DAS TOURADAS E DAS GRANDES CONVICÇÕES - Carta aberta ao meu avô poeta


… e depois, António,


eles benzer-se-ão e partirão gloriosos


para a mortandade


sem que os tenhamos podido desculpar


e agradecerão as palmas


com a consciência do ritual cumprido


e haverá crianças


- crianças como eu era quando,


ao vê-los,  fugia do ecrã da televisão… -,


haverá crianças, António,


que também baterão palmas


e que crescerão embaladas


pela apoteótica matança,


abençoadas pelo deus a que eles se confiaram


e em que eu nunca acreditarei


porque, perdoa-me, António,


eu não posso, nem quero, acreditar


nesse mesmíssimo deus cruel e estúpido,


se ele for tão estúpido e tão cruel


que abençoe a ritualização da tortura…


 


 


 


Ou fomos nós que


sempre estivemos enganados?


Ou fomos nós que


errámos quando condenámos a raiz comum


de todas as descriminações


e de todas as atrocidades?


Ou éramos só nós que víamos,


nos olhos do touro,


a mesma inocência dos dos cristãos novos, no Paço,


dos dos negros, nos porões das naus,


dos dos judeus, em Auschwitz,


dos dos nossos amigos, nas masmorras da Pide?


 


Todos diferentes, todos animais,


António…


 


E eu, António,


eu que, hoje, como há cinquenta anos,


os sinto, os entendo


e, do mais fundo de mim,


os tento perdoar,


não consigo deixar de condenar


essa crua faceta de tantos


 


tantos dos que,


caminhando sobre duas patas,


acreditam que a dor é monopólio seu


e que a racionalidade


lhes confere o direito de SERem os únicos.


 




 


TODOS DIFERENTES, TODOS ANIMAIS!




 


Ao meu avô, António de Sousa, Poeta, tradutor, advogado, crítico literário e um daqueles seres vivos que sempre acreditaram na sensibilidade de todos os outros.


 


Maria João Brito de Sousa - 07-06-2011-11:41h




[against all odds, com honras de blog principal]




 


Ps – Perdoa-me se te arrasto o nome para o campo de uma batalha que prevejo desproporcional, dura e infindável. Por esta altura, tu, lá na tua Ilha de Sam Nunca e eu, ainda por cá, fisicamente desgastada, pouco mais poderemos emprestar para além disto; nome e versos… mas não fomos nós quem sempre acreditou na força das convicções e das palavras que as levam mundo afora?


 

Comentários

  1. Maravilhoso, Mª. João, belo demais minha
    amiga - muito belo!
    Fiquei sem palavras! Parabéns chegaste ao cimo, um pouco desgastada, como tu dizes e eu acredito, poeta amiga.
    Me deixaste assombrada com o que escreveste!
    Bravo poeta - não há palavras...

    Maria Luísa

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    1. Obrigada por entenderes, Maria Luísa!
      Um abraço grande!

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    2. Entendi
      E de que maneira eu entendi. Um encanto!

      Mª. Luísa

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    3. Receei que alguma leitura mais superficial pudesse chocar alguém, mas depois lembrei-me que uma das funções da Poesia é isso mesmo; abanar as pessoas, confrontá-las com realidades que vão passando desapercebidas porque, nesta vida apressada, outras se vão impondo de forma mais premente...

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    4. É isso que dizes, a poesia significa liberdade!

      E em "poucas palavras" dizer o que muitos não sabem dizer em "muitas palavras".

      Eu também sofri de melancolia misturada de
      tristeza pelo que li e te digo :

      "está, exepcionalmente, bem escrito"

      Mª. Luísa

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    5. Muito obrigada, amiga! Muito obrigada por entenderes!
      Enorme abraço!

