DA GRALHA - A Bainha Descosida

DA GRALHA.jpg


DA GRALHA


(A Bainha Descosida)


*








Das gralhas que passam vestindo sorrisos,


Dos gestos precisos que, acaso, as refaçam,


Das névoas que embaçam contornos concisos


Dos passos nos pisos que nos ameaçam


*





Se súbito passam a lisos, tão lisos


Que aos próprios sorrisos ali despedaçam


Sem que outros renasçam. Sisuda e sem siso,


Compõe longo friso, a gralha, se a caçam.


*





Letrinha a letrinha me força a escrever,


Só para a não ver a tornar-se rainha


Da escrita que é minha, enquanto eu puder.


*





Mas se eu a esquecer e escrever mais asinha,


A maldosa gralhinha vai sem se deter


Esgaçar, descoser, do vestido, a bainha.


*


 





Maria João Brito de Sousa – 28.01.2019 – 11.05h










Comentários

  1. Sem dedal
    letrinha a letrinha
    o soneto
    sai-te sem gralhinha

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    1. Pois, sair, sai, mas a musa irritada pragueja e as sinapses rebelam-se-me até ao tutano contra a lentidão que os olhos lhes impõem...

      Escrever era uma coisa que eu fazia à velocidade do pensamento. Agora, o pensamento faz, no mímino, três órbitas em redor do teclado antes de poder estar seguro de ter encontrado a letra que procurava.

      Abraço, Rogério

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  2. Delicado soneto, com o ritmo exacto.
    Beijo, grata pela presença.

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  3. Gralhinha inspiradora
    de letra em letra por aí fora
    tal uma Pandora de surpresas

    Um bom e feliz dia
    Beijinhos

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  4. Extraordinário o domínio que tem da Língua Portuguesa!
    Parabéns!
    Francisco

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  5. Muito interessante a metáfora das letras, como pontos, do poema como vestido da gralha e da bainha. Gostei de ler.
    Espero que já se encontre melhor.
    Abraço

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  6. No desejo de que a saúde
    se aconchegue e aguente este frio
    que nos tira o brio

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  7. Bom fim de Semana
    no desejo de melhoras
    e energia pra cada dia

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  8. "Tão menos"

    Tanto de mim, mas tão pouco
    Tanto de mim, vai e vem
    Tanto de mim, faz de mouco
    Tão menos do que convém

    Tanto de mim, ficou rouco
    Tanto de mim, não se sustem
    Tanto de mim, anda louco
    Tão menos do que alguém

    Tão menos, todos ficamos
    Tão menos, já vamos sendo
    Tão menos, já nos sentimos

    Isto tudo porque andamos
    Em busca do que parecendo
    Parecendo, não no revimos.

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  9. "Da cartola"

    Faz da vida uma mentira
    Já que a verdade não cola
    Das ruas ninguém te tira
    Onde andas a pedir esmola

    Nem por artes de magia
    Vês sair duma cartola
    O que outros num só dia
    Exibem sem ir à escola

    Mostra a plena felicidade
    Mesmo a ferros arrancada
    Dessa entranha esvaziada

    Esconde a mendicidade
    Pela mentira articulada
    Na verdade assassinada.

    Prof Eta

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  10. Miguinha do meu coração, estou a ficar preocupada. Tu estás melhor?
    Vejo-te muito quietinha. Não é o teu estilo. Diz qualquer coisa, quando puderes. Mil beijinhos.
    Luísa Monteiro

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    1. Segundo o que consegui saber
      saiu dos cuidados intensivos
      na semana passada
      e que continua a recuperar no Hospital de Oeiras...

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    2. Muito obrigada pela sua informação. Fiquei muito triste, mas sei que a Maria João é valente e vai recuperar, para voltar ainda mais inspirada.
      Sei que é um grande amigo da nossa poeta. Diga-me, p.f. o nome completo do Hospital de Oeiras onde a nossa querida amiga se encontra. E/ou o número de telefone desse hospital. Eu quero enviar-lhe também o meu n.º de telemóvel. Como o poderei fazer? Pode escrever aqui o seu email? O meu é: luisa.monteiro.3@gmail.com
      Muito grata.
      Luísa Monteiro



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    3. Olá, bom amigo. Não me assuste. Já sabe alguma coisa acerca da Maria João? Estou muito preocupada com o seu silêncio. Vou deixar aqui o meu n.º de telemóvel: 96 579 46 09. Por favor, ligue-me.
      Luísa Monteiro

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    4. Tive enfarte complicado por posterior falência da coronária calcificada. O pericárdio inundou-se de sangue e levou a paragem cárdio-respiratória. Custa-me escrever, não paro de ter vómitos, náuseas, diarreias... provável reacção a medicação que de forma nenhuma pode ser alterada.

