GLOSANDO JORGE DE SENA

A morte do cisne.jpg


 


INDEPENDÊNCIA


 


 


Recuso-me a aceitar o que me derem.
Recuso-me às verdades acabadas;
recuso-me, também, às que tiverem
pousadas no sem-fim as sete espadas.

Recuso-me às espadas que não ferem
e às que ferem por não serem dadas.
Recuso-me aos eus-próprios que vierem
e às almas que já foram conquistadas.

Recuso-me a estar lúcido ou comprado
e a estar sozinho ou estar acompanhado.
Recuso-me a morrer. Recuso a vida.

Recuso-me à inocência e ao pecado
como a ser livre ou ser predestinado.
Recuso tudo, ó Terra dividida!

Jorge de Sena, in 'Coroa da Terra'


 


 


 


 


... OU MORTE.





"Recuso-me a aceitar o que me derem",


Enquanto o não pagar. E pago foi


Por estas mãos que quase nada auferem


Deste trabalho infindo que as corrói.





"Recuso-me às espadas que não ferem"


E à forja em que uma espada se constrói,


Pois, de todos os gumes que me esperem,


Há-de ser sempre o meu que mais me dói.





"Recuso-me a estar lúcido ou comprado"


E recuso-me a ser manipulado


Pelas razões de outra razão qualquer.





"Recuso-me à inocência e ao pecado"


E a viver sorrindo conformado,


Porque aceitá-lo obriga-me a morrer!








Maria João Brito de Sousa - 02.02.201 - 08.23h


 

Comentários

  1. “Nova ordem”

    Por ver tudo desfocado
    Suspeitei da própria lente
    Mas ao ver o resultado
    Estaria desfocada a mente

    O hemisfério analisado
    Via o mundo diferente
    E depois de projectado
    Não era acidentalmente

    Que se estava a impor
    Nova ordem imponente
    Que renegava o amor

    E muito eficazmente
    Implementava o terror
    Entre o povo descontente.

    Prof Eta

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    Respostas
    1. Não sou nenhuma fiel crente das teorias da conspiração, Poeta. Estão demasiado cheias de absurdos e disparates anti-científicos de todo o tipo, mas, num ou noutro ponto, não afirmo que não coincidam com o que realmente se está a passar... vamos a isto, embora já me não recorde do que escrevi no sonetilho-resposta em que menciono a desfocagem da lente... afinal, tudo é mesmo uma questão de perspectiva...


      Pensar objectivamente,
      Repensar e analisar,
      Torna uma coisa aparente
      Noutra... também de assustar,

      Mas fica mais limpa a lente,
      Disso não vou duvidar,
      Pois respeito muito a mente
      Que passo a vida a limpar.

      Quanto ao amor... está na gente;
      Que nunca se imponha "amar",
      Pois nasce naturalmente,

      Não o vou desvirtuar,
      Porque é coisa que se sente,
      Não serve pr`a sujeitar.

      Maria João

      Cá vai, com o abraço de todos os dias!

      Eliminar
  2. Não maior
    mas tão grande
    quanto o mentor

    porque muito bom


    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Obrigada, Rogério.

      Muito, mas muito raramente, mesmo, sigo o "fio condutor" do poema original, quando gloso seja quem for... esta glosa foi uma excepção e a mensagem que deixei é quase uma repetição da mensagem de Jorge de Sena, de tal forma o soneto dele é intenso e eu me identifico com o que ele expressou neste específico soneto.

      Abraço!

      Maria João

      Eliminar

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