CIDADE SEM SENTIDO(S) - Soneto de nove sílabas métricas
Se a Cidade contasse os segredos
Das janelas fechadas dos dias
Quantos rostos e mãos não verias
Nas cortinas já gastas dos medos,
Quantos corpos em estranhos folguedos,
Quantas camas desfeitas, já frias,
Quantas mesas de pinho vazias
De uns pedaços de pão, mesmo azêdos?
Se a Cidade pudesse falar
E se erguida do chão, a gritar,
Rebentasse em protesto incontido
Levantando o seu punho no ar...
(ah, Cidade que eu tento inventar,
nem eu própria sei dar-te um sentido!)
Maria João Brito de Sousa - 05.10.2011 - 15.03h
Imagem retirada da Internet, via Google
Se a Cidade falasse, com certeza que teria muita coisa a contar :)
ResponderEliminarUm belo retrato Maria :) Basta deixar a imaginação fluir através das palavras e podemos imaginar cada pormenor ^^
É uma maravilha conseguir fazer isso com os textos... qualquer texto, desde que consigamos "aderir" a ele, pode proporcionar essas imagens se tiver um mínimo de qualidade... mas nem todos conseguem "ler" dessa forma, Paper. Por isso é tão importante este elo que se cria entre o texto - poético ou não - e o seu leitor.
EliminarObrigada e um enorme abraço!
Já me sinto a viajar nessa cidade!
ResponderEliminarÉ um bocadinho selvagem, como eu às vezes sou, esta Cidade que "inventei" quase compulsivamente, Poeta. Selvagem no bom sentido... eu acho que o melhor de mim é um bocadinho selvagem e estou a lembrar-me de imensas coisas que, no meu léxico pessoal e intimista, têm uma boa conotação e, para muita gente, uma má conotação... e garanto que vou fazendo um esforço por entender e aceitar as metáforas de toda a gente...
EliminarAbraço grande e até já! :)
Meu caro Pedro
ResponderEliminarO vetusto soneto apareceu. Continuo a encontrá-lo um pouco mórbido. Por outro lado, fico com o meu ânimo mais elevado, porque o meu estado de espírito actual, passados 57 anos e já na corrida para a meta final, proporciona-me um humor menos funesto. Estarei a rejuvenescer? Espero bem que sim, que a ferrugem das nossas carcaças nada tenha a ver com o que elas encerram, a nível dos neurónios. O pior é que a todo o momento pode haver um corte nos circuitos.
Mas no que respeita ao meu primeiro soneto estava para aí, num ficheiro que eu chamei «sem rumo certo» e assim sendo compreende-se que por falta de rumo e de arrumo, ele não aparecesse. O interesse manifestado pela Poetisa, talvez tenha contribuído para a sua emergência das trevas por onde se ocultava, por isso, envia-lho para ela o interpretar.
Do Além – l954 ou 1955.
Ó mãos tão puras das namoradas
Trazei-nos flores p´ras nossas campas
Vinde enfeitá-las, bem enfeitadas
Ó mãos tão ternas, ó mãos tão brancas.
Trazei-nos muitas e matizadas
Ó mãos tão lindas, de graças tantas…
Trazei-nos rosas, mesmo encarnadas
Trazei de todas p´ras nossas campas
Ó mãos tão puras das namoradas
Ó mãos de neve, que sois tão belas
Aquecei estas qu´estão geladas
Ó mãos tão alvas, ó mãos de Santas
Andai depressa, vinde aquecê-las
Que há tanto frio, cá nestas campas…
Eduardo
Muito obrigada pelo envio do seu precioso soneto, meu amigo Eduardo. Quem sou eu para fazer uma análise de um soneto, ainda por cima com uma temática tão romântica e que permite tantos, tantos tipos de leitura? Não me parece um soneto funesto e sim um que aposta na metáfora erótica, desde o início até à última palavra. Sei que pode ser uma leitura muito minha e não encontrar facilmente quem lhe dê uma interpretação similar, mas foi assim que li o seu soneto.
EliminarÉ-me facílimo imaginar este poema cantado por jovens estudantes a jovens meninas, estudantes ou não. Peço desculpa se a minha análise lhe parecer completamente fora do que esperava...
Continuo decidida a enviar-lhe o soneto do meu avô.
Um abraço para si e esposa.
Maria João
Aqui vai o soneto prometido, amigo Eduardo!
EliminarBELEZA FRIA...
Deus fez dos teus cabelos os trigais;
Dos teus olhos azuis a luz do dia;
Do teu riso bendito essa alegria
Que as aves andam a cantar, joviais...
