GLOSANDO TEIXEIRA DE PASCOAES

TEIXEIRA DE PASCOAES POR COLUMBANO B. PINHEIRO


 


 


TRISTÊZA


 


O sol do outomno, as folhas a cair,
A minha voz baixinho soluçando,
Os meus olhos, em lagrimas, beijando
A terra, e o meu espirito a sorrir...

Eis como a minha vida vae passando
Em frente ao seu Phantasma... E fico a ouvir
Silencios da minh'alma e o resurgir
De mortos que me fôram sepultando...

E fico mudo, extatico, parado
E quasi sem sentidos, mergulhado
Na minha viva e funda intimidade...

Só a longinqua estrela em mim actua...
Sou rocha harmoniosa á luz da lua,
Petreficada esphinge de saudade...

Teixeira de Pascoaes, in 'Elegias'


 


 


(Foi respeitada a grafia original)


 


***************************


 


ROTA


 


 




"O sol do outomno, as folhas a cair"


Dos ramos açoitados, baloiçando,


Porque o vento implacável vai soprando


E antecipando o frio que irei sentir,


 


"Eis como a minha vida vae passando"


E como, apesar disso, hei-de cumprir,


Enquanto esta vontade o consentir,


Os dias que essa vida me for dando...


 


"E fico mudo, extatico, parado"


À espera, sem saber se é já chegado


O instante derradeiro, o da partida;


 


"Só a longínqua estrela em mim actua",


Iluminando a Barca que flutua


Ao sabor das marés da minha vida...


 


 


Maria João Brito de Sousa - 01.03.2017 -12.58h


 


Retrato de Teixeira de Pascoaes, Columbano Bordalo Pinheiro


 

Comentários

  1. “Das palavras”

    Palavras estão inventadas
    Ouvi dizer então acredito,
    Prontas p’ra ser utilizadas
    Aqui ou em qualquer escrito

    Algumas serão abusadas
    Por algum escritor maldito
    Outras porém bem tratadas
    E essas então eu repito

    Umas já nasceram tortas
    Mas que sejam respeitadas
    Como todas as outras são

    E algumas jazem mortas
    Foram palavras torturadas
    Antes mesmo da revolução.

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    Respostas
    1. Pode crer; são maltratadas,
      Até por mim que, mal vendo,
      Já vou dando "calinadas"
      E com "gralhas" vou escrevendo...

      Palavras "mal amanhadas"
      De que logo me arrependo
      Porque, ao vê-las "trucidadas",
      Nem às que escrevo eu entendo

      Se incompletas são grafadas
      Neste fundo em que as desvendo
      E com "gralhas" às carradas,

      Quando a correcção defendo...
      Que fazer, se as grafo erradas?
      Que crime vou cometendo?

      Maria João

      Bom dia, Poeta. Calhou vir-me à ideia esta minha crescente limitação visual que já me causou muitos problemas. Agora, para escrever cada linha, cada verso, levo um tempo infinito e, mesmo assim, deixo escapar muitas "gralhas"...como sempre escrevi à velocidade do pensamento, a poesia, para mim, perdeu grande parte do seu "sabor"; escrever - para mim, repito - já não é exactamente aquilo que era, acredite.

      Um abraço grande!

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  2. “Dissoluções”

    Sozinho no universo
    Remando contra a maré
    Assim fico mais disperso
    E bebo mais um café

    Estando a mente aberta
    O conhecimento fugiu
    Cafeína mantem o alerta
    Mas a edificação ruiu

    Dessa água não beberei
    Afirmo com convicção
    Do universo, nada sei

    Não procuro a solução
    Nem identifico uma lei
    Mas sinto a dissolução.

    Prof Eta

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    Respostas
    1. Café (Dis)solúvel

      "Quão mais só, menos disperso",
      No que aos versos diz respeito;
      Não escrevo enquanto converso,
      Nem versejo "por defeito"

      Quando, em melodia imerso,
      Esse universo é sujeito,
      Mas não escrevo. agora, um terço
      Do que escrevia, a preceito...

      Nem sequer tomo um café,
      A não ser, de manhãzinha,
      Um solúvel, feito em casa,

      Que o da rua caro é...
      Que o tome a minha vizinha,
      Porque eu estou na "maré-vaza"...

      Maria João

      Bom dia, Poeta. Desculpe o disparate que para aqui vai, mas foi tudo o que me ocorreu depois de uma noite de cãibras, muito pouco simpática...

      Abrço grande.



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