FABULANDO...


Três jovens rãs caminhavam despreocupadamente numa bela tarde de Verão.


Duas delas tagarelavam e a terceira, muito calada, ia apreciando a paisagem enquanto recordava os últimos parágrafos que lera no seu livro de Ciências Físico Químicas. Era uma rã bastante interessada no mundo que a rodeava e, por mais que as outras a solicitassem para uma conversação sobre as últimas tendências da moda, os olhos acabavam por se lhe desviar para a cor do céu àquela hora, o verde dos caminhos, a majestade das árvores e o voo dos insectos que por ali zumbiam aos milhares. Outras vezes era o pensamento que lhe vagueava, de novo, para as lições de Biologia e Físico Químicas... as tais que tão particularmente lhe interessavam.


As amigas, pontualmente, zombavam dela:


- Olha lá, mana! Ainda acabas por tropeçar na pata de uma formiga!, dizia a da esquerda.


- Olha-me para esta tonta, sempre a pensar na morte da bezerra! Quando não lê ou estuda, fica assim, feita zombie, de olhos perdidos no nada... , acrescentava a da direita. A rã não se importava muito. Lá bem no fundo gostaria sempre das suas amigas e embora tivesse alguma pena, por elas - porque as achava pouco inteligentes e superficiais - aquela vontade de aprender valia bem meia dúzia de frases menos correctas.


A dada altura, as rãs aproximaram-se de uma quinta e o terreno foi mudando de aspecto. Havia muito mais obstáculos e a palha que cobria o chão colava-se-lhes às patinhas, dificultando a marcha. Nenhuma delas, porém, mudou de atitude e a terceira rãzinha continuava embrenhada nas suas congeminações enquanto as outras duas pareciam nunca se cansar de debater as tais últimas tendências da moda.


Subitamente, no final de um dos saltinhos com que se deslocavam, sentiram-se mergulhar numa superficie morna e viscosa que se revelou de uma brancura suave mal o susto do primeiro mergulho lhes permitiu uma rápida vinda ao de cima para abrirem os olhos e respirar.


Compreenderam, num ápice, que haviam caído num balde, daqueles que os humanos utilizavam para recolher o leite daqueles pacíficos e gigantescos monstros ruminantes dos quais, tantas vezes, se tinham de desviar, no decorrer dos seus passeios diários.


-E agora? Este era o nosso destino, irmãs... não conseguiremos sair deste enorme balde! Vamos morrer ainda jovens..., gemeu a rãzinha da direita, quase a afogar-se.


- Não! Não desistas, mana! Esperneia até ao fim! Não tem de ser este o nosso destino!, gritava a rãzinha da esquerda agitando as patinhas num desespero.


- Manas, eu recordo-me bem de uma lição que aprendi no meu livro de Físico Químicas! O leite é um líquido e todos os líquidos têm uma força que se chama tensão superficial. Se soubermos manter-nos serenas, se nos soubermos controlar e flutuar, não teremos de morrer aqui!, isto defendia a terceira rãzinha, mas nunca chegou a ser ouvida. A primeira, desistente, já se sumira na superfície leitosa por altura destas palavras e a segunda continuava a espernear num pânico tal e numa tal aflição que nem teve tempo de se afogar... o medo assolou-a de tal forma que o coraçãozito não resistiu e parou, fulminada por um ataque cardíaco, no exacto momento em que o leite começava a solidificar, adquirindo a consistência da manteiga. A terceira rãzinha, a que flutuara, saltou do balde de manteiga, olhou para trás e sentiu uma lágrima correr-lhe pela face. Pobres irmãs! Nunca mais as veria, nunca mais as ouviria zombar daquele seu hábito de pensar nas coisas, de aprender sobre elas...


 


Moral - muitíssimo interrogativa... - da História:


 


Será que vamos sempre precisar dos que são estúpidos e superficiais para podermos sobreviver aos desaires da vida? :)


 


Baseado na Fábula das Duas Rãzinhas que chegou a mim há muitos anos atrás e que não sei se é de Esopo, La Fontaine ou de outro clássico qualquer. Peço mil desculpas mas não tenho tempo para me ir documentar ao Google. Estou com uma mão ferida.


