UM SOPRO...

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NUM SOPRO...


*





Se por mais que me busque ando perdida


E por muito que escute o som me escapa,


Como encontrar-me neste imenso mapa


Daquilo em que fui garra e força e vida?


*





Como voltar a mim se fui traída


Por um corpo que oscila e que derrapa


Na ausência do que foi quando, sem capa,


Me deixava, de sons, farta e vestida?


*





Hoje, porém, a música voltou;


Um sopro, um só, mas isso me bastou


Pra esculpir um poema tosco e breve.


*





Chegou num nada e logo se findou


Mas sendo um quase nada conquistou


Este pouco de mim que agora o escreve.


*














Maria João Brito de Sousa – 25.03.2019

Comentários


  1. Oh, Maria João, este seu belo Sopro fez-me chorar de emoção.
    Que importa o tempo que dure um sopro, se ele a impeliu a escrever de novo?
    Obrigada por ter vindo ao blogue e nos presentear com o seu enorme talento.
    Muita força que tudo vai voltar à normalidade, cara Poetisa. É preciso dar tempo ao tempo.

    Um beijinho com o meu desejo sincero de franca e total recuperação.

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    1. Olá, Janita

      Fico muito contente por saber que este meu inesperado Sopro lhe agradou.
      Dado que tenho todas as grandes artérias completamente calcificadas, não é nada provável que venha a melhorar e muito menos a melhorar ao ponto de me aproximar da relativa normalidade, mas posso "durar" mais algum tempo e prometo que, durante esse tempo, tudo farei para que novos sopros venham ao meu encontro

      As palavras continuam a pesar-me como chumbo. Ainda não consegui habituar-me a sentir que tenho de mover montanhas para as colocar no seu devido lugar quando, dantes, era através delas que vencia a gravidade e voava, voava...

      Obrigada e um grande beijinho

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  2. Boa tarde Maria João. Que melhor presente para terminar este meu dia, do que a sua presença neste cantinho com este belo sopro tão sentido que me emocionou. Que a recuperação continue firme no bom caminho ainda que muito mais lento do que aquilo que a amiga e nós desejaríamos.
    Abraço

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    1. Muito obrigada, Elvira.

      Tem toda a razão. Se eu já antes me ia queixando da lentidão que tanto me incomodava, agora nem sei como descrevê-la... movo montanhas por cada frase que escrevo, é tudo o que me ocorre de momento...

      Um grato e forte abraço.

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  3. Esperança nossa
    que temos de novo Poeta
    combalida
    mas certeira de arco e seta

    Beijinhos, boas melhoras e convalescença com calma

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    1. Olá, Anjo
      Não te posso garantir nada; não sei se "temos de novo poeta", nem se este SOPRO foi o primeiro ou o último... surgiu apesar de tudo e eu aproveitei para o publicar.

      Obrigada e um beijinho.

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  4. Bom fim de Semana
    e bom dia no desejo de boa Saúde nas melhoras

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    1. Obrigada, Anjo.

      Que tenhas, também, um excelente fim-de-semana.

      Beijinhos

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  5. Olá, mais uma vez , caríssima Maria João. Um verdadeiro sopro que lamento só hoje ter visto quando me preparava para elaborar um outro soneto que normalmente escrevo apenas às terças-feiras, altura em que estou de residência de medicina Interna no local de trabalho (trabalho todos os dias de manhã em Oncologia, mas sou internista de base).
    Espero que esteja realmente melhor, apesar das mazelas de anos de fumo e quiçá das próprias agruras da vida, além dos hábitos alimentares em que todos exageramos, por vezes, um pouco. Sim, que sendo a Maria João da minha idade, acho que não é a "velhice" dos 66 anos que nos mata... a média etária dos meus doentes oncológicos de hematologia ronda entre os 75-80 anos, logo....
    Adoro este seu soneto que o tempo se lembrou de transformar em brisa etérea que a bafejará de sorte e lembre-se que não chegou a hora de soprar a vela e deixá-la a exalar aroma e fumo, pois haverá sempre mais um fósforo, para que ela se reacenda e novos sopros se construam, mesmo num quotidiano de sofrimento e alguma incapacidade física.
    Um grande beijo de amizade e pode crer...estou consigo no que necessitar e no que eu puder...

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    1. Muito obrigada, caríssimo amigo.

      Tanto ou mais do que os longos anos de fumo e os eventuais erros alimentares, penso que a colecção de pielonefrites que me tem massacrado nos últimos anos, deve ter tido uma importante palavra a dizer neste enfarte seguido de ruptura da coronária. Já não consigo recordar-me se foi a esquerda ou a direita, embora estivesse com os olhos postos no monitor, já que, em mim, a curiosidade científica parece ser mais forte do que o medo de morrer e até do que a dor extrema.

      O que eu considero mais estranho é o facto de estar, na altura, com uma pielonefrite e nem sequer ter dado por ela. Mas estava mesmo e, pela primeira vez em toda a minha vida, a bacteriazinha hiper-resistente que há muito foi referenciada como bactéria hospitalar, andava a fazer das suas no meu organismo sem que eu - mea culpa - recorresse a auxílio.

