CONVERSANDO COM FLORBELA ESPANCA - Morte
DEIXAI ENTRAR A MORTE
Deixai entrar a morte, a iluminada,
A que vem para mim, pra me levar,
Abri todas as portas par em par
Como asas a bater em revoada.
Que sou eu neste mundo? A deserdada,
A que prendeu nas mãos todo o luar,
A vida inteira, o sonho, a terra, o mar,
E que, ao abri-las não encontrou nada!
Ó Mãe! Ó minha Mãe, pra que nasceste?
Entre agonias e em dores tamanhas
Pra que foi, dize lá, que me trouxeste
Dentro de ti?...pra que eu tivesse sido
Somente o fruto das entranhas
Dum lírio que em má hora foi nascido!...
Florbela Espanca
In, "Charneca em Flor"
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ORDEM DE PRORROGAÇÃO DE SENTENÇA
Desvia essa gadanha, ó velha Parca,
Que por mais alguns anos ta dispenso,
Pois, se ontem te venci, melhor te venço
Enquanto em vida deixo a minha marca
E enquanto for levando a minha barca
Por entre um nevoeiro espesso, denso,
Prossigo nesta rota do bom-senso
Assim que a bujarrona se me encharca
Do sal marinho, quando o vento o traz
À minha barca que demanda a paz
No mar de um Sonho que em tempos me coube
E a todas as barreiras liquefaz;
Aos sonhos que me ficam para trás,
Não há, pr`a já, gadanha que mos roube!
Maria João Brito de Sousa - 14.02.2017 - 10.37h
“Regressos”
ResponderEliminarO tempo não regressava
E no tempo se perdia
Enquanto nele pensava
O seu eco já não se ouvia
E as palavras foram ditas
Demóstenes as proclamou
Umas poucas, as proscritas
Algum demo as carregou
E a lua então aparece
Nesta estrofe não sei porquê
Talvez seja uma oportunidade
De regresso à reflexão
Suspenso não sei no quê
Mato o tempo sem ansiedade.
Prof Eta
Se ao tempo não for matando,
EliminarO Tempo me mata a mim,
Por isso o mato criando
Até que me chegue o fim.
Cada cigarro "esticando",
Pesa tanto, o Tempo, assim,
Que parece ir-me esmagando
Neste inferno, antes jardim...
Aos mestres da oratória,
Não quero, nem bem, nem mal...
Deixai-os ficar na história
Da grande História Mundial;
Não gasto a minha memória
Na palavra, quando oral.
Maria João
Cá vai o que me ocorreu, tal como a si lhe ocorreu surgir uma lua no início da terceira estrofe, Poeta.
Abraço grande.
«Não há, pr`a já, gadanha que mos roube!»
ResponderEliminarVerso final,
parece uma declaração, enquanto lido
se declamado
parece grito
Florbela te invejaria
Bom dia, Rogério.
EliminarObrigada pelas tuas palavras, mas foi apenas um desabafo e não acredito lá muito que Florbela me invejasse... ou talvez sim, mas apenas por teimar em viver...
Sobretudo por teimar em sobreviver nestas condições e por ainda ter conseguido escrever um soneto, apesar de todos estes "racionamentos" de visão, mobilidade, autonomia e... cigarros.
Fote abraço.
“Estilhaços”
ResponderEliminarTranscende-te e dá a paz
Muito poucos o farão
Prova assim que és capaz
De estender a tua mão
Definha e dá a guerra
Caminho da facilidade
Que dessa forma encerra
Capítulo da humanidade
Numa perfeita harmonia
Com receita inquinada
Polvilhada de podridão
E assim não tarda o dia
Em que a paz estilhaçada
Resulte na tua explosão.
Transcendo-me a cada hora
EliminarDas manhãs em que, acordando,
Vejo que este mundo chora,
Cada vez mais vai chorando
E que, às vezes, se demora
Reflectindo, ou contemplando,
Quanto, ao passar-se "lá fora",
Bem por dentro o vai minando...
São estilhaços? Talvez sejam,
Ricochetando tormentos,
Reflexos que o não protejam
Das tempestades e ventos,
Ou de quanto os olhos vejam
Quando se olham mais atentos...
Maria João
Bom dia, Poeta. Cá vai com o abraço de sempre.