SÁBADO, DOMINGO E SEGUNDA FEIRA X

 



 


 


 


A PROCURA


 


Procuro, não te encontro e, se duvido


Dessa tua presença vertical,


É por ser tão humana e sem sentido


Não é por querer negar-te ou dizer mal…


 


Procuro mais ainda e, se divido


Esta minha incerteza ocasional


Com quem estiver por perto, quem comigo


Possa sentir que isto é disfuncional,


 


É porque esta procura se demora


Na esquina dos minutos que há na hora,


Ao longo duma estrada que não finda.


 


Procurando, caminho estrada fora


E enquanto caminho, como agora,


Descubro o que em procura se deslinda…


 


 


Maria João Brito de Sousa


 


 


A ONDA


 


Se uma onda, em chegando, te afogar,


Traiçoeira, em marés que não previste,


Vê bem se foste tu que assim pediste,


Se a onda, por si só, te quis molhar…


 


Se saltou sobre ti quando, ao passar,


No pontão, nem sequer te preveniste,


Ou se age por vontade e não resiste


A afogar quem se chega ao pé do mar…


 


Eu própria nunca o sei mas, se calhar,


As ondas também podem protestar


Ou decidir, até, sobre o que existe…


 


Se não, ó meu irmão, tiveste azar


E a onda, por acaso, ao rebentar,


Levou-te, inteiro, o corpo que vestiste…


 


Maria João Brito de Sousa


22.05.2010 – 18.35h


 


 


 


 DESPEDIDA


 


Ah! Se é por mim que ele se recusa a ir,


Se a morte o chama e ele não lhe obedece,


Como hei-de eu estar feliz, poder sorrir


Como quem, sem dar luta, aceita e esquece?


 


Como pedir-lhe para desistir?


Como inventar, pr`a ele, mentira ou prece,


Se ele mesmo lhe resiste ao não partir,


Se assim se escusa a quem tão mal conhece?


 


E nesta dor – tão lenta – , a despedida


Mais parece perversa do que mansa,


Dói mais do que o cutelo de um instante!


 


Mas, se hei-de abreviar-lhe esta partida,


Por que razão evoco, ainda, a esperança?


Qual delas – vida ou morte? - a mais distante?


 


Maria João Brito de Sousa

Comentários

  1. Boa tarde Maria João, que bonitos sonetos, como sempre.
    Gostei de todos mas o segundo está muito actual com as vidas que se perderam este fim de semana nas praias , pede-se tanto cuidado mas cada vez mais as mortes acontecem.
    O ultimo parece-me que tem a ver com o Kico ", ou será que estou enganada.
    Um grande abraço

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    1. Tem sim senhora, minha amiga! O da onda veio na sequência de todas essas mortes e o último tem a ver com o Kico que não está em sofrimento, mas está "por um fio"... sinto que está vivo só por que é muito teimoso e ainda luta por viver.
      Agora vou entregar as telas para a exposição e depois vou, novamente, ao veterinário com ele. Já não devo conseguir voltar à net hoje.
      Um grande abraço!

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  2. Olá poetisa,. fim de semana em cheio na pena leve do soneto...enorme essa fecunndidade !!! Quantos livros já dariam????
    Ando a fazer um apanhado para publicar, sonetos de itália, de nervi, do mar, coisa assim no género, mas a produção tem sido muito pouca. Bacio.

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    1. Ah, Peter, mas tem sido muita desde que o conheço!
      Se conseguir vir até cá abaixo, ao coração da minha Oeiras, vai poder estar em dois eventos muito interessantes. Um deles é já na próxima quinta feira, na Galeria Verney, às 18h. É quando a Associação de Moradores de Nova Oeiras inaugura, em parceria com a CMO, uma exposição de obras dos artistas plásticos de Nova Oeiras. O outro evento, Os Espantalhos Poéticos, vai ser inaugurado às 15h do dia 29, sábado, no Jardim Municipal de Oeiras. Já imaginou o soneto formalmente clássico a sair às ruas e a dialogar com os transeuntes numa linguagem perfeitamente acessível? Eu acho que vai ser uma delícia!
      Bacini!

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  3. Sempre belos sonetos!
    Ora triste, ora saudoso, mas sempre belo.

    Abraço grande!

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    1. E tu estás longe, amiguinha, mas eu adoraria ter-te nos eventos desta semana. Vai haver pintura e até espantalhos que se transformam em poetas!
      Abraço grande!

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  4. Despedida! Palavra que fere o coração de quem ama. Ah, despedida! Como me separaste do meu outro eu por algum tempo.
    Como foste ousada em tirar de mim algo que compunha o meu ser.
    Mas, os dias se vão e, na vida, com novas voltas e idas, temos muitas despedidas.
    O que mais me fascina na poesia e nos poetas é a arte que eles possuem para fazer recordar e renascer o amor.
    Continue a produzir sonhos e amor, Maria João!

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    Respostas
    1. Sim, meu amigo. Continuarei. Afinal parece que é a única coisa que ainda vou conseguindo fazer... hoje vou iniciar a publicação de alguns dos sonetos e imagens dos espantalhos que ontem "invadiram" o jardim Almirante Gago Coutinho, junto à praia de Stº Amaro de Oeiras. Já tinha os três sonetos habituais do fim de semana, mas prefiro divulgar um pouco mais estes espantalhos poéticos que irão estar no jardim até ao próximo domingo.
      Abraço grande!

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