CONVERSANDO COM JOSÉ SARAMAGO

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SONETO ATRASADO





De Marília os sinais aqui ficaram,
Que tudo são sinais de ter passado:
Se de flores vejo o chão atapetado,
Foi que do chão seus pés as levantaram.

Do riso de Marília se formaram
Os cantos que escuto deleitado,
E as águas correntes neste prado
Dos olhos de Marília é que brotaram.

O seu rasto seguindo, vou andando,
Ora sentindo dor, ora alegria,
Entre uma e outra a vida partilhando:

Mas quando o sol se esconde, a noite fria
Sobre mim desce, e logo, miserando,
Após Marília corro, após o dia.





José Saramago


In “Os Poemas Possíveis”


 


**************


 


SONETO DO ENCONTRO TARDIO





Atrás de mim vieste e me alcançaste


No rasto dos sinais por mim deixados,


Mas tivesse eu mais rio, mais chão, mais prados,


Soubesse eu desses sonhos que sonhaste,





Mais sinais deixaria onde passaste;


Mais lágrimas, mais risos entoados,


Mas muito menos passos apressados


Teria dado até onde me achaste...





Caminhava apressada pela vida,


Sem cuidar de cuidar que havia um fim,


Sem notar que passava distraída,





Mas que um rasto deixava e, sendo assim,


Te apontava uma rota percorrida


Que antecipava a tua, atrás de mim...





Marília





(Maria João Brito de Sousa – 20.11.2012 – 11.20h)

Comentários

  1. Pois
    o Saramago pra quem conheceu
    decerto que a Marília adoeceu...

    Mas de tristezas é também feito o Mundo
    e num segundo
    deixo o desejo de uma sossegada noite
    Beijinhos

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    Respostas
    1. Anjo, não conheci pessoalmente José Saramago, mas conhêço-lhe bem a magnífica obra em prosa. Apenas não fazia a menor ideia de que ele tivesse escrito um soneto camoniano... e este SONETO ATRASADO, é-o.

      Não sei se esta Marília existiu, ou se é apenas um personagem por ele criado, mas resolvi responder-lhe vestindo a pele dela.

      Que tenhas uma noite serena e repousada.

      Beijinho

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    2. Um bom e feliz dia desejo eu também...

      Beijinhos

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    3. Desejo uma boa e feliz noite
      de aqui da Terra do Zeberin

      Beijinhos e uma feliz noite aconchegada

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  2. Se um dia regressar às "Homilias"
    o que pode vir a acontecer em Janeiro próximo
    abro com um poema dele. Talvez este

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    Respostas
    1. Espero voltar a lê-lo nas "Homilias", Rogério!

      Eu desconhecia que José Saramago tivesse escrito um soneto em decassílabo heróico. Encontrei-o por mero acaso, pois não tenho a obra "Os Poemas Possíveis"... foi muito recente o meu primeiro contacto com a sua vertente poética.

      Abraço grande!

      Maria João

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  3. “Da rosa”

    Já só vivo em meus filhos
    Como um cristo assumido
    Eles serão meus cadilhos
    Mesmo após haver partido

    Não os livro de sarilhos
    No caminho percorrido
    Saudáveis são os trilhos
    Sussurrados ao ouvido

    Espinhos eu não os sinto
    Pois que a rosa escolhida
    Sabe ir muito mais além

    E a ninguém desminto
    Pois até a própria vida
    É nossa oferta também.

    Prof Eta

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    Respostas
    1. Vivo ainda para mim,
      Inda que sobrevivendo,
      Entre o princípio e o fim
      Daquilo que vou escrevendo.

      Às rosas do meu jardim,
      Não as colho, nem as prendo,
      Porque as rosas, sendo assim,
      Também sós irão morrendo...

      Todos morremos sozinhos
      No momento da verdade
      E toda a rosa tem espinhos,

      É da sua qualidade
      Dar ilusórios carinhos
      E picar-nos, sem maldade.

      Maria João

      Bom dia, Poeta!

      Cá vai, em sonetilho, aquilo que me ocorreu pensar e escrever imediatamente após a leitura do seu.
      Espero que tudo esteja bem consigo e com toda a família.

      Abraço grande!

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  4. “Fusão”

    Não questiones a razão
    Não procures a verdade
    Pois existe distribuição
    De ambas em quantidade

    Procura distanciação
    P’ra veres a realidade
    Com total abstracção
    E toda a simplicidade

    Não retires conclusão
    Pois terás uma infinidade
    Cada qual com seu pendor

    Mistura tudo em fusão
    Constrói a diversidade
    Permite tão só o amor.

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    Respostas
    1. É isso mesmo; a razão
      Procura o distanciamento
      E analisa a disfunção
      Sem qualquer constrangimento

      E, se encontra a solução,
      Vai buscar o sentimento
      Pr`a juntá-lo à equação
      Que resolve, no momento.

      Que não haja confusão!
      Faz falta esse envolvimento
      Mesmo quando a solução

      Possa envolver sofrimento
      Para a pessoa em questão,
      Que põe em risco o sustento...


      Maria João

      Bom dia, Poeta! Cá vai com o abraço de sempre!

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  5. “Valor dos valores”

    Já morreu a tolerância
    A ética não fica atrás
    Honestidade à distância
    E a verdade não apraz

    Respeito com relutância
    Tão somente o fingirás
    Baseado na ganância
    Teu mundo construirás

    Pois não há quem invista
    Em valores sem tradução
    Numa moeda corrente

    E se houver quem insista
    Noutro tipo de valorização
    Será considerado demente.

    Prof Eta

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. A ética é confundida
      - assim Dawkins o diria... -
      Com qualquer coisa perdida,
      Numa abstrusa antinomia,

      Mas eu nunca fui fingida,
      Portanto não fingiria
      Uma ética aturdida
      Que jamais subscreveria!

      Quanto ao respeito,é verdade,
      Muita gente o vai fingindo
      Sem notar que a falsidade

      Continua subsistindo
      E que tudo, tudo invade,
      Indo-se auto-construindo...

      Mª João

      Bom dia , Poeta!
      Depois desta minha noite em que as velhas cãibras me arreabataram dos braços de Morfeu, resta-me desejar-lhe um dia muito feliz!

      Abraço grande!

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