CONVERSANDO COM JOSÉ SARAMAGO

SONETO ATRASADO
De Marília os sinais aqui ficaram,
Que tudo são sinais de ter passado:
Se de flores vejo o chão atapetado,
Foi que do chão seus pés as levantaram.
Do riso de Marília se formaram
Os cantos que escuto deleitado,
E as águas correntes neste prado
Dos olhos de Marília é que brotaram.
O seu rasto seguindo, vou andando,
Ora sentindo dor, ora alegria,
Entre uma e outra a vida partilhando:
Mas quando o sol se esconde, a noite fria
Sobre mim desce, e logo, miserando,
Após Marília corro, após o dia.
José Saramago
In “Os Poemas Possíveis”
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SONETO DO ENCONTRO TARDIO
Atrás de mim vieste e me alcançaste
No rasto dos sinais por mim deixados,
Mas tivesse eu mais rio, mais chão, mais prados,
Soubesse eu desses sonhos que sonhaste,
Mais sinais deixaria onde passaste;
Mais lágrimas, mais risos entoados,
Mas muito menos passos apressados
Teria dado até onde me achaste...
Caminhava apressada pela vida,
Sem cuidar de cuidar que havia um fim,
Sem notar que passava distraída,
Mas que um rasto deixava e, sendo assim,
Te apontava uma rota percorrida
Que antecipava a tua, atrás de mim...
Marília
(Maria João Brito de Sousa – 20.11.2012 – 11.20h)
Pois
ResponderEliminaro Saramago pra quem conheceu
decerto que a Marília adoeceu...
Mas de tristezas é também feito o Mundo
e num segundo
deixo o desejo de uma sossegada noite
Beijinhos
Anjo, não conheci pessoalmente José Saramago, mas conhêço-lhe bem a magnífica obra em prosa. Apenas não fazia a menor ideia de que ele tivesse escrito um soneto camoniano... e este SONETO ATRASADO, é-o.
EliminarNão sei se esta Marília existiu, ou se é apenas um personagem por ele criado, mas resolvi responder-lhe vestindo a pele dela.
Que tenhas uma noite serena e repousada.
Beijinho
Um bom e feliz dia desejo eu também...
EliminarBeijinhos
Que tenhas um feliz dia, Anjo!
EliminarBeijinhos
Desejo uma boa e feliz noite
Eliminarde aqui da Terra do Zeberin
Beijinhos e uma feliz noite aconchegada
Noite serena, Anjo!
EliminarBeijinho
Se um dia regressar às "Homilias"
ResponderEliminaro que pode vir a acontecer em Janeiro próximo
abro com um poema dele. Talvez este
Espero voltar a lê-lo nas "Homilias", Rogério!
EliminarEu desconhecia que José Saramago tivesse escrito um soneto em decassílabo heróico. Encontrei-o por mero acaso, pois não tenho a obra "Os Poemas Possíveis"... foi muito recente o meu primeiro contacto com a sua vertente poética.
Abraço grande!
Maria João
“Da rosa”
ResponderEliminarJá só vivo em meus filhos
Como um cristo assumido
Eles serão meus cadilhos
Mesmo após haver partido
Não os livro de sarilhos
No caminho percorrido
Saudáveis são os trilhos
Sussurrados ao ouvido
Espinhos eu não os sinto
Pois que a rosa escolhida
Sabe ir muito mais além
E a ninguém desminto
Pois até a própria vida
É nossa oferta também.
Prof Eta
Vivo ainda para mim,
EliminarInda que sobrevivendo,
Entre o princípio e o fim
Daquilo que vou escrevendo.
Às rosas do meu jardim,
Não as colho, nem as prendo,
Porque as rosas, sendo assim,
Também sós irão morrendo...
Todos morremos sozinhos
No momento da verdade
E toda a rosa tem espinhos,
É da sua qualidade
Dar ilusórios carinhos
E picar-nos, sem maldade.
Maria João
Bom dia, Poeta!
Cá vai, em sonetilho, aquilo que me ocorreu pensar e escrever imediatamente após a leitura do seu.
Espero que tudo esteja bem consigo e com toda a família.
Abraço grande!
“Fusão”
ResponderEliminarNão questiones a razão
Não procures a verdade
Pois existe distribuição
De ambas em quantidade
Procura distanciação
P’ra veres a realidade
Com total abstracção
E toda a simplicidade
Não retires conclusão
Pois terás uma infinidade
Cada qual com seu pendor
Mistura tudo em fusão
Constrói a diversidade
Permite tão só o amor.
É isso mesmo; a razão
EliminarProcura o distanciamento
E analisa a disfunção
Sem qualquer constrangimento
E, se encontra a solução,
Vai buscar o sentimento
Pr`a juntá-lo à equação
Que resolve, no momento.
Que não haja confusão!
Faz falta esse envolvimento
Mesmo quando a solução
Possa envolver sofrimento
Para a pessoa em questão,
Que põe em risco o sustento...
Maria João
Bom dia, Poeta! Cá vai com o abraço de sempre!
“Valor dos valores”
ResponderEliminarJá morreu a tolerância
A ética não fica atrás
Honestidade à distância
E a verdade não apraz
Respeito com relutância
Tão somente o fingirás
Baseado na ganância
Teu mundo construirás
Pois não há quem invista
Em valores sem tradução
Numa moeda corrente
E se houver quem insista
Noutro tipo de valorização
Será considerado demente.
Prof Eta
A ética é confundida
Eliminar- assim Dawkins o diria... -
Com qualquer coisa perdida,
Numa abstrusa antinomia,
Mas eu nunca fui fingida,
Portanto não fingiria
Uma ética aturdida
Que jamais subscreveria!
Quanto ao respeito,é verdade,
Muita gente o vai fingindo
Sem notar que a falsidade
Continua subsistindo
E que tudo, tudo invade,
Indo-se auto-construindo...
Mª João
Bom dia , Poeta!
Depois desta minha noite em que as velhas cãibras me arreabataram dos braços de Morfeu, resta-me desejar-lhe um dia muito feliz!
Abraço grande!