      Por ela fiz uns bons dias de isolamento e voltei a repetir o protocolo por duas vezes, por causa da gripe A. O primeiro isolamento foi ainda em Santa Cruz e o segundo (muito rigoroso) no hospital de Egas Moniz, depois de me ter sido diagnosticada uma pneumonia, bem como nova positividade no muco das zaragatoas para pesquisa do vírus da tal malvada gripe A.

      A dor toráxica ficou. Menos forte, mas facilmente exacerbada por pequenos esforços e posições. Penso que não seja muito comum, mas os casos de ruptura da coronária também não devem ser muito comuns, sobretudo quando se lhes sobrevive.

      Todas as manhãs, sem excepção, me arrasto pela casa durante horas com uma sensação de lipotimia iminente e, por muito que tente que assim não seja, toda a minha combatividade fica concentrada em mim mesma. No meu corpo. Na sua incapacidade de fazer as pequeninas coisas que, dantes fazia, automaticamente.

      Peço esculpa por não lhe ter ainda telefonado. Irei agora ler a sua produção poética de ontem.

      Forte e grato abraço

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    2. Realmente as pielonefrites de repetição costuma ser um calvário , essencialmente nas mulheres que fazem infecções urinárias de repetição, mais por razões anatómicas que por razões de género. Quando têm a sua etiologia em agentes causais de origem hospitalar, pior, porque a resistência aos antimicrobianos é frequentíssima, face a tantos doentes infectados que ali se encontram e trazem os seus "bichinhos" para tratamentos que também são tratados por múltiplos fármacos, aos quais vão adquirindo resistência. Depois transmitem-se de hospedeiro para hospedeiro, daí que os hospitais sejam os maiores centros e agências de infecções transmissíveis a quem os frequenta. São as chamadas infecções nosocomiais. Mas tratam-se, embora muitas vezes já sejamos portadores inócuos, mas quantas vezes com isolamentos de contacto nos vários internamentos necessários.
      Penso que o seu enfarte do miocárdio (deduzo pelo exposto) não terá correlação com as pielonefrites, pois trata-se de uma patologia isquémica, mais ligada aos factores de risco cardiovascular, como hipertensão arterial, dislipidemias, diabetes, hábitos tabágicos, etc... no entanto há causas que por vezes acabam por ser sinérgicas dos efeitos nefastos.
      Quanto à dor de esforço, tratar-se-á com toda a probabilidade do angor (angina) resultado da isquemia, ou seja, tecidos musculares cardíacos (neste caso) que deixaram de ser irrigados e, por isso mesmo, isquemiaram. É como uma horta viçosa em que algum cantinho fica sem rega e seca (permita-se a comparação). Essa dor de esforço e o cansaço, serão pois a "angina de peito" que fica pós isquemia (enfarte).
      Desejo-lhe as melhoras, até porque nesta coisa das isquemias, há sempre a hipótese de uma ligeira revascuarização por reaparecimento de novos vasos sanguíneos (chamada angiogénese) que serão supletivos, embora não façam o milagre de regeneração de toda a área isquemiada.
      Desculpe a delonga, mas os médicos treteiros são assim, quando tentam explicar as coisas, mesmo que vagamente.
      Um beijo de amizade

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    3. revascularização e não revascuariazção...com a pressa de escrever nos joelhos ficaram alguns lapsos , mas emendo este que dá muita confusão a quem não conhecer o termo.
      minhas desculpas.

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    4. Claro que lhe desculpo e, muito pelo contrário, agradeço-lhe a longa explicação, caro amigo. Na minha opinião, todos os médicos deveriam esclarecer os seus pacientes e, ainda que lhe possa parecer estranho, compreendi perfeitamente tudo o que aqui me deixou escrito.
      Não sou diabética, mas, muito provavelmente devido ao SAAFs, o meu colesterol, bem como os triglicéridos, atingiam valores perfeitamente exorbitantes. Aliás, já estava a tomar uma estatina com fenofibrato, na tentativa de controlar a dislipidémia. No hospital mantiveram-me apenas a estatina - Rosuvastatina-, que ainda continuo a tomar. Veremos, nas próximas análises clínicas, se ela se está a mostrar capaz de controlar o quadro.
      No hospital, ninguém me prometeu a mais remota hipótese de melhorar. "Estragou-se, fica estragado".
      A jovem equipa batalhou muitíssimo por manter-me viva. Nos primeiros dias, as coisas estiveram negrinhas, negrinhas e embora mais lá do que cá, apercebi-me de tudo.
      Fico muito contente por saber da hipótese da angiogenése, ainda que parcial :) Quem sabe não virei a poder ter um pouquinho mais de autonomia?

      Muito obrigada e beijinho de amizade.

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  6. "(...)um poema tosco e breve"

    Este é um belo poema, que de "tosco" não tem nada e que tem a duração de qualquer soneto. Exprime, evidentemente os sentimentos da sua autora, mas tem sobretudo o condão de nos revelar uma mulher lutadora que não desistiu de viver. Muito obrigado pela beleza da sua alma e pela sua combatividade. Gostei muito.

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    1. Muito obrigada, Fernando.

      Tem toda a razão, ainda não desisti de viver, mas sinto uma imensa falta do da força telúrica que caracterizava a minha poesia e que, agora, parece ter-se diluído no nada.

      Um forte abraço.

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