SEM LÁGRIMAS

SEM LÁGRIMAS
*
Sem lágrimas te deixo, que eu não choro!
Há quanto, quanto tempo se esgotaram
as abundantes gotas que deploro
nos inocentes olhos que as choraram?
*
Mas se te olho melhor, se me demoro
no lago em que os teus olhos se espelharam,
não juro que com eles não faça coro
lançando-me nas águas que o formaram.
*
Não, não te sei dizer qual a razão
desta minha assumida obstinação
em não chorar por mim. Por dor alheia,
*
Por essa, choro sempre! Para dentro...
Sem lágrimas, acendo o fogo lento
de um mar que esteja sempre em maré-cheia.
*
Maria João Brito de Sousa – 26.11.2018 – 14.30h
Vale mais chorar de alegria
ResponderEliminarBeijinhos e um feliz dia
Sim, sempre será melhor...
EliminarBeijinhos
Este seu belo soneto (como o são todos), em que diz chorar pelos outros mesmo sem lágrimas, fez-me lembrar um poema de Agostinho Neto, o primeiro presidente de Angola. O poema chama-se "Criar" e diz assim:
ResponderEliminarCriar criar
criar no espírito criar no músculo criar no nervo
criar no homem criar na massa
criar
criar com os olhos secos
Criar criar
sobre a profanação da floresta
sobre a fortaleza impúdica do chicote
criar sobre o perfume dos troncos serrados
criar
criar com os olhos secos
Criar criar
gargalhadas sobre o escárneo da palmatória
coragem na ponta da bota do roceiro
força no esfrangalhado das portas violentadas
firmeza no vermelho sangue da insegurança
criar
criar com os olhos secos
Criar criar
estrelas sobre o camartelo guerreiro
paz sobre o choro das crianças
paz sobre o suor sobre a lágrima do contrato
paz sobre o ódio
criar
criar paz com os olhos secos
Criar criar
criar liberdade nas estradas escravas
algemas de amor nos caminhos paganizados do amor
sons festivos sobre o balanceio dos corpos em forcas simuladas
criar
criar amor com os olhos secos.
Muito obrigada, Fernando Ribeiro.
EliminarNão conhecia esse poema de Agostinho Neto, mas parece-me que estamos realmente muito próximos de traduzir uma mesma ideia, ele no seu "Criar", eu no meu "Sem Lágrimas".
Fraterno abraço.
"Equacionado"
ResponderEliminarDesconheço a equação
Liberto o pensamento
Ignoro a contradição
Desnudo o argumento
Já não escuto a razão
Guiado ao sentimento
Preparada a inflexão
Se chegado o momento
Desfaço esta ilusão
Na penumbra escondida
Contradigo qualquer lei
Sem cair em contradição
Respeito a lei da vida
Cuja equação não sei.
Desenrolando os Fios da Meada
Eliminar"Cuja equação não sei",
Nem pretendo desvendar...
Dito isto, responderei
Que o importante é tentar;
Eu fi-lo e sempre o farei
Pois não deixo de pensar
Que só morta pararei,
Que é "preciso" é "navegar"
E é enquanto equacionando
Que o poema vai brotando
Destes fios, desta meada,
Que não guardo para mim
Pois de tão grande e sem fim,
Nunca mais estará esgotada
Maria João
Aqui vai, Poeta. Estou de saída para mais uns exames, mas voltarei.Abraço grande!
"um mar que esteja sempre em maré-cheia" para todos nós também.
ResponderEliminarQue assim seja!
Eliminar"um mar que esteja sempre em maré-cheia" para todos nós também.
ResponderEliminarobs. não era anónimo era eu
Também me acontece ficar anónima, de quando em quando, Poeta...
EliminarAbraço grande.
Um soneto belíssimo. O último terceto é de génio. Adorei.
ResponderEliminarAbraço
Muito obrigada, Elvira.
EliminarAbraço e votos de uma repousada noite.
Verso(s)
ResponderEliminarDo verso sei tão pouco... só lamento
Não ter a parte que melhor seria
Para dar-me de tudo o que queria
Ficar na lembrança do mais atento.
Do verso gosto tanto… com talento
Dos teus que vejo nascer cada dia
Regados como flores em sinfonia
Na tela que não morrerá no vento.
Que hoje o verso seja a melhor flor
Que cai no molde peito "poetante"
E que do meu saiu quase errante…
Na volta sonho ver quanto valor
Se expande entre um e o outro verso
Se o meu saiu, assim, ora disperso.
Rosa Silva ("Azoriana")
EliminarVerso(s) II
"Se o meu saiu, assim, ora disperso",
Embora entre harmonias partilhado,
Será contigo, Rosa, que converso,
A ti te envio um poema naufragado
Nas ondas deste mar que é nosso berço,
Mesmo que seja um berço do passado,
Pois se o nosso presente é bem diverso
Pode o futuro ser aproximado;
Não erra o verso vindo cá do fundo
Que busca um cais, um cais no nosso mundo,
Nem erra o verso que outro verso inspira,
Portanto, inda que sendo um verso errante,
Não erra o seu percurso o navegante
Que em vez de usar sextante, use uma lira!
Maria João
Acreditem ou não, perdi o primeiro soneto... "evaporou-se" quando o tentava publicar. E não sei bem aonde deixar este soneto navegante...
Abraço grande!
Amei! Abraço grande
EliminarObrigada, Azor!
EliminarTentei levá-lo ao teu bom porto, mas não estou segura de o ter conseguido.
Abraço grande!
Chegou. Vou colocá-lo em artigo quando puder. Estou no telemóvel. Obrigada
EliminarO meu telemóvel é um velho tijolo que não faz mais nada senão chamadas e sms... o anterior, um pouco menos artesanal, enlouqueceu e apagou-me os contactos quase todos. Só ficaram os que estavam no cartão SIM. Só tenho o laptop.
EliminarObrigada!
De vez em quando,chorar também faz bem,é o que eu acho!! Contudo,sempre é melhor chorar de alegria do que de tristeza!!
ResponderEliminarSim, Cristinita. Embora seja de lágrima difícil, considero que as lágrimas são uma manifestação saudável das nossas humanas emoções.
EliminarObrigada .