1969

1969
Ao tremor de terra assinalado
Na ocidental praia lusitana,
Cujo epicentro o mar trouxe agitado
E tanta gente fez sair da cama
*
Uns sem vestido, muitos sem calçado,
E outros que até foram de pijama
Para a rua, fugindo ao sismo irado
Mais do que prometia a força humana,
*
E, sob intensa chuva, se arriscaram
A sucumbir às gripes que apanharam,
Eu canto e espalharei por toda a parte
*
Que a natureza em fúria, a “desancar”,
Bem mais sinistra foi que Salazar,
Por muito que pr´algoz lhe sobrasse arte.
*
Maria João Brito de Sousa – 28.02.1969
*
(Escrito no dia do grande sismo, aos quinze anos.
Primeira tentativa de soneto - e última até Abril de 2007 - ainda com versos eneassilábicos misturados com decassilábicos heróicos)
Imagem retirada daqui
Gostei de ler. Lembro muito bem desse sismo. Na altura a minha mãe era a porteira da Seca. A casa da porteira só tinha um quarto, casa de banho e cozinha. Ideal para um casal sem filhos, não para os meus pais que tinham três. Então o Capitão disse ao meu pai que nós podíamos ficar a viver na barraca debaixo do pinheiro manso, onde meus pais viveram no início do casamento, e onde eu nasci, Esta barraca era perto da casa da porteira, nós fazíamos as refeições com meus pais e dormíamos na barraca, eu trabalhava em Lisboa, ia casar nesse ano, minha irmã já estava empregada em Lisboa, e meu irmão nos Caminhos de ferro. Na verdade só estávamos em casa de noite e ao fim de semana. Nessa noite, acordei com o urro da terra, antes mesmo de sentir os tremores. Quando os sentimos, a barraca dançava que nem barco em alto mar. Minha irmã gritava e queria ir para a rua, eu e meu irmão achámos mais seguro não sair. Mas ela ficou tão apavorada que nesse mesmo dia saiu à procura de uma casa de pedra na Telha, para alugar. Tinha a sensação que estaria mais segura aí, eu penso que aquela casita de madeira era muito menos perigosa.
ResponderEliminarEnfim coisas que nunca se esquecem.
Abraço
E tem razão, Elvira, a casinha de madeira era menos perigosa do que uma casa de alvenaria...
EliminarHá mesmo coisas que nunca se esquecem. Eu, na altura, morava em Linda-a-Velha, com os meus pais. A alvenaria não ruiu, mas estilhaçaram-se muitos vidros e partiram-se quase todas as figuras de porcelana que a minha mãe coleccionava. A vizinhança foi toda para a rua e nós também. Muitos embrenharam-se pelas matas do Estádio Nacional, para ficarem longe dos edifícios, caso surgissem réplicas...
Abraço.
"Que se desfaz"
ResponderEliminarPenso à velocidade da luz
Com o cérebro enferrujado
Tudo o que vejo faz juz
Ao pensamento enlatado
Este périplo só me seduz
Por não ir a nenhum lado
Isso também me conduz
À quase ausência de estado
Ou a um estado rarefeito
Que a seguir se liquefaz
Por sentir a compressão
Estado cristalino perfeito
Diamante que se desfaz
Por algo novo em gestação.
Isto é Vida...
Eliminar"Por algo novo em gestação";
Tal e qual a vida o faz
Seguindo a evolução,
Indo aonde for capaz
Na complexa execução
Da sua tarefa audaz...
Para nós, a solução
Acaba por ser a paz,
Mas uma paz conquistada,
Que nunca de mão-beijada
Essa paz nos foi cedida
E por ela há que lutar
Sem desfazê-la no ar,
Porque isto, poeta, é vida...
Maria João
Bom dia, Poeta
Cá vai, de uma assentada, com o abraço de sempre!
Lembro-me dos pratos todos
ResponderEliminarna Cantareira a tilintar
e se tive medo ou não
tão longe é já a recordação
do esquecimento..
Um bom fim de Semana
Beijinhos
Olá, Anjo.
EliminarUi, a louçaria "cantou" muito mais do que eu! Era a terra a bramir e a loiça a cantar, tudo isto misturado com os gritos das pessoas em pânico...
Beijinhos e um bom fim-de-semana também para ti