COROA DE SONETOS A QUATRO MÃOS
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SIGAMOS MAIO AFORA
*
Sigamos Maio afora confiantes
Sabendo, embora, quanto nos espera;
Sejamos mais do que o que fomos antes
Em cada Maio e em cada Primavera,
*
Que Maio sempre fez de nós gigantes
Diante da malícia de uma fera
Que nos tem por dispersos, vãos, errantes
Cavaleiros do sonho e da quimera.
*
Sigamos Maio afora; Junho e Julho
Esperam por nós, de nós terão orgulho,
Tal como cada mês que está por vir
*
Nos há-de abrir os braços, finalmente,
Quando o futuro se tornar presente
De quanta gente em Maio o construir!
*
Maria João Brito de Sousa - 02.05.2020 - 08.39h
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"De quanta gente em Maio o construir!"
Esse futuro por agora tenso
Que o mês de Maio irá fazer surgir
Envolto em sonhos bons tal como penso
*
Junho há-de com mais força também vir
A força de vencer, que me convenço
Depois deste "maduro Maio" florir
Irá florir o mundo ao qual pertenço
*
Confio em ar mais puro... a atmosfera
Irá consolidar a primavera
Nos campos e nas almas desta gente,
*
Que agora ainda está na incerteza
Mas que depois verá com mais clareza
Todo um futuro alegre e sorridente.
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Joaquim Sustelo
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"Todo um futuro alegre e sorridente"
Há-de chegar um dia, não duvido,
Mas ainda haverá que fazer frente
A um tempo difícil e dorido.
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Sou optimista, não inconsciente
Dos riscos do caminho já escolhido
E tu, que és meu irmão, terás em mente
Que há que roer este osso... e bem roído!
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Não se pode sonhar... sonhando apenas
Como se o tempo fosse de açucenas
E apenas nos bastasse acreditar
*
Que há pão na mesa que vemos vazia
Ou música se sopra a ventania...
Também há que lutar, lutar, lutar!
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Maria João Brito de Sousa
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"Também há que lutar, lutar, lutar"
E nessa luta haver vários reveses
Não basta nós ficarmos a esperar
Pelo Maio passar e mais uns meses
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Só muitos, muitos mais a ajudar
Mas em tempo contínuo e não às vezes
Muit'água pelos rios há-de passar
Há-de pregar-se em muitas dioceses
*
Mas sempre com querer, com confiança
Que a última a morrer é a esperança
E o homem quando quer pra melhor muda
*
Então vamos fazer, nós, todo o povo,
Que nasça brevemente um mundo novo
Que quase em horizonte nos saúda.
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Joaquim Sustelo
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"Que quase em horizonte nos saúda"
Pois nunca poderemos lá chegar
A menos que uma coisa mais graúda
Nos lance, de repente e sem tardar...
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Não espero que minha alma inda se iluda,
Já que tem a razão para a amparar,
Mas, meu irmão, às vezes fica muda
De tanta coisa estranha contemplar...
*
Mas, não, nunca descri dos amanhãs
Que hão-de falar de coisas menos vãs
Cantando alto e bom som, ou sussurando,
*
Que há justiça na Terra para os povos!
Não será para nós, é para os novos,
Pró homem, prá mulher que vão chegando!
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Maria João João Brito de Sousa
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"Pró homem, prá mulher que vão chegando!"
Talvez ele até venha um mundo novo
Com calma a pouco e pouco se implantando
Com grande f'licidade em todo o povo
*
Eu creio. E nessa fé cá vou pensando
No que será... Por vezes me comovo
Quando se adensa o sonho, ou seja quando
Mais forte o sinto em mim e o renovo
*
Nós não estaremos cá, vamos de "férias"
Porém não penses que isto é tudo lérias
Pois tenho até uma forte convicção!
*
E vamos passo a passo, rua a rua
Num sonho que por ora continua
A adentrar-me a alma e o coração.
*
Joaquim Sustelo
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"A adentrar-me a alma e o coração"
Como se um bando de aves me adentrasse
Gerando vida, espanto, evolução
Que a morte nunca visse, nem sonhasse.
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Sonhar é também ter a convicção
De mais tentar, ainda que bastasse
À nossa muito humana condição
Um nada de ambição que um desenlace
*
Mais ou menos feliz, desse à função,
Dessa existência, quando se apagasse
A pequenina chama da razão.
*
Talvez, depois, a fome já não grasse
Nem a doença, nem a frustração
Com que o tempo nos brinda neste impasse...
*
Maria João Brito de Sousa
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"Com que o tempo nos brinda neste impasse..."
Que afeta todos nós em mais ou menos
Mudando a cada dia a nossa face
Por nossos pensamentos não serenos
*
Como se este Covid não bastasse
Os tempos que aí vêm, nada amenos,
Nem fazem com que a gente aqui já trace
Tão boas plantações pelos terrenos...
*
Porém, se o pensamento em nós já lavra,
Sabemos ser a força da palavra
Aliada a um crer, forte... eficaz,
*
Duma forte mudança, o seu fator
E do ressurgir pleno do Amor
Que até hoje não trouxe ainda a paz.
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Joaquim Sustelo
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"Que até hoje não trouxe ainda a paz"
Pela qual tanto, tanto nós pugnamos
E que tão grande falta ao mundo faz
Embora o contradigam grandes amos...
