DIÁLOGO EM CATORZE SONETOS ALEXANDRINOS - 1ª parte

diálogo.jpg


DIÁLOGO EM CATORZE SONETOS ALEXANDRINOS


*


 


Maria João Brito de Sousa e Laurinda M. O. Rodrigues da Silva


*


 


DESOBEDIÊNCIA


*


(Soneto Alexandrino)


*


 


 


Impõe-se-me escrever, mais do que respirar!


Caso o não consumar, irei adoecer


Sem chegar a saber se me posso curar


Da dor de me calar, do mal de o não esquecer.


 


*


 


Venha quanto vier, tudo irei registar


Nas noites de luar , se acaso me aprouver,


Ou, se escolher puder, sob o sol de rachar


Das ondas do meu mar, quando a maré crescer .


*


 


Mas se a lua nascer e o manto lunar


Vier aconchegar o meu adormecer,


Vou desobedecer só pra contrariar


 


*


Morfeu, que vem espreitar meu sono de mulher...


Hoje, Morfeu, vou ser capaz de te ensinar;


Podes-me dominar, mas só quando eu quiser!


*


 


Maria João Brito de Sousa – 08.06.2020- 12.26h


**


 


2


 


Nós todos somos luz que raramente acende


escondida no tear das coisas naturais


Mas há aquela mão que tece de repente


as mais suaves fibras nos nossos ideais.


*


 


A sombra do caminho às vezes assustada


quando o lume da chama a acorda em sobressalto


oferece-nos a árvore com a copa perfilada


para que nos resguarde da queda no planalto.


*


 


Olhando então o mundo que sem ti é tremendo


olhando bem para dentro onde escutei o vento


numa nova mensagem que vem do mar profundo


*


 


Reconheço que a luz, escondida, se acende


numa imagem tranquila que me olha tremente


e que traz a manhã vinda à tona do fundo.


*


Laurinda Rodrigues


***


 


 


 


3


 


“E que traz a manhã vinda à tona do fundo”


 


Como uma imensa bóia astral antes submersa


 


Que nos trouxesse o Sol a metade do mundo,


 


Enquanto a escuridão tinge a metade inversa.


 


*


 


Recebendo Morfeu sob o Sol, me confundo


 


Mas tento não lhe dar confiança ou conversa;


 


Se ao sono me convida aponto o sol rotundo


 


Que tanta luz nos traz à tarde em luz imersa.


 


*


 


Pede, Morfeu, perdão: - Talvez me confundisse...


 


Seria o ar cansado, essa tua velhice


 


A apagar-te o olhar, o gesto e o sorriso...


*


 


Não saberei explicar, mas não te deixarei


 


Enquanto em ti faltar aquilo que não sei


 


Mas que tu sabes bem que sempre te é preciso!


 


*


 


Maria João Brito de Sousa – 08.06.2020 – 1q5.33h


 


     4


 


"Mas que tu sabes bem que sempre te é preciso"


pois não sabes viver sem o sol do poente


que tinge de vermelho o teu amplo sorriso


e alimenta o meu sonho enquanto estás ausente.


*


 


Eu não quero dormir porque o sono é a morte


mesmo que o dia nasça numa outra manhã...


E se o sonho a dormir traz mensagem de sorte


é sempre uma mensagem inconsistente e vã.


*


 


Dependemos do sol num planeta inseguro


mas o sol não nos diz se vai estar claro ou escuro


quando soar o alarme das sirenes fatais.


*


 


Então sobra-me o tempo para tecer um poema


que fale de relógios, de esperas, como tema


e nunca me responda às perguntas finais.


*


Laurinda Rodrigues


**


 


 


 


5


 


“E nunca me responda às perguntas finais”,


 


Nem julgue que com isso eu venha a desistir


 


De tudo questionar, ou questionar-me mais


 


Sobre o que venha, ou não, um dia a descobrir.


*


 


Há tempo pra pensar nas coisas mais banais,


 


Há tempo pr`acordar e há tempo pra dormir,


 


Mas hoje contrariando os meus ritmos normais


 


Mal consigo escrever e mal consigo ouvir


 


*


 


No meu ouvido interno o sonoro compasso


 


Disto que nunca sei porque é que em mim ressoa


 


E flui no tempo assim, com tal desembaraço


*


 


Que mais do que fluir, se insurge, eleva e voa


 


 Ao sonoro compasso em que jamais destoa,


 


Ao compasso sonoro em que aqui me desfaço.


 


*


 


 


Maria João Brito de Sousa – 08.06.2020 – 19.31h


**


6


"Ao compasso sonoro em que aqui me desfaço"


perdi a direção de tantos instrumentos


e fico em turbulência a marcar o compasso


com uma partitura cheia de pensamentos.


*


 


Mas, afinal, quem é essa mulher tão estranha


que, sem me conhecer, marca comigo o tom


de louca inspiração que se abre e entranha


dentro da minha alma sem desvendar o som?


*


 


Era apenas um Ser vindo de outro país


onde aquilo que se ouve é aquilo que se diz 


sem mistério nem farsa, falarmos simplesmente.


*


 


Talvez ninguém entenda mas também não importa:


somos as navegantes onde um espírito exorta


que nunca digam "não!" a tudo o que é diferente.


*


 


Laurinda Rodrigues


**


 


 


 


(continua)

Comentários

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

UM VOO DE PARDAL - Soneto muito ligeiro, dedicado à Ligeirinha

OBRIGADA!

ESPANTO