 


Acabadinho de contar para http://fabricadehistorias.blogs.sapo.pt/


 

Comentários

  1. Olá Maria João, que bonita fábula, eu nem tenho tido vagar nem cabeça para escrever uma história, vou ver se consigo esta semana.
    Então o que lhe aconteceu á mão, não me diga que foi outra arranhadela , tenha cuidado com essa coisas, que podem ser muitos perigosas
    Um abraço e as melhoras

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    1. Olá, Idalina! Só vim aqui de fugida, aproveitando a hora do lanche. Calculo que esteja muito atarefada... eu escrevi esta fábula um tanto ou quanto ao correr das teclas.
      Não foi arranhadela, amiga. Foi dentada e bem funda! Tenho a mão toda "feita num oito" :)), mas desta vez não foi o Spirit... foi o Sigmund que não gostou nada da injecção que o veterinário lhe deu... obrigada e um grande abraço!

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  2. Olá minha amiga. Como vai essa mão? E o Sigmund está melhor o danadito?
    Bela fábula, mas fiquei a pensar. É que gosto muito de manteiga. Será que já por lá passaram algumas rãzitas??. Brincadeirinha
    Beijinhos e bom fim de semana

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    1. Ai, Fá!!! O pior é que ele, hoje, tem de levar outra injecção e eu nem sequer consigo ter força na mão direita para empurrar o êmbolo da seringa... enfim! Tudo se há-de resolver. Não sei bem como, mas sei que sim!
      Abraço grande!

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    2. Ó ´Fá... ele continua muito desanimado. Quase não come e praticamente não se levanta... tenho sido eu a dar-lhe as últimas injecções e, depois daquela dentada enorme, não voltou a morder-me. Caramba! Eu adoro aquele gato! Sempre disse que ele era o meu lado felino materializado. Não posso perdê-lo agora! Já não é novo, bem sei, mas os gatos chegam a durar 20 anos, hoje em dia...
      Abraço grande, grande!

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    3. Pobre Sigmund. Lamento saber que não está melhor. Mas os gatos, apesar de viverem muito tempo, são também uns animais muito sensiveis. Mas acredito que com esse carinho todo ele vai recuperar. Não seria "justo" perdê-lo também.
      E a mão?
      Beijinhos

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    4. A mão está melhor, Fá, obrigada :) Continuei a tomar o antibiótico que estava a tomar por causa do braço e, embora doa bastante, não chegou a infectar.
      Bjo! :)

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  3. Olá amiga! Muito bem descrito e adorei a história. acho k todos são precisos nesta vida até aqueles que são futéis e superficiais qto mais não seja para darmos ainda mais valor a não sermos como eles. Linda rãzinha. Estudar e conhecer sempre, todos os dias se aprende algo k nos faz melhores. Beijinho grande e as melhoras da mão.

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    1. É isso, amiga! Todos nós estamos a cumprir os nossos papéis na história da vida e da evolução da humanidade... aquelas rãzinhas - o Flip não aceita o termo "rãzinhas", mas eu insisto nele - estavam numa posição difícil e a única que teve alguma lucidez foi a que, no dia a dia, parecia mais distraída. Foi pena eu não ter tido mais tempo para prolongar a história, mas assim foi. Se tivesse mais tempo, provavelmente acabraia por arranjar maneira de salvar as três... mas isso seria uma fábula diferente... uma que ainda está por contar. :))
      Abraço GDE!

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  4. OLÁ AMIGUINHA JOÃO. MUITOS PARABÉNS PELA FÁBULA ESTÁS DE PARABÉNS E A FÁBRICA DE HISTÓRIAS TAMBÉM. EU ESTOU MUITO PREOCUPADO COM A TUA AVENTURA DE SEGURAR O GATO PARA OS OUTROS O PICAREM. ESPERO QUE ESSAS COISA NÃO DESANDE PARA INFECÇÃO. O QUE É MUITO PERIGOSO. DESEJO-TE AS MELHORAS,. EU ESTOU MELHOR. OBRIGADO. UM BOM FIM DE SEMANA E UM ABRAÇO DESTE AMIGO. EDUARDO.

