GLOSANDO FERNANDO PESSOA III

Narciso - Caravaggio.jpeg


 


 


QUALQUER COISA DE OBSCURO PERMANECE





Qualquer coisa de obscuro permanece
No centro do meu ser. Se me conheço,
É até onde, por fim mal, tropeço
No que de mim em mim de si se esquece.

Aranha absurda que uma teia tece
Feita de solidão e de começo
Fruste, meu ser anónimo confesso
Próprio e em mim mesmo a externa treva desce.

Mas, vinda dos vestígios da distância
Ninguém trouxe ao meu pálio por ter gente
Sob ele, um rasgo de saudade ou ânsia.

Remiu-se o pecador impenitente
À sombra e cisma. Teve a eterna infância,
Em que comigo forma um mesmo ente.


 


 


Fernando Pessoa





(In, pensador.uol.com.bras)





CONTRASTE


(Chiaroscuro)





"Qualquer coisa de obscuro permanece"


Na sombra de uma luz, quando se acende


O brilho da luzerna que pretende


Iluminar alguém que a não conhece;





"Aranha absurda que uma teia tece",


Que fia cada fio que em manto estende,


Porquanto desse manto ela depende


E tão só pelo manto permanece,





"Mas, vinda dos vestígios da distância",


Como um resto de cinza incandescente


- qualquer restinho é sombra de importância... -,





"Remiu-se o pecador impenitente"


Dessa louca obsessão feita inconstância,


Mas permanece a sombra, omnipresente.








Maria João Brito de Sousa -04.12.2016 - 14.30h





Imagem - "Narciso" - Caravaggio


 


   

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