GLOSANDO ALICE MENDES
O DIA NASCEU DEVAGARINHO
Hoje o dia nasceu devagarinho
Quando o sol despertou a madrugada
Abanou ao de leve aquele ninho
Construído há muito na ramada.
Levou-me no meu sonho de mansinho
Para outro caminho, outra estrada
Como se fosse um débil passarinho
Que voava tão pouco…quase nada.
Se a sua luz entrou pela janela
Raiando com intensidade bela
Capaz de iluminar o meu porvir,
Deixou um bom odor e sensação
Fiquei com alecrim no coração
No rosto, só o esgar do meu sorrir.
Alice Mendes
30.10.2016
PONDO OS PÉS NO CHÃO, AO DESPERTAR
"Hoje o dia nasceu devagarinho",
Com pés de lã prudentes, cuidadosos,
Escondendo o astro-rei nalgum cantinho
Dos céus acinzentados, nebulosos.
"Levou-me no meu sonho de mansinho"
Por mágicos caminhos pedregosos
E trouxe-me de volta ao velho ninho
Fazendo-me esquecer seus magos gozos...
"Se a sua luz entrou pela janela",
Fazendo esmorecer a luz da vela
Que iluminava um corpo adormecido,
"Deixou(-me) um bom odor e sensação",
Mas trouxe-me de volta à dimensão
Das mil funções do corpo, ao ter-me erguido...
Maria João Brito de Sousa -01.11.2016 - 10.16
“Pastéis”
ResponderEliminarDa joalharia de Belém, pastéis
Jamais irei sair de mim
Interpretarei novos papéis
Apodrecendo até ao fim
Diamantes da confeitaria
Que eternos nunca serão
Nem eterna é a pastelaria
Que os pastéis são como são
Degustados pelo prazer
Nesta eternidade finita
Com o fim a acontecer
Faço votos de permanecer
Nos meandros desta escrita
E na joalharia de Belém, comer.
Prof Eta
Muita coisa há em Belém;
EliminarJóias, pastéis, presidentes...
Rico é o bairro que os tem,
Ricos, os seus residentes.
Nem lá passo se estou bem,
Só fico entre outros doentes
E quando lá passo nem
Reparo se tem, pendentes,
Jóias ou seja o que for...
Mas são bons, os tais pastéis,
Com canela polvilhados;
Jóias, com todo o rigor,
Embrulhadas em papéis,
Ou dos papéis despojados...
Maria João
Bom dia, Poeta. Cá vai o que me ocorreu a partir da leitura deste seu singular sonetilho... que, hoje, estando no meu fim-de-mês, até caíriam que nem jóias, uns pasteizinhos de Belém, mesmo não sendo eu gulosa. Abraço grande e um Feliz Natal.
Gosto quando os dias começam devagarinho e posso vir ao seu cantinho! Adorei os dois. beijinhos e muitas festinhas
ResponderEliminarPara mim, começam sempre devagarinho, por fora, mas impõem-me sempre mil e uma pressas que quase nunca vou conseguindo acompanhar...
EliminarPelo que toca ao meu soneto, muito obrigada, Fashion!
Beijinhos e festinhas!
“Brutais”
ResponderEliminarEu não posso engravidar
Porque útero nunca tive
Por isso deixem-me estar
Do meu corpo ninguém vive
Mas minh’alma pode parir
Bem p’ra cima dum milhão
E das mais qu’estão p’ra vir
Outras tantas nascerão
São de partos naturais
Estas palavras sem rosto
Que nascem sem permissão
Tantas vezes feias brutais
Muito mais do que o suposto
Sem nunca pedir perdão.
Prof Eta
Seja então feita a vontade
EliminarQue afirma ter sido a sua;
Dê à luz em liberdade,
Ora em casa, ora na rua,
Sempre que a rima o invade,
Brilhe o sol, ou exprima a lua
Toda a sua suavidade,
Enquanto a alma se estua...
Seja vasta a sua prole
Que, por força a quer brutal;
Poema não tem controle
E, no mundo virtual,
Pouco ou nada há que o console,
Nem há quem o leve a mal...
Maria João
Cá vai, Poeta, um pouco menos brutal, mas bastante compreensiva em relação à brutalidade do que entenda parir. Abraço grande!