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    1. Viva, meu amigo! Não te preocupes. Eu estou a tomar antibiótico e a mão já está melhor.
      Hoje tive consulta e exames no hospital, por isso só agora vos venho ler.
      Um grande abraço!

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  5. Mª. João

    Está muito bem contada a Fábula, muito bem

    escrita.

    Mas o final é triste. Só uma se salvou!

    Não podias ter dado um jeito e salvar as três?

    Aflige-me a solidão em que ela vai ficar e as
    irmãs, apesar dos seu defeitos, podiam ter
    sido salvas.
    Mas foi assim.

    Ouço dizer de uma dentada funda na tua mão.
    Quando deram a injecção ao bichinho, outra
    pessoa devia ter pegado nele e amarrar com uma fita leve o focinho. É isso que é obrugatório fazer e não fizeram.
    Não facilites as coisas e cuidado com isso.

    Os animais têm uma enzima (não sei se é este o nome) que é muito difícil de sarar no
    corpo humano. Daí o perigo.

    As melhoras,

    Maria Luísa

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    1. É uma bactéria hospedeira da mucosa da boca dos , gatos, a Pasteurella Multocida. Mas já estou a tomar antibiótico e estou melhor da mão.
      Em relação às rãzinhas, tens toda a razão! Escrevi esta fábula à pressa e nem tive tempo para elaborar a história de modo a salvar as outras duas... mas é baseada num conto que chegou até mim durante os tempos de liceu e, nele, as rãzinhas eram só duas e uma delas também morria.
      Um grande, grande abraço!

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  6. Amiga Maria João, belíssima fábula. Atrevo-me a acrescentar que vejo também outro ensinamento na frase "Se soubermos manter-nos serenas, se nos soubermos controlar e flutuar, não teremos de morrer aqui!" Serenidade é essencial nos momentos difíceis que encontramos por vezes na vida, caso contrário somos "engolidos".
    Abraços. Sandra.

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    1. Olá, Sandra. Sim, é sobretudo isso. Obrigada pela visita. Eu recordo-me perfeitamente de te ter tentado visitar na sexta-feira, mas este equipamento bloqueia muitos blogs e sites. Tem imensos filtros e o Websense é o mais radical de todos! Saber não desesperar é sempre uma virtude que acabará por dar os seus frutos em todas as vertentes. Acredito firmemente que essa seja uma verdade aplicável a todos nós, como muito bem disseste.
      Abraço grande!

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  7. Eu não gosto do desaparecer, por isso, queria

    as três vivas como acontece nalguns filmes

    de aventuras (irreais).
    Um dia disseram-me "tu quando telefonas, só falas de irrealidades"...A pessoa estava em estado terminal e durante a doença de 1 ano,
    (morreu, há cerca de 1 ano), não quis tornar a ver-me. Quanto isso me fez sofrer...
    Eu ouvi e calei! Não era verdade, mas não a quis contradizer.

    No caso das rãs, também sou irreal, quero
    sempre dar um fim feliz a tudo, mas é
    irrealidade, reconheço!

    p.s.Quando tiveres tempo, vai ao m/ blogs, por favor.

    Espero as tuas melhoras

    Mª. Luísa

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    1. Vou já, já, amiga! Só agora cheguei do hospital e fui picada duas vezes... para tirar sangue. Primeiro foi para confirmar ou negar a suspeita de doença Celíaca e depois para vigilância do INR... qwue está demasiado baixo. Bom... nem sei explicar, mas a verdade é que fico sempre doente quando vou ao hospital! Canso-me muito e acabo por reparar em tantas coisas negativas que venho irremediavelmente mal disposta...
      Bjo!

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