UM SINAL COR-DE-BURRO-QUANDO-FOGE


Atravessou com o sinal vermelho. Tinha adquirido aquele perigoso hábito nos tempos em que, ainda jovem, alguém se lembrara de trocar o polícia sinaleiro por aquele mastro inestético, insensível. Era um tempo em que cada segundo era precioso e picar o ponto antes do ponteiro dos segundos cruzar a linha vertical era bem mais imperativo do que obedecer a um sinal.Fosse de que cor fosse.


Mil vezes o haviam alertado. Mil vezes prometera tentar habituar-se. Primeiro com alguma convicção, depois com o automático: - Sim,sim… , de quem tem pressa em livrar-se de um assunto a que não dá a menor importância.


Naquele dia, em nada diferente dos anteriores, o sinal manteve-se invisível, se não aos seus olhos, pelo menos ao cérebro que tão refractário se mostrava em automatizar uma ordem dada por um poste cor-de-burro-quando-foge que, incomodativo, se erguia na perpendicular do plano da calçada…


 Foi exactamente por isso que nesse dia, em coisa nenhuma diferente de todos os outros, quando tentava atravessar a estrada do costume, um carro casual se aproximou vertiginosamente, se deu o inevitável impacto e experimentou a surpresa do voo inesperado.  


Ultrapassou na vertical o poste cor-de-burro-quando-foge, traçando no ar um arco de elipse, percepcionou o despontar de uma imensa dor surda, ergueu os braços numa infrutífera tentativa de se auto-proteger, sentiu que se lhe tornava impossível respirar, assustou-se ao perceber que não picaria o ponto nesse dia, vislumbrou o azul do céu, o branco da fachada do edifício em frente, o cinzento do asfalto, o vermelho da blusa da rapariga boquiaberta que atravessara antes de si e, pela primeira e última vez, viu o sinal mudar para a cor verde de uma esperança que não mais voltaria a fazer sentido.



 


Acabadinho de atropelar para http://fabricadehistorias.blogs.sapo.pt/

Comentários

  1. Antigamente, um homem sinaleiro era mais respeitado do que os postes de hoje. São vistos mas não respeitados e daí os atropelos.

    Boa história para a fábrica de histórias.

    Abraço grande.

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    1. Pois... olha, este texto não é lá muito dentro da lçinha do que eu costumo escrever, mas veio-me à ideia e lá tive de "atropelar" o infeliz... este é mesmo ficcionado! Nem sequer é uma "história-padrão"... é mais o desenrolar de um momento... mas gostei de o escrever!

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  2. Respostas
    1. Aqui elas estão bloqueadas. Quando publico nunca sei se estão a ser vistas por vós...
      Abraço grande!

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    1. Nanda! Daqui não consigo abrir o teu cartãozinho, mas agradeço de qualquer forma!
      Há que tempos te não via! Hoje é que te faço uma visitinha!
      Abraço GRANDE!

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  4. Olá !esta sua história é muito engraçada, embora um bocadinho dramática, mas eu acho que o "velhote" não ficou muito mal. foi só umas "arranhadelas"e dá para sentir que se divertiu ao escreve-la.
    Um abraço

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    1. Olá, minha amiga! Acho que estou a recuperar a minha capacidade de ficcionar... garanto-lhe que nunca fui atropelada! Este personagem parecia existir para além de mim... olhe, não resisti a escrevê-lo!
      Caramba! O que vale é que ainda temos um período de adaptação ao Acordo Ortográfico... não está a ser nada fácil adaptar-me a este acordo maluco! Ainda não sei se "ficção" é uma daquelas palavras que perdem o "c" não cedilhado... mas, seja como for, tenho até 2016 para me habituar...
      Um grande abraço e muito obrigada!

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  5. Poetaporkedeusker:

    Pequena ficção que pode(ria) bem ser realidade, estando, aliás, descrita com realismo: um homem à moda antiga, obcecado por não chegar atrasado ao trabalho e desprezando o semafórico e frio poste por preferir o humano e afável polícia sinaleiro, morre vítima do seu gesto descuidado e arriscado mas também humano, por culpa, além da sua, de alguém que com um carro vertiginosamente, qual mortal e apressada arma, o matou, talvez mais descuidada e arriscadamente.
    Depois desta minha ausenciazinha, os meus votos de melhoras na sua saúde ou até, se possível, a total recuperação.

    Um abraço.
    Mírtilo

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    1. Bom dia poeta Mirtilo! Espero que a sua ausência se tenha devido a umas merecidas férias. Olhe, este ano tem sido o ano das dores de dentes... um malvado de um incisivo que está a caminho de uma desvitalização, começou a doer e assim esteve durante o fim de semana todinho! Hoje já dói menos, mas penso que terei de abreviar a minha consulta na dentista que estava marcada para dia 9...
      Mas "por dentro" estou muito bem! Este solzinho, que veio saudar o início de Fevereiro, deixou-me muito alegre e cheia de vontade de poetar... isso é muito bom porque durante o fim de semana as dores foram tantas que só me nasceram uns "sonetos forçados" que só vou publicar porque penso que, pelo menos, servem para sorrirmos um bocadinho...
      Abraço grande!

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  6. Que agradável surpresa...não tem que ser necessáriamente bonitos sonetos para nos encantar...belo texto,e história para fugir à rotina!

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    1. É uma historinha para a Fábrica, Vítor. Este ano tenho como objectivo dedicar-me um bocadinho mais à prosa... e convém porque já só me falta conversar em decassílabo heróico! :)))
      Eu já aí vou ver se há novidades!
      Abraço grande!

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  7. Para muitos é apenas um sinal, não se importa que actitude se toma , temos presa e a côr do dito tto faz, não se liga se se coloca a nossa vida ou a de outrém em perigo, o pior é quando se deparam quando o inevitavel ...finalmente acontece e depois já é tarde para se pensar, está feito, gostei da tua história que embora ficticia tem muito de real.

    Beijinho cintilante***

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    1. Obrigada, Flor Cintilante. Hoje vou dar uma espreitadela ao teu cantinho, está bem?
      Abraço grande!

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