GLOSANDO ANTÓNIO DE SOUSA
EXÍLIO
Cobriu-me de desprezo o dia pardo,
a flor azul do riso das donzelas,
o lento rio de águas amarelas
e o frio, que pesava como um fardo...
Meu sonho - vôo tonto de moscardo
a tentear vidraças de janelas -
zoava de horas túmidas e belas;
morria, seco e duro como um cardo.
Sempre de mim a mim, nos meus caminhos,
pedindo em vão a esmola de vizinhos
e lume certo a um lar que não tem brasas.
(Menino triste que já é demais,
sou de filhos, irmãos, mulher e pais
para esconder do Céu uns cotos de asas.)
António de Sousa
In "Livro de Bordo" (1ª edição), Editorial Inquérito
O CAIS
"Cobriu-me de desprezo o dia pardo"
que violava as frestas das janelas
como a nortada enfuna as rotas velas
da minha barca de pirata... ou bardo...
"Meu sonho - vôo tonto de moscardo"
somando à própria fuga, outras procelas... -
perdidos mastro e leme, embate nelas
e cai pesadamente, como um fardo.
"Sempre de mim a mim, nos meus caminhos",
tecendo, para as velas, novos linhos
e esculpindo-lhes versos que são remos,
"(Menino triste que já é demais",
vá eu por onde for, se aporto ao cais,
direi que um cais nos deu tudo o que temos!)
Maria João Brito de Sousa - 15.11.2016 - 12.10h
Os versos são mesmo remos. Quem os sabe usar pode "viajar" por onde quiser. Muito bonitos e tocantes. Beijinhos e festinha para a nossa amiguinha
ResponderEliminarEsta alegoria da Barca - Jangada do Eterno, nele...- é mútua, Fashion, embora eu a sinta como minha desde que me lembro de ser eu...
EliminarA Natália Correia encontrou "Atlantismo e Insularidade" em toda a poética de António de Sousa, na biografia que dele nos deixou... penso que esse atlantismo ainda me habita também, sempre com o estuário do Tejo por detrás, como raiz e/ou pano de fundo, visto que junto dele cresci...
Não deve haver cenário melhor, para se viver...
EliminarAh, para mim, não há mesmo, Fashion!
EliminarEu costumo dizer que tenho uma costela de gato por ser tão gregária... mas não é o espaço visto como propriedade, em mim... é outra coisa; é mais uma fusão, uma consubstanciação com o espaço físico...
“Our corner”
ResponderEliminarIf I was a rich man
I could buy the milky way
If it comes to promotions
I would buy it other day
I’m not that poor either
So I can tell people to stay
In this corner of the universe
And do not be afraid.
Zé da Ponte
Never wanted to be rich,
EliminarNever wanted to be poor
And never had such a speach;
I`m just a poet, for sure...
Maria João
Cá vai, Poeta,com um abraço, em apenas uma quadra que foi a que me ocorreu ao lê-lo.