UMA VIAGEM INESQUECÍVEL


Saiu da agência de viagens arrumando, na malinha a tiracolo, a papelada que escrevera nos intervalos dos telefonemas dos muitos turistas que pediam o apoio da sua “hostess” depois do check-in no hotel. Eram quatro e meia de uma tarde de Verão e as palavras do chefe do Foreign Department soavam-lhe, ainda, aos ouvidos:


- Maria João, gostaríamos de tê-la no nosso próximo Grupo da Getaway Adventures, desde Espanha, acompanhando o grupo desde lá.


Não respondera logo. Esboçara um sorrisinho “polite” e murmurara meia dúzia de palavras que não queriam dizer coisa nenhuma. Aquele momento seria supostamente especial. Era-o. Não da forma que seria para as suas colegas que viviam e trabalhavam de olhos postos na primeira viagem. Na inesquecível primeira viagem.


Para ela era muito diferente. A palavra fazia-lhe despontar raízes por dentro e por fora. Não era medo. Não era falta de ambição. Era uma ausência de medos e um desvio real das ambições… as dela ficavam-se mais por ali, pelas escadinhas da estação do Rossio onde os alfarrabistas de rua espalhavam os exemplares semi-novos e muito antigos onde, inevitavelmente, ficava a viajar durante horas. Colega que a acompanhasse


Acabava por desistir da companhia e rumar sozinha aos Porfírios enquanto ela, esquecida de horas e desoras, se eternizava nas escadinhas, entre páginas de velhos alfarrábios.


Tomava sempre como própria da sua pouca idade aquela excentricidade que tentava dissimular, quantas vezes da forma mais desastrada…


Deixou, em troca de dois exemplares de Nefrologia Clínica, uma boa parte do que ganhara no “transfer” do dia e rumou à estação de comboios, remoendo ainda as palavras do chefe. O raio da viagem estava-se-lhe a tornar incomodativa, colava-se-lhe às páginas do livro, consumia-lhe as letras num rodopio constante que lhe tirava o prazer da leitura… ou da interiorização das palavras que lia. Impedia-a, inclusive, de saborear as cores e os paladares das ideias que se lhe começavam a enredar nos vês, nos iis e nos gês das viagens. Fechou o livro enquanto evitava, com a habilidade de uma longa experiência, um encontrão no senhor que vinha em sentido contrário e que parecia mais interessado nas pedras da calçada do que ela na porcaria da primeira viagem.


Quase, quase a chegar à estação dos comboios perdeu o olhar no céu que escurecia. Parou por instantes e olhou os pombos sedentários que por ali debicavam invisíveis migalhas. Abriu a carteira, retomou o percurso num passo mais decidido e anotou na agenda… “Amanhã – avisar a Benilde de que se vá preparando para tomar o meu lugar na viagem”.


Guardou a agenda enquanto entrava no comboio, pronta para retomar a leitura sobre o diagnóstico precoce das nefropatias.


 


 


 


Recordado para http://fabricadehistorias.blogs.sapo.pt/ 



 

Comentários

  1. Oi Maria

    Não entendi nada nada desta situação. Senti ao ler que esta história não tem nada de ficção para a fábrica de histórias. Mas pareceu-me muito triste. Sempre há pedras no caminho não é? E pessoas que em nós tropeçam propositadamente.

    Abraço com carinho pelo Dia Internacional da Mulher, o qual deveria ser visto todo dia e não apenas um.

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    1. Não foi ficcionado, amiga. Foi relembrado, a propósito de uma sugestão da Fábrica, e depois foi narrado. Fui eu quem cedeu o lugar à colega. Sempre gostei maisdasviagens do meu imaginário do que das deslocações físicas.
      Tinha então 18 anos e, pouco antes, recusara um lugar como assistente de bordo da TAP. Trabalhava como "hostess" numa agência de viagens e, quando chegou a minha vez de fazer uma grande viagem, cedi o meu lugar a uma colega. Ela ficou muito feliz e eu também.
      Quando se faziam viagens de longo curso, ganhava-se mais, mas entrava-se num mundo diferente, muito agitado, com muitas e constantes deslocações... eu nunca quis isso para mim. Enquanto estava por cá, a trabalhar em pequenas viagens, sempre ia arranjando tempo para ler e escrever um pouco. Podem achar que é defeito, mas eu penso que é apenas uma característica minha.
      Abraço grande.

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    2. Desculpe, pensei que houve uma certa inveja quando você foi convidada. Se quis ceder o lugar e a sua companheira de trabalho aceitou e ambas ficaram felizes... então, foi feliz enquanto lá permaneceu.

      Abraço.

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    3. E fui mesmo. Não era muito ambiciosa em coisas materiais e acabei por optar ficar com a minha filha mais velha quando ela nasceu. Nasceu de parto pélvico, não foi nada fácil e chorava noite e dia nos primeiros tempos de vida. Eu, naquele trabalho, não tinha horários certos . Acontecia muito eu ir buscar grupos de americanosao aeroporto e os aviões atrasarem muitas horas. Era impossível conciliar o trabalho com a maternidade. Acabei por desistir.
      Abbraço grande.

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  2. Olá amiga. Desta vez trata-se da História de uma candidata ao estudo do sangue, logo ária da saúde. Mas será que é mesmo uma história? É que pareceu-me tão real que não sei não se a fábrica não irá pensar o mesmo. Olha pelo sim, cabelo não, eu vou adicionar aos meus favoritos. Um abraço Eduardo.

