GLOSANDO FLORBELA ESPANCA (19)
O MEU MAL
Eu tenho lido em mim, sei-me de cor,
Eu sei o nome ao meu estranho mal:
Eu sei que fui a renda de um vitral,
Que fui cipreste e caravela e dor!
Fui tudo que no mundo há de maior;
Fui cisne e lírio e águia e catedral!
E fui, talvez, um verso de Nerval,
Ou um cínico riso de Chamfort...
Fui a heráldica flor de agrestes cardos,
Deram as minhas mãos aroma aos nardos...
Deu cor ao eloendro a minha boca...
Ah! De Boabdil fui lágrima na Espanha!
E foi de lá que eu trouxe esta ânsia estranha!
Mágoa de não sei quê! Saudade louca!
Florbela Espanca, in "Livro de Soror Saudade"
MEU BEM, MEU MAL...
"Eu tenho lido em mim, sei-me de cor"
E a cada verso mais me vou sabendo,
Como se sabe a flor do aloendro
Que desconhece ter-se aberto em flor.
"Fui tudo o que no mundo há de maior;"
Um átomo do espaço a que me prendo,
Cada espasmo do orgasmo a que me rendo
E o sofrimento em que me deixa a dor.
"Fui heráldica flor de agrestes cardos",
Fiz minha a devoção de antigos bardos
Mordendo a própria boca amordaçada.
"(Ah!) De Boabdil fui lágrima na Espanha!"
Se o gesto desfalece e se me entranha
A decepção de nem ter escrito dito nada.
Maria João Brito de Sousa - 11.12.2016 - 14.05h
“Dormências”
ResponderEliminarA sopa está quente
E o caldo entornado
Tenho o braço dormente
E o cérebro encerrado
O desafinado está presente
Mas muito desafinado
Este samba é urgente
Já o escuto em qualquer lado.
Zé da Ponte
Vou à Ponte, Poeta!
Eliminar“Secura”
ResponderEliminarDia mundial da poesia
Primeiro de primavera
Há muito que não escrevia
E o tempo está tão bera
Chuva a cântaros mil
Fonte de poemas secou
Veremos se no mês de Abril
Já a primavera regressou
Por agora é só granizo
Com muito frio à mistura
Sem que haja explicação
Não me pagam o prejuízo
Enquanto existe secura
Na fonte da inspiração.
Ai, Poeta, eu bem o sei;
EliminarChoveu na minha cozinha,
Não calcula o que eu passei,
Nem que sorte foi a minha...
Quantos baldes despejei!?
Decerto não adivinha
As penas que ontem penei
Por causa dessa "chuvinha"...
Quanto à bela inspiração,
Estando em fase de "pousio",
Lá se foi, de sopetão...
Espera, talvez, menos frio
Para renascer de um chão
Mais são, embora tardio...
Maria João
Cá vai com o abraço grande de sempre, Poeta!
Não estou mesmo nada, nada bem; só à custa de muita força de vontade consigo estar aqui, ao computador... esta infecção não está para brincadeiras e por mais que eu tente, não me deixa sossegar nem um minutinho e continua a progredir... (só fiz asneiras, ontem, desde trocar o dia da consulta a esquecer-me completamente da reunião online...)