O APAGÃO - uma visão contra

 



Não. A maioria das pessoas não entendia – nem podia entender – as verdadeiras consequências de um “apagão” energético. Ele, ali, na UCI do hospital, rodeado por convalescentes temporariamente monitorizados, lembrou-se de se lembrar daquilo… depois deu azo a que o momento se espraiasse por toda a sala e deu-lhe uma continuidade lógica. Este, este e este morreriam, sem sombra de dúvida. Claro que havia o gerador de emergência, mas esse funcionaria durante um curto período, devido à sobrecarga, e acabaria, também por se “apagar”. Contudo era evidente que a esmagadora maioria se rendia à hipótese revivalista de ficarmos sentados à lareira… conversas mais íntimas, mão na mão, jogos de cartas à luz das velas, famílias que haviam deixado de o ser, refeitas de um dia para o outro, num passe de magia… talvez fosse melhor pensar assim. Logo a ele lhe ocorrera prognosticar, naquela noite, o que realmente se passaria com aqueles seus doentes caso a energia se interrompesse assim, sem mais nem ontem!


Três dos pacientes que estariam irremediavelmente condenados eram ainda jovens e tinham um bom prognóstico de recuperação… mas precisariam de utilizar o suporte de vida durante alguns dias. Largos dias, pelo menos um deles… e isto era ali, naquela UCI, daquele determinado serviço do seu muito específico hospital… muitos mais hospitais com muitas mais UCIs se potenciariam em muitíssimos mais doentes condenados, caso o tal “apagão” viesse a dar-se.


Não podia ser pacífico pensar naquilo. Há alguns anos atrás nenhum daqueles acidentados teria sobrevivido. Esse era um daqueles factos que só poderiam ser mudados por um milagre daqueles muito, muito milagrosos e ele aprendera que esses só acontecem de quando em vez… por isso sabia bem que aqueles seus doentes iriam morrer, tal como teriam morrido se tivessem nascido três ou quatro décadas antes e tivessem passado por aquilo que haviam efectivamente passado… e qual seria a diferença? A diferença estaria exactamente na variável tempo. Única e simplesmente na variável “Tempo”. Há quarenta anos atrás, nenhum apagão poderia pôr em risco a vida dos três jovens acidentados… porque eles não teriam sobrevivido. Agora – e ele sabia muito bem que este “agora” pressupunha a passagem de quatro décadas – eles teriam ainda uma vida pela frente… e ele lembrara-se de pensar num eventual “apagão”! Quem o mandava, a ele, ser médico e, ainda por cima, um ser “pensante”?


 


 


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Disse António de Sousa,


“Deus me livre do pecado de não ter pecados enquanto os homens forem pecadores.”


 


 

 



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Comentários

  1. Espectacular minha amiga. Adorei! E eu que trabalho num hospital eheh...mas não sou médica, só um ser pecador. Mtos beijinhos minha amiga

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    1. Olá, Sindarin! Gosto muito desta citação do António de Sousa. Penso que dá muito, mesmo muito que pensar e resolvi publicá-la neste contexto de post.
      O meu texto saiu assim... eu sei que poderia ter explorado o lado mais romântico ou o mais fantasioso, mas pressenti que essa seria a escolha da maioria... claro que posso estar erradíssima, mas foi assim que ele resolveu "nascer"! :)
      Bjo GDE!

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  2. Sabes...

    Alguns meses atrás tivemos um apagão aqui no Brasil, até hoje sem uma explicação clara. Imagina o caos nos hospitais?
    Foi exatamente isso mesmo que aconteceu... e gente morreu.


    Abraço grande

    Vera

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    1. É exactamente essa uma das desgraças que podem acontecer se houver um apagão generalizado, amiga. Talvez por isso me tenha nascido este texto, assim de repente...
      agora, na Madeira, muita gente esteve numa situação semelhante, sem qualquer tipo de comunicação e sem poder receber ajuda.
      Abraço grande!

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