*
Talvez a nossa voz seja incapaz
De se fazer ouvir, mas bem tentamos
E há sempre uma vozita mais audaz
Que sobe ao alto dos mais altos ramos,
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Ou que grita mais alto, embora atrás
Dos que já se destacam, entre humanos,
Perecíveis... que importa se subjaz
*
Esta vontade imensa? Longos anos
Faltarão pra sabermos que nos traz
O tal futuro que hoje lobrigamos,
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Maria João Brito de Sousa
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"O tal futuro que hoje lobrigamos",
Não vem em nosso tempo nem lá perto
Por ele há muito tempo que lutamos
Mas o caminho é... inda algo incerto
*
Porém fazer por ele sempre vamos
No campo da poesia, neste "aperto",
Em que a nossa vontade apregoamos
Se bem que o chão se mostre algo deserto
*
Virá o Junho, o Julho e o Agosto
Virão os outros meses e aposto
Que sempre alguma coisa vai mudar
*
"Se nós mudarmos todo o mundo muda" (*)
Ah que ninguém se fique e nem se iluda
Pois este mundo velho há de cessar.
*
(*) frase do dr. Lair Ribeiro
Joaquim Sustelo
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"Pois este mundo velho há-de cessar"
E havemos de tomar um novo rumo
Sem que haja sempre alguém a cobiçar
Do fruto humano a polpa, o próprio sumo.
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Um mundo bem mais justo, um mundo-lar
Do qual cada um seja o fio-de-prumo,
No qual a luz do sol possa brilhar
E onde se não se morra envolto em fumo.
*
Nisto, sei que vou sendo idealista...
Talvez o que aqui sonho nunca exista,
Talvez não passe de uma outra utopia
*
Mas não me peças nunca que desista
De te falar do sonho. Cada artista
Compõe conforme sente a melodia...
*
Maria João Brito de Sousa
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"Compõe conforme sente a melodia..."
E toca consoante o instrumento
Indo todos criar a sinfonia
Que se for bem tocada dá alento
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Tocar muito melhor, sim, eu queria
Se bem que à melodia esteja atento
Porém há sempre um toque de mestria
Que não vou atingir, se bem que tento...
*
Somos uns idealistas? Não faz mal
Todos devemos ter um ideal
E este é dos melhores que há na vida
*
Imaginar a estrada especial
Pugnar por ela vir de pedra e cal
Assim atapetada... assim florida...
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Joaquim Sustelo
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"Assim atapetada... assim florida"
Como se jardim fora, ou astro errante
Soltando a cabeleira colorida,
Coberta de poeira flamejante...
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Irmão, juntei ao astro a cor da vida
E vi, ou julguei ver, por um instante,
A humanidade menos dividida,
Mais forte, mais feliz e mais pujante;
*
Poetas e também trabalhadores
Cantavam, lado a lado, os seus amores
Como se nada, nada fosse em vão
*
Mas, nesse mundo que mal vislumbrei,
Não pude ver que houvesse qualquer rei,
Nem vi que a alguém faltasse tecto ou pão.
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Maria João Brito de Sousa
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"Nem vi que a alguém faltasse tecto ou pão"
Havia um equilíbrio, uma equidade
Que todos adquiriram a noção
De a ter de pôr em prática. Em verdade,
*
Ganhavam dia a dia o seu quinhão
Pelo que produziam, não metade
Do que cabia à mesa do patrão
Que açambarcara dantes com maldade
*
Fosse sonho ou não fosse o que tu viste
Uma etapa feliz já coloriste
Pintando a de cor negra que era dantes
*
A pouco e pouco iremos... e sorrindo
Sabendo que esse tempo ele é bem-vindo
- Sigamos Maio afora confiantes.
*
Joaquim Sustelo
*
NOTA - Coroa de sonetos dialogada a quatro mãos e em menos de doze horas.
Poema registado ao abrigo dos direitos de autor, a editar brevemente.
Bom fiquei de queixo caído. Quando li os quatro primeiros já estava de boca aberta, e quando terminei fiquei sem fala. Se ler a Maria João já é um privilégio, ler os poemas de Joaquim Sustelo de quem infelizmente nunca tinha lido nada foi muito bom. E saber que escreveram todos esses sonetos em menos de doze horas. Bom nem sei que diga. Eu que não consegui escrever um só em mais de 70 anos. Fiquei sem palavras.
ResponderEliminarabraço e saúde
Muito obrigada, pela parte que me cabe, Elvira.
EliminarConheço o Joaquim Sustelo há muitos anos e tenho a certeza de que teríamos terminado esta Coroa em menos de metade do tempo se não tivesse sido um dia muito agitado para ambos.
Foi num Sábado que tivemos esta conversa em decassílabo heróico. A Mistral estava muito mal do seu problema auto-imune e a ração dietética estava-se a acabar. Tive de pedir a um amigo que me acudisse porque não podia continuar a dar-lhe a ração normal. Foi um interminável ir e vir , um sem-fim de tentativas para encontrar a preciosa ração, com dezenas de telefonemas pelo meio e ainda com a necessidade de passar horas na cozinha a preparar as minhas próprias refeições, o que me leva muito tempo devido às minhas limitações físicas.. O Joaquim, por seu lado, recebeu a visita da filha e dos bisnetos que lhe ocuparam grande parte da tarde.
Forte abraço, amiga!