GLOSANDO FLORBELA ESPANCA (2)

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Eu


Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
Sou a crucificada ... a dolorida ...

Sombra de névoa ténue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida! ...

Sou aquela que passa e ninguém vê ...
Sou a que chamam triste sem o ser ...
Sou a que chora sem saber porquê ...

Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver
E que nunca na vida me encontrou!

Florbela Espanca, in "Livro de Mágoas"


 


EU


 


Eu, em contrapartida, sei quem sou;


Poeta, fui-o sempre, a vida inteira,


Dos versos dedicada companheira,


Rocha, ou papoila, que do chão brotou


 


E, depressa demais, desabrochou,


Tomando a sua própria dianteira


Na caminhada junto à ribanceira


Em que o passo apressado a colocou,


 


Mas vive, agora muito lentamente,


Um tempo mais incerto e mais urgente


Que teima em não para pr`a repousar


 


E que passa por ela e segue em frente,


Sem dar conta do mal que faz à gente


Que vai estando cansada de passar...


 


 


Maria João Brito de Sousa - 28.01.2016 - 11.00h


 


 


 


 

Comentários

  1. “Birkenau now”

    Se fores refugiada
    No reino da dinamarca
    Tu serás espoliada
    Desse vestido de marca

    Recebes serapilheira
    Conforme foi definido
    Assim desta maneira
    Confeccionas um vestido

    Para a estada pagar
    Deixas o computador
    Ou outro qualquer tesouro

    Em breve vai começar
    Neste reino de terror
    Caça aos dentes de ouro.

    Prof Eta

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    Respostas
    1. Sei, Poeta! O pesadelo,
      É real, infelizmente,
      Vai-se o couro e o cabelo
      De qualquer sobrevivente

      Desse drama sem medida
      Que vive o refugiado
      Quando, ao lutar pela vida,
      Tudo o mais seja roubado...

      É complexo, o drama imenso,
      Da gente aterrorizada
      Que fica, segundo penso,

      À mercê da mão pesada
      De quem, sem qualquer bom-senso,
      Não quer saber del`s pr`a nada...

      Maria João

      Poeta, segue com o abraço de sempre!


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  2. “Assumidamente louco”

    Assumidamente louco
    Esta é a minha verdade
    Que a sanidade é pouco
    Pr’entender a realidade

    Com esta loucura invoco
    As forças dum outro eu
    P’ra que se juntem em bloco
    Neste ser que se transcendeu

    Ao tornar-se loucamente são
    Em apelo à loucura vigente
    Tentando reverter a situação

    Dos loucos que já o não são
    Só pode ser gente doente
    Pois sanidade não é solução.

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    Respostas
    1. Poeta, gente saudável,
      Nem sempre é muito "certinha"
      E quase nunca é "moldável"
      Pois nem sempre "anda na linha"

      E nem sempre é compatível
      Com tudo o que faz passar
      Que é bem bom ser susceptível,
      Deixar-se influenciar...

      Os "conceitos de saúde"
      Que vão sendo - quase...- impostos,
      São coisa que não me ilude

      E vão-me dando desgostos...
      (há variáveis que, amiúde,
      se estampam nos próprios rostos...)

      Maria João


      Tudo bem convosco Poeta?
      Este meu sonetilho "martelado" ficou um bocadinho hermético, eu sei, mas... olhe, parece-me que o modelo de "cidadão ideal" que nos é impingido/vendido/injectado a cada segundo, não privilegia nada a inteligência... mas esta é a minha forma de estar no mundo, sempre dentro das circunstâncias e do pouco que me vai sendo dado observar. Abraço grande!

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  3. “Cidadão”

    Vendo ideal de cidadão
    P’rá sociedade frenética
    Coloca pouco questão
    E é parco em fonética

    Traz desconto em talão
    Barato e já formatado
    Ministrado em injecção
    Num frasco já preparado

    Permitindo a extensão
    Da sua garantia total
    Por um prazo milenar

    Melhor não encontrarão
    E você cidadão fenomenal
    Não questione, vá comprar.

    Prof Eta

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    Respostas
    1. Cidadão com visão crítica

      Ai, não compro, não senhor,
      Pois quase não compro nada! (rsrsrsrsrs...)
      Sou sempre "mau comprador",
      Tenho a bolsa esvaziada,

      Não reconheço o valor
      Dessa "treta" anunciada
      E há muito que sei de cor
      Como a coisa é processada,

      Pois, consumista, não sou,
      Bem muito pelo contrário,
      E a canção não me "soou"

      Como sendo necessário
      Crer no que tanto "cantou"
      Como sendo um bem primário...


      Maria João


      Saiu-me "em flecha", este, Poeta, rsrsrsrs... abraço grande!

      Eliminar

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