Da tua dôr, a dôr que os pinheirais
Gemem à tarde, sob a aragem fria
E do teu pranto essa malancolia
Que tem a onda a suspirar aos ais
E dos teus seios virgens, fez as fontes
Onde bebem a graça e a beleza
As pastoras gentis que andam nos montes
E do teu peito frio, o duro gelo
Desolador, mais triste que a tristeza:
- O sol do Amôr não poude derretel-o!
Lisbôa, Março de 1916
António de Sousa
PS - Mantive a grafia original do manuscrito, um caderninho de rascunhos do jovem poeta.
“Vagas”
ResponderEliminarSe te quedas imperturbável
Num cantinho d’encantar
Não encontrarás solo arável
Para a semente germinar
Deixa a zona confortável
Um dia poderás encontrar
Vaga alterosa e instável
Como quem se faz ao mar
Sente o perigo muito perto
Como qualquer navegante
Que navega em mar aberto
Ao alcançar porto de abrigo
O desconforto reconfortante
Sente nos braços dum amigo.
Eu não acredito! Perdeu-se um sonetilho que fiz agora mesmo! Já não consigo fazer outro igual!
EliminarMuita gente há, por aí,
EliminarQue tendo muita saúde
Pensa que não e se ilude
Mas não é o caso, aqui...
Amar tão só porque é moda
Não me cabe nas ideias
E as minhas andam tão cheias
Que tudo o mais me incomoda...
Mais a mais ainda creio
Que pr`amar dessa maneira
Deveria apaixonar-me...
Não tendo qualquer receio,
Não quero fazer asneira
E muito menos casar-me!
Poeta, o primeiro sonetilho que fiz em resposta a este, desapareceu no ecrã... este não estará exactamente igual mas foi o que me saiu...
Abraço grande! :D
Que bela cidade!
ResponderEliminarPudera habitá-la e em suas ruas ornadas de flores formar alguns versos.
Belos versos, belo soneto, bela cidade poetisa!
Boa noite... ou bom dia. Hoje estou atrasadita, amigo! Fui ao seu blog mas não encontrei nada publicado...
EliminarAbraço grande e muito obrigada!
LINNNDO, Maria João. Como o sinto!
ResponderEliminar... e dizer mais palavras seria fazer ruído.
Obrigada uma vez mais, POETA!!!!!!!!!!!!
Um abraço bem apertado e muito amigo!
Sempre,
Isabel
Boa noite e muito obrigada pelas suas palavras, Isabel!
EliminarVenho um tanto ou quanto furiosa com o Facebook. Tanto quanto percebi, alguns murais estão a ser vigiados porque existem demasiadas queixas, alguns comentadores exaltam-se e, uma vez por outra, lá aparecem uns comments menos ortodoxos... mas eu gostaria de saber quem poderá dizer que foi insultado ou maltratado por mim... mesmo quando não estou , de todo em todo, de acordo com aquilo que é publicado, eu esforço-me sempre por utilizar a minha racionalidade nos comentários! Nunca insultei ninguém e limito-me a manifestar publicamente a minha opinião sobre todos os assuntos que me pareçam pertinentes e sobre os quais eu me sinta minimamente informada.
farei os possíveis e os impossíveis para que este tipo de decisões arbitrárias não volte a ser tomado!
Foi a primeira "vítima" da minha indignação, desculpe-me.
Abraço grande!
Caro Pedro
ResponderEliminarAs tuas «VAGAS de DISCURSOS» cá nos vão chegando para consolo nosso. Gostámos.
Diz à «POETISA da LINHA» que lhe estou imensamente grato pelo comentário que lhe mereceu o meu vetusto soneto. Ter a paciência de o ler já era bastante. Gostei muito da interpretação, embora não saiba avaliar da sua justeza, por já ter passado muito tempo e eu ser fraco em introspecção. Mas aquela delícia de dizer que o meu soneto é uma metáfora encantou-me tanto como a de o imaginar a ser cantado em sentida serenata, entre capas ondulantes por apaixonados estudantes na escadas da Sé Velha.
Obrigado Maria João de Sousa. Assim deu vida a um soneto do além. Espero o soneto do seu avô que há-de ser bem mais delicioso do que o meu.
Um abraço de amizade, meu e de minha esposa
Eduardo.
Meu amigo Eduardo,
EliminarReceio não ter tido tempo para criar algum distanciamento do local de onde acabo de vir e onde acabo de ser "censurada" à boa maneira do 24 de Abril.
Gostei muito do seu soneto, repito o meu pedido de desculpas sobre a interpretação que ele me suscitou e garanto-lhe que foi um prazer lê-lo.
Mas, neste momento, estou debaixo do efeito do lápis azul que me riscou o mural. Não conseguiria falar de outro assunto e não o quero massacrar com o ressurgimento dos fantasmas da censura... que, pelos vistos, estão bem vivinhos e, tal como outrora, continuam a ser estúpidos e não distinguem um insulto de uma opinião ponderadamente partilhada. Desculpe-me.
