TROVAS À TROIKA


Olho este povo cansado


De ver a vida a passar,


De viver das aparências


Na mais dura das carências


A que o vão fazer chegar


Para o terem bem calado…


 


Meu povo tão criativo


De poetas e cantores,


Gente com caule e raiz


Que nunca será feliz


Nas mãos dessoutros senhores


Que o querem manter cativo


 


Vejo a gente nas canseiras


Das noites sobressaltadas


Pelos dias sempre incertos


E nos olhos, muito abertos,


Mil perguntas formuladas


De mil e uma maneiras…


 


 


Ah, povo, se fores dormir


E eles tentarem sufocar


O cravo que tens no peito


Ao roubarem-te o direito


De viver, de trabalhar


E, até mesmo, de sentir…


 


Oiço a gente que murmura,


Que duvida e quer respostas,


Que não consegue entender


Porque é que há-de acontecer


Que as regras sejam impostas


Como eram na ditadura


 


Povo de garra, com garras,


Que rosna sob um chicote


Que a muitos soube calar


Mas que recusa aceitar


As loucuras de um Quixote


Que nunca vestiu samarra!


Não cales, povo que sofres,


A tua revolta imposta


Por amos que não quiseste!


Mostra-te indómito, agreste,


Diz que Portugal não gosta


Que disponham dos seus cofres


Ou da força dos seus braços


Cansados de não saber


Se, amanhã terão trabalho,


Se lhes fica, ou não, retalho


Do que puderem colher,


Do fruto dos seus cansaços!


 


[este povo inda tem garra


pr` a derrubar os chicotes


que o tentarem subjugar


e recusa-se a aceitar


ordens vindas de Quixotes


sem burrico e sem samarra!]


 


 


Maria João Brito de Sousa 


 

Comentários

  1. Rosa Silva ("Azoriana")9 de maio de 2011 às 15:38

    Antes de ler este teu artigo, também criei algo relacionado com Portugal. Interessante que estamos todos com uma onda de melancolia contagiante.
    A tua criação está excelente. A minha apenas está conforme eu: cansada.

    Beijinhos! Se Portugal se salvar tem muito para contar...

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    Respostas
    1. Ai, Rosinha! Eu vou já ao teu cantinho! Parece que tens toda a razão e que os portugueses não se estão a entregar de bandeja!
      Abraço enorme e até já!

      Eliminar

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