GLOSANDO FLORBELA ESPANCA (15)

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HORAS RUBRAS





Horas profundas, lentas e caladas
Feitas de beijos rubros e ardentes,
De noites de volúpia, noites quentes
Onde há risos de virgens desmaiadas...

Oiço olaias em flor às gargalhadas...
Tombam astros em fogo, astros dementes,
E do luar os beijos languescentes
São pedaços de prata p'las estradas...

Os meus lábios são brancos como lagos...
Os meus braços são leves como afagos,
Vestiu-os o luar de sedas puras...

Sou chama e neve e branca e mist'riosa...
E sou, talvez, na noite voluptuosa,
Ó meu Poeta, o beijo que procuras!

Florbela Espanca, in "Livro de Sóror Saudade"





HORAS RUBRAS





"Horas profundas, lentas e caladas",


Feitas de espanto e reflexões prementes


Que se vão desvendando, transparentes,


Porque sempre se insurgem, revoltadas...





"Oiço olaias em flor às gargalhadas"


E só vejo, afinal, rangendo os dentes,


Pessoas que contemplam, impotentes,


As próprias mãos vazias e cansadas...





"Os meus lábios são brancos como lagos"


Emitindo uns protestos neutros, vagos,


Contra outra mão, burguesa e esmagadora;





"Sou chama e neve e branca e mist'riosa",


Mas mesmo sendo eu fraca, é vigorosa


A rubra força que em mim cresce agora!





Maria João Brito de Sousa - 04.02.2016 - 12.35h








 

Comentários

  1. Mas mesmo sendo eu fraco, é vigorosa

    A rubra força que em mim (também) cresceu agora!

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  2. REMÉDIO SANTO

    Na TV, já ouvi eu
    Em linguarejar retórico,
    Falar do dia europeu,
    Nem mais, do antibiótico!

    E ouvi, é anedótico,
    Que Portugal mereceu
    Aquele lugar simbólico
    De quem mais drogas comeu…

    E apesar de engolir
    Anti-vírus, sem parar
    Ele não para de tossir…

    Se é assim tão forte o vírus
    Teremos que o isolar
    Para evitar mais espirros.

    Eduardo

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Julgo ser a estátua viva
      Dessa singular matéria
      Que, espero bem, esteja activa
      Pr`a aniquiilar-me a bactéria...

      Vírus, não! Estou é cativa
      De uma coisa muito séria;
      É bacilo, o que me priva
      De julgar que é só "pilhéria"...

      O país, tal qual se passa
      Comigo e neste momento,
      Apanhou germe que grassa

      Para seu e meu tormento...
      Não tusso, é outra a desgraça,
      Mas é grande o sofrimento...


      Maria João


      Muito grata por mais este sonetilho, amigo Eduardo!
      O meu, o que mais uma vez desencadeou um quadro infeccioso, não é vírus, é bactéria e pelas próprias características da infecção, não é passível de contágio...

      Forte abraço!!!

      Maria João

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  3. É impossível ficar indiferente às emoções que transparecem na sua poesia.

    Gostei muito

    Manu

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