SÁBADO, DOMINGO E SEGUNDA FEIRA XXI

 


 



 


FORÇA


*


 


Vem-nos, a força, duma alma crestada


Por átomos solares, ocasionais,


E, às vezes, conseguimos fazer mais


Quando julgámos não poder mais nada…


*


 


Vem impossível, mais do que adiada


- à luz das consciências mais normais -


Reencher-nos de sonho o velho cais


Da barca eternamente naufragada


*


 


 


Virá de onde diríamos não vir


A mais remota sombra de um auxílio;


Improvável, absurda e, no entanto,


*


 


Vem como se quisesse destruir


As fronteiras reais do nosso exílio


Pra vir morar connosco em qualquer canto.


*


 


Maria João Brito de Sousa – 13.11.2010 – 13.42h


 


 


 


DO LADO DE CÁ


*


 


Deste lado, o de cá, está tudo instável!


Se eu abrandar, fazendo o que puder,


Talvez me sinta bem, mais confortável,


Mais pronta pr`a criar e pr`a escrever…


 


 


Do outro lado, a dor insuportável


Que nem sequer me deixará escolher


Se lhe mostrar fraqueza incontestável


Ou der quaisquer sinais de me render…


*


 


Do meu “lado de cá” – alguns não são


Tão esdrúxulos quanto o é este daqui… -


Há sempre algo de mim que, em mim, resiste,


*


 


Algo que não aceita a submissão,


Algo que, ao dar a volta sobre si,


Se escapa, se ultrapassa e não desiste.


 


*


 


 


Maria João Brito de Sousa – 12.11.2010 – 18.55h


 


 


 


POETA/MENINO


 


 


Morreu na convergência dos seus dias.


Ninguém diria dele que houvesse errado,


Que tivesse mentido ou descurado


A concretização das fantasias


*


 


Lá tinha as suas dores, melancolias,


Mas fora, sobretudo, abençoado


Com um carácter tão determinado


Quanto o dos homens sãos, sem vilanias.


»


 


Morreu na hora certa, como morrem


As aves, os heróis e as ondas mansas


Que cumprem, neste mundo, o seu destino.


*


 


Diria; “Fui daqueles que mais descobrem


Os sonhos, por detrás de outras crianças,


Na condição de ser sempre menino…”


*


 


 


 


 


Maria João Brito de Sousa – 14.11.2010 – 17.01h


 

Comentários

  1. Estes poemas andam muito profundos, poetisa!!! Bonitos e plenos de coisas!
    bacio.

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    Respostas
    1. E é que andam mesmo, Peter! Eu tenho sempre a cabeça cheia de coisas que constantemente analiso e tendo a ir-me esquecendo do que escrevi antes... estes seus comments fizeram-me reler-me e reparar que, efectivamente, andei a viver uma semana muito... muito filosófica :))
      O soneto de hoje é muito... embirrento:) Ontem à noite estava zangada com o meu corpo "empenado" e lembro-me de ter tomado a decisão -pontual! - de não pensar :))) durante uns tempos! Sei que é impossível, mas deu-me para aquilo :)))
      Muito obrigada e bacini!

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    2. refletem sempre o nosso estado de alma.
      ás vezes mais, outras menos... há dias !!!

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    3. :)) Todos temos os nossos dias... também não conheço poeta nenhum que tenha estipulado este tipo de produção - um soneto por dia - mas eles lá vão cumprindo o seu papel enquanto poemas. Pelo menos eu acredito que sim...
      Bacini!

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