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  2. Muito bonito Maria joão, eu percebo muito bem o sentido das suas palavras, porque eu tambem não perco tempo a ver torturar os animais, tenho mais coisas para fazer do que ver "atrocidades"
    Um braço

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    Respostas
    1. Muito obrigada, minha amiga Idalina!
      Só cheguei neste momento e terei de sair já, já, porque o almoço tem horas certinhas, mas já vi que tenho mais comments e vou pedir reserva de equipamento para as 14 horas em ponto.
      Um enorme abraço!

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  3. Poeta, por mais que eu tente, nunca consegui entender tradições que se traduzam em violência, sejam elas contra quem forem. Acredito que o ser humano precisa evoluir.Aquilo que antes era banal,com o entendimento , com o conhecimento adquirido deveria mudar.Ainda assim, o homem ainda não se tornou tão "humano"que consiga abolir de todo a violência.Ele ainda tem necessidade de a cultivar.Que pena!
    As palavras estão duras,sim.Mas impregnadas do mais puro sentimento, o de preservar a vida! Parabéns pela coragem!

    Beijos

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    Respostas
    1. :) Olá, Ivete! Eu também não! Mas sou assim desde pequenina, sabes? Em minha casa os animais sempre foram tratados com todo o respeito e carinho, respeitando, claro, as características da sua espécie... mas foram sempre muito respeitados. Nunca, nunca aceitarei este tipo de rituais e tens toda a razão quando dizes que deveríamos evoluir, pelo menos no que de nós depende!
      Um enorme abraço e muito obrigada!

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  4. Lindo!
    Adoro! Somos todos animais mesmo...racionais ou não, depende da nossa forma de agir :)
    Acho que o teu avô ia concordar com tudo o que disseste :)

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    1. :) Obrigada! Obrigada pelas palavras e por teres vindo até cá!
      Abraço grande!

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  5. Não, qualquer pessoa pode concorrer :)
    Sim, hoje está um tempo mesmo esquisito :/ mas amanhã já prevêem aumento da temperatura :D Amanhã já podes andar com o cabelo molhado :P

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    1. :)) Adoro andar com o cabelo molhado, a escorrer pelas costas! Obrigada pela indicação... vou ver se consigo dar um pulinho até lá na 2ª feira. Hoje não vai dar tempo de certeza... continuo lenta e tenho montanhas de correio para abrir e enviar...
      Bjo!

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  6. Respostas
    1. Com a ajuda de todos espero conseguir :)
      Bom trabalho então ^^ Eu tenho um relatório para acabar de fazer :P

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    2. Olha, nem acreditas! O Poeta Zarolho deixou-me sonetilhos e já me saíram dois, espontâneos, no Montanhas... mas vê quando e se quiseres... eu continuo atrapalhada com esta lentidão toda...
      Bjo!

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    3. Ele também me deixou um ainda esta semana :D
      Eu vou já lá ;)

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    4. É que me despertou mesmo a veia espontaneísta!!!
      :))

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  7. Ainda bem que ele te mandou o sonetilho então :D
    Já postas-te? Estou lá, mas não vejo nada de novo ainda :$

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    1. está nas respostas do Montanhas! :)) Ele faz sonetilhos nos comments e eu respondo-lhe da mesma forma! :))
      Teve tanta graça! Vai aos comments!

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    2. Ai, manda-me o link...
      Valha-me um burro aos coices e outro aos pinotes que eu não vejo nadinha :P :$

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    3. :))) http://asmontanhasqueosratosvaoparindo.blogs.sapo.pt/ estão sonetilhos em dois poemas, mas eu já nem te sei dizer... acho que é no último e no penúltimo... valha-me, também, o teu burrico! :))

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  8. q
    Que bonito! Tão bem descrito....!!!! Sabes todos nós "temos um Antonio" na nossa vida e foi isso que me enterneceu e fez justificar a minha estada nesta vida....que bem-! Adorei! Beijinhos apertadinhos....

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    1. Obrigada, minha Ligeirinha! Obrigada do fundo do

      Abraço grande, grande!

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