CONVERSANDO COM FLORBELA ESPANCA - Morte

alegoria da morte.jpg


 


DEIXAI ENTRAR A MORTE

Deixai entrar a morte, a iluminada,
A que vem para mim, pra me levar,
Abri todas as portas par em par
Como asas a bater em revoada.

Que sou eu neste mundo? A deserdada,
A que prendeu nas mãos todo o luar,
A vida inteira, o sonho, a terra, o mar,
E que, ao abri-las não encontrou nada!

Ó Mãe! Ó minha Mãe, pra que nasceste?
Entre agonias e em dores tamanhas
Pra que foi, dize lá, que me trouxeste

Dentro de ti?...pra que eu tivesse sido
Somente o fruto das entranhas
Dum lírio que em má hora foi nascido!...



Florbela Espanca





In, "Charneca em Flor"





****************************





ORDEM DE PRORROGAÇÃO DE SENTENÇA





Desvia essa gadanha, ó velha Parca,


Que por mais alguns anos ta dispenso,


Pois, se ontem te venci, melhor te venço


Enquanto em vida deixo a minha marca





E enquanto for levando a minha barca


Por entre um nevoeiro espesso, denso,


Prossigo nesta rota do bom-senso


Assim que a bujarrona se me encharca





Do sal marinho, quando o vento o traz


À minha barca que demanda a paz


No mar de um Sonho que em tempos me coube





E a todas as barreiras liquefaz;


Aos sonhos que me ficam para trás,


Não há, pr`a já, gadanha que mos roube!


 





Maria João Brito de Sousa - 14.02.2017 - 10.37h








 

Comentários

  1. “Regressos”

    O tempo não regressava
    E no tempo se perdia
    Enquanto nele pensava
    O seu eco já não se ouvia

    E as palavras foram ditas
    Demóstenes as proclamou
    Umas poucas, as proscritas
    Algum demo as carregou

    E a lua então aparece
    Nesta estrofe não sei porquê
    Talvez seja uma oportunidade

    De regresso à reflexão
    Suspenso não sei no quê
    Mato o tempo sem ansiedade.

    Prof Eta

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    Respostas
    1. Se ao tempo não for matando,
      O Tempo me mata a mim,
      Por isso o mato criando
      Até que me chegue o fim.

      Cada cigarro "esticando",
      Pesa tanto, o Tempo, assim,
      Que parece ir-me esmagando
      Neste inferno, antes jardim...

      Aos mestres da oratória,
      Não quero, nem bem, nem mal...
      Deixai-os ficar na história

      Da grande História Mundial;
      Não gasto a minha memória
      Na palavra, quando oral.

      Maria João

      Cá vai o que me ocorreu, tal como a si lhe ocorreu surgir uma lua no início da terceira estrofe, Poeta.

      Abraço grande.

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  2. «Não há, pr`a já, gadanha que mos roube!»

    Verso final,
    parece uma declaração, enquanto lido
    se declamado
    parece grito

    Florbela te invejaria

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Bom dia, Rogério.

      Obrigada pelas tuas palavras, mas foi apenas um desabafo e não acredito lá muito que Florbela me invejasse... ou talvez sim, mas apenas por teimar em viver...
      Sobretudo por teimar em sobreviver nestas condições e por ainda ter conseguido escrever um soneto, apesar de todos estes "racionamentos" de visão, mobilidade, autonomia e... cigarros.

      Fote abraço.

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  3. “Estilhaços”

    Transcende-te e dá a paz
    Muito poucos o farão
    Prova assim que és capaz
    De estender a tua mão

    Definha e dá a guerra
    Caminho da facilidade
    Que dessa forma encerra
    Capítulo da humanidade

    Numa perfeita harmonia
    Com receita inquinada
    Polvilhada de podridão

    E assim não tarda o dia
    Em que a paz estilhaçada
    Resulte na tua explosão.

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    Respostas
    1. Transcendo-me a cada hora
      Das manhãs em que, acordando,
      Vejo que este mundo chora,
      Cada vez mais vai chorando

      E que, às vezes, se demora
      Reflectindo, ou contemplando,
      Quanto, ao passar-se "lá fora",
      Bem por dentro o vai minando...

      São estilhaços? Talvez sejam,
      Ricochetando tormentos,
      Reflexos que o não protejam

      Das tempestades e ventos,
      Ou de quanto os olhos vejam
      Quando se olham mais atentos...

      Maria João


      Bom dia, Poeta. Cá vai com o abraço de sempre.

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