Um abraço para si e esposa,
Maria João
Caro Pedro
ResponderEliminarFiquei a pensar se a Maria João de Sousa não levará a bem a minha brejeirice de lhe ter chamado «Poetisa da Linha». Espero que não pois não foi meu intuito ofender quem tanta consideração me merece.
Também um dia fui «poeta da linha» há já uns anos num encontro que a Junta de Freguesia de Cascais, ou do Estoril, não me lembro já, promoveu, em homenagem ao grande Almeida Garrett que por aquelas paragens passou muitos dos seus dias. O mote eram os dois primeiros versos de um soneto e eu tratei assim o tema que agora ofereço à Maria João de Sousa com a minha admiração e para que me perdoe o meu desaforo:
Nesta poética solidão donde lhe escrevo,
Debaixo do mesmo tecto em que Garret viveu
Queria eu hoje dizer-lhe, mas nem sei se devo
Que também tenho a ventura de olhar este céu…
E assim se dá a natureza, com enlevo
Aos senhores da fama, a nobre e a plebeu
Repartindo, generosa sem dar o relevo
De pensar, mesquinha, a quem já mais deu
Se o vate era famoso e ágil com a pena
E fez, pressuroso, viagens na minha terra
Eu, aqui prostrado, sorvo a aragem amena
Sem reclamar nem louros e nem louvaminhas
A ver, deleitado, o mar e lá mais longe a serra,
Revejo-me em olhos verdes de mil Joaninhas.
Eduardo
:) O último verso deste belíssimo soneto deixou-me a sorrir, meu amigo Eduardo. Agradeço-lhe muitíssimo ter-mo dedicado e garanto-lhe que também não me importei nada de nada com o facto de ser apodada de "Poeta da Linha"... até achei muita graça e não poderia dizer que o não sou... poucas pessoas serão mais fiéis do que eu sou a este estuário do Tejo e poucos poetas terão crescido a olhar, como eu, a linha dos comboios da CP...
Eliminaro que a mim me importa - e muitíssimo! - é que uns palermas quaisquer me tenham censurado a escrita do Facebook. Sobretudo porque eu estou seguríssima de nunca ter sido ofensiva para ninguém. Não só me censuraram a escrita como o acesso às páginas de amigos e familiares! Isso, meu amigo, é que eu posso considerar atentatório de muitas coisas que foram duramente conquistadas.
Muito obrigada e não me leve a mal o facto de lhe não responder em soneto... a doçura - quase sempre... - do soneto nada tem a ver com a quase fúria em que me encontro neste momento e que apenas foi aplacada pelo seu soneto e até pelo título que me conferiu :)
“Mundo ignorante”
ResponderEliminarDizem que o mundo mudou
Mas o que mudou no mundo?
Acordemos! Um galo cantou
Que sono letárgico e profundo
Ninguém parece querer acordar
É mais fácil tácita concordância
Rabo a abanar e língua a salivar
É mais incomoda a discordância
A ignorância é irmã da felicidade
Vives feliz se o mundo ignorares
Tornaste cúmplice desta alegria
A ganância é a mãe da maldade
Que corrói deste mundo os pilares
E te embala neste sono de letargia.
Já lhe dou a letargia
EliminarE mais o diabo a sete
Que nos rouba uma alegria
De escrever, como promete!
É o raio da censura
Ou é o lápis azul!
Só se escreve enquanto dura
A viagem para o sul...
E falam de liberdade,
De justiça e de igualdade...
Até falam da partilha!
Olhe... não fosse tão tarde,
Fazia um tremendo alarde
E deixava de ser ILHA!!!
Ainda bem que o susto não lhe assiste porque, acredite, eu estou capaz de assustar muita gente. Abraço grande, Poeta!
“A gota de água”
ResponderEliminarO Titanic já se está a afundar
Só há salva-vidas pr’alguns
A orquestra continua a tocar
Indiferente a todos os zunzuns
Lembrei-me agora de repente
Vamos ocupar Wall Street
Não ao capital, sim a nós, gente
Não aos cravos, sim à dinamite
Já viram a beleza da democracia
Que todos os excessos permite
Há que inventar algo novo
Como acontece à autocracia
Já que a democracia não se demite
Também cairá pela força do povo.
Não sei poeta... eu sei lá
EliminarSe o Titanic afundou
Ou se, ao contrário, estará
Mais seguro do que eu estou...
Só posso dizer que fui
Muito bem silenciada
E a escrita já não me flui...
Não posso escrever mais nada!
Só me calam por escrever
De um sítio desprotegido
Muito bem localizado
Noutro não me deixam ver
Se uma imagem faz sentido
E até o som me é negado...
Abraço, Poeta! Não está a ser fácil responder-lhe e o Face, daqui, deste específico computador, não me deixa entrar...