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    5. Cara Maria João,

      Espero muito sinceramente que vá ficando melhor, depois do susto que apanhou. Eu não rezo por si apenas porque não sou crente, mas "torço" para que melhore. De verdade. Não se deixe ir abaixo, por favor.

      Há quase quatro anos, fui operado de urgência à bexiga por causa de um cancro. Um tumor maligno desenvolveu-se no interior da minha bexiga sem que eu sentisse fosse o que fosse, até que de repente comecei a urinar sangue. Fui operado de imediato, numa cirurgia em que a bexiga me foi retirada e substituída por um pedaço de intestino. Acordei na cama do hospital com três tubos a sairem-me da barriga, mais uma algália na uretra e um tubo de soro no braço. Disse-me o médico com ar muito sério: «O seu caso é muito grave; o seu caso é mesmo MUITO grave». Só lhe faltou dizer-me: «Prepare-se para morrer». Como sou muito orgulhoso, decidi não dar parte de fraco, perante ele ou qualquer outra pessoa, por mais próxima de mim que fosse. Não quis ser visto como um coitadinho com os pés para a cova.

      Para o que me havia de dar? Deu-me para publicar mais um post no meu blog, como se tudo estivesse bem comigo. Demorei horas e horas a publicar o post, a partir da cama do hospital, literalmente entre a vida e a morte, mas consegui publicá-lo. Só num comentário é que fiz uma referência muito ligeira ao estado em que me encontrava. O post é este: https://amateriadotempo.blogspot.com/2015/04/a-bicicleta-que-tinha-bigodes.html.

      Quinze dias depois, o médico entrou no meu quarto do hospital para me dar a tão ansiada notícia: «Pode considerar-se curado. Ainda tem muitos anos de vida pela frente. Depois de amanhã vai ter alta.» Dei um suspiro de alívio que se deve ter ouvido em todo o hospital. A minha convalescença durou muitos meses mais, é verdade que sim, mas ainda cá ando, sem bexiga e sem próstata (que foi tirada juntamente com a bexiga), mas com um pedaço de tripa a desempenhar as funções de bexiga. Enfim, do mal o menos. Não levo uma vida normal, mas quase. Pelo menos ainda cá ando.

      Desculpe-me todo este arrazoado a respeito dos meus próprios males, mas eu só queria dizer-lhe que os homens têm a mania de que são o sexo forte, mas não são. Os homens são uns mariquinhas, que julgam logo que estão a morrer só porque deram um espirro. A Maria João não é homem, é membro do sexo feminino, que é o sexo verdadeiramente forte.

      Anseio sinceramente poder continuar a contar com a sua amizade, por muito virtual que esta possa ser, pois não nos conhecemos pessoalmente. Não se deixe vencer, pela sua rica saúde.

      Um grande beijo, acompanhado de um sincero desejo de melhoras

      Fernando Ribeiro

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  11. “Sou pensamento”

    Meu espaço ofereci
    Agora sou pensamento
    Tudo aquilo que vi
    Foi o vosso alimento

    Tudo o que não pedi
    Foi a razão do sustento
    Hoje permaneço aqui
    Sem espaço a lamento

    Sou pensamento, existo
    Muito além da razão
    Imposta por julgamento

    De pensar não desisto
    Por vezes com coração
    Racional no sentimento.

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    1. Peço desculpa, Poeta, mas não me sinto em condições de glosar o seu sonetilho.
      Estou mais lá do que cá e até duas linhas de prosa me custam a ler e a decifrar.

      Forte abraço.

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  12. contempladora ocidental20 de fevereiro de 2019 às 19:39

    Finalmente, depois de algumas pesquisas, chego ao seu blogue!
    Apercebi-me, através do blogue do Rogério, que se sentia doente.
    Acabo de ler o seu comentário no último post do Conversas.
    Quero enviar-lhe um grande abraço aqui de longe – e que vai chegar em segundos onde quer que se encontre – com os desejos sinceros que a Maria João recupere.

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  13. Minha querida amiga:
    Gostei muito de ler o que nos disse o Fernando Ribeiro. Grande lição de vida!
    Peço-te desculpa de não ter sido tão presente quanto tu mereces. O meu marido faleceu e isso deixou-me de rastos. Ele tinha mais 21 anos do que eu, eu sei que ninguém é eterno... Mas, acredita que já teria ido a tua casa para te dar o maior abraço e para me regozijar contigo pela tua recuperação, se não fosse este grande desgosto que tive.
    Só falta um nadica de nada e estarás uma moçoila cada vez com mais garra. Gosto tanto de ti, Maria João! És em ser maravilhoso que ilumina o caminho de todos com quem se cruza. Adoro-te, miguinha! Luísa Monteiro

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  14. Queria ter dito: és UM ser maravilhoso... Há sempre uma gralha que se "infiltra". Luísa Monteiro

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  15. Renovados Votos de Saúde. A Poesia nos blogues anda mais pobre sem a sua Criatividade!

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