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    1. Obrigada Eduardo. Tens razão. É o relato de um episódio da minha vida, quando eu tinha 18 anos. Já nem me lembrava disso e, de repente, quando li o post da amiga Idalina, lembrei-me de que ainda não tinha escrito nada para a Fábrica. Veio-me isto à memória e aproveitei...
      Abraço grande.

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    2. Olá amiga. Já vi a tua mens . Quanto ao post . Que linda História. Agora mais valorizada por mim, por saber que é real, é na verdade uma linda História. Abraço Eduardo.

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    3. Há muitos episódios da nossa vida que, narrados com algum "jeitinho", podem dar belas histórias. Eu tenho algumas tristes e outras que fazem rir até as pedrinhas da calçada. Assim são as nossas vidas.
      Abraço.

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    4. Olá amiga João. Eu no meu primeiro blog, que depois abandonei, comecei por contar a minha vida logo a partir dos 6 ou 7 anos de idade, mas depois verifiquei que tinha pouco jeito para contar, e alem disso tem partes que não me é nada agradável recordar e por isso deixei de o publicar. Mas tenho a certeza que seria muito interessante a publicação da minha História pessoal. Um abraço Eduardo.

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    5. Tu contaste-me alguns episódios, quando começámos a ler os blogs um do outro. Lembro-me daquele do cinema da Associação Cultural e das idas à praia de Algés com banho de água doce por 2$50... salvo erro era esse o preço.
      Podes sempre omitir os episódios que te forem mais penosos e aqueles em que tenhas de falar de pessoas da tua família...
      Abraço grande.

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    6. Olá amiga Maria João. Eu sei que podia fazer isso, mas Eu sinto-me mal a escrever uma coisa e saber que não é assim, a minha consciência começa a estrebuchar comigo. E eu também não tenho tempo para dois blogs. Nem para um eu tenho tempo. Obrigado E boa noite Um abraço Eduardo.

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    7. Tens razão... isto é um bocado difícil. Queremos estar sempre em dois sítios ao mesmo tempo...
      Abraço.

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    8. É isso mesmo amiga João. E depois muitas vezes acabamos por não estar de verdade em nenhum deles. Obrigado por vires. Um abraço Eduardo.

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    9. Pois... eu devia ter mais juízo, mas "pulou-me o pezinho" para outros temas e vai de criar mais uns... o antoniodesousa, o mumbles, o premiosemedalhas e os montanhas. Parece que tenho mais olhos do que barriga...
      Abraço grande.

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    10. Olá amiga João, Deixa lá amiga, se o pezinho pulou é porque tem energia para tal. ainda bem que assim é. Lha cheguei eram 19 e 45 horas. Correu tudo bem comigo. Um grande abraço Eduardo.

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    11. Pois eu cheguei cedinho, como sabes, mas devo-me ter constipado esta manhã, quando fui passear o Kico. Estou com tosse, febre e doem-me os ouvidos. Mas o Kico está melhor e já vai comendo razoavelmente.
      Obrigada, amigo Eduardo.

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    12. Olá amiga João. Lamento, e espero que melhores depressa. porque tu sabes que estás interdita de estar doente e até de morrer, pelo menos por enquanto, porque tens compromissos muito grandes para cumprir. Desejo-te as melhoras Um Abraço Eduardo.

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    13. Obrigada, amigo. É só uma gripezita, nada do outro mundo e nada que me leve já para o outro mundo. Tens razão. Agora não pode ser.
      Ainda não consegui abrir a estante... a chave não roda nem um bocadinho... consegue ser mais teimosa do que eu.
      Abraço grande.

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    14. Olá amiga João. É só uma gripezita, não desvalorizes, porque de zita pode passar a zona, e depois é muito pior. Quanto ao armário não te rales que ele será aberto um dia. Um abraço Eduardo.

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    15. Por enquanto é "zita" mesmo. Não posso é fazer muitas asneiras durante uns dias, nem deixar a febre subir muito.
      Abraço grande.

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    16. Ainda bem que sabes o que não podes fazer, e o que deves fazer também. Um abraço Eduardo.

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    17. Olá Poeta e amiga. Outro para ti e tudo de bom. Eduardo.

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  3. Olá poetisa! As escolhas que fazemos ao longo da vida deixam na memória os seus vestigios. Mais tarde ou mais cedo voltam para serem recordadas. Abraço grande num dia que se quer todos os dias.

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  4. Eu acho que em vez de inventar-mos histórias, é bem melhor que contemos as nossas vivencias, com um pouco de ficção á mistura.
    A sua história é muito bonita e nota-se que não ouve grande desilusão com a cedência da viagem á sua amiga, porque acabou por ficar e fazer aquilo que lhe dava mais prazer.
    Um abraço

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    1. É isso mesmo, amiga. E a colega ficou toda contente porque todas queriam ser chamadas para as viagens e não era nada fácil. Só iam as melhores. Eu acabei por ceder sempre a minha vez. Se a Fábrica de Histórias não se importa, eu acho que tem razão. Com as nossas vivências temos imensas histórias para contar... às vezes são pequeninas coisas que, com um "jeitinho", fazem histórias muito bonitas.
      Um abraço grande.

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