fugir. Um Abraço Eduardo.

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    7. Olha que muito boa gente já foi parar ao Julinho por pensar isso! Mas que comecei a escrever e a pintar muito, muito cedo, é verdade, sim senhor. e também sinto que é isso que devo fazer. Não sei mesmo se saberia sobreviver de outra maneira, pelo menos em temos psicológicos. Ai, que agora é que eu vou internada se algum psiquiatra ler isto...
      Abraço grande! :)

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    8. Olá amiga Maria João. Era mais fácil mandarem-te de lá para fora se tu estivesses minimamente capaz, do que mandarem-te para lá sem o teu aval. Um abraço Eduardo. Mas que conversas tão sem chá. Já estou arrependido de ter dito isto. Não leias que é asneira.Um Abraço Eduardo.

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    9. Estou de fugida, Eduardo, mas vi o teu comentário e achei graça! Não te preocupes com a falta de chá... eu ando sempre a beber chá .... eheheh
      Tenho imenso que fazer hoje e estou mesmo sem forças! mas vou tentar!
      Abraço.

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