DIÁLOGO EM CATORZE SONETOS ALEXANDRINOS - 2ª parte
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“Que nunca digam “não!” a tudo o que é diferente”;
Há coisas que nem eu sobre mim sei explicar,
Mas tento e tentarei fazê-lo lentamente
Já que assim, a correr, não posso lá chegar.
*
Se não adormecer, estarei sempre à tangente
De um sono insano, intenso a fazer-me pesar
As pálpebras que abri muito esforçadamente
E que não deixarei que Morfeu vá cerrar!
*
Já vos menti, porém; Morfeu sempre venceu
Sem se esforçar sequer, nos sonhos me prendeu
À revelia desta inútil força minha...
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E só quando assim quis e bem o entendeu
Me soltou, desprendeu... venceste-me, Morfeu...
Sei que não foste meu, mas vê; não estou sozinha!
*
Maria João Brito de Sousa – 08.06.2020 – 21.07 h
*
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"Sei que não foste meu; mas vê! não estou sozinha!"
É sempre assim. Não estranhes o que digo:
pensei que era aventura, que à alma se avizinha,
quando perco o sentido para aquilo que prossigo.
*
Tu e eu. Teu e meu. Pequeno e grande mundo
de palavras cruzadas a esgotar o tinteiro.
De tanto te escrever, deixei de ver o fundo
do poço virtual que não tem gosto ou cheiro.
*
Talvez seja do sono ou do sonho acordada
mas tenho esta visão de uma aura sagrada
que me envolve, brilhando, quando a noite escurece.
*
Quantas voltas já dei para dormir na cama
e quantas outras dei para descobrir quem ama
sem ter qualquer razão... só porque lhe apetece.
*
Laurinda Rodrigues
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“Sem ter qualquer razão... só porque lhe apetece”,
Faz-me o mal que quiser, sem ter essa intenção;
- Por favor vai pedir ao sono que se apresse,
Senão perco a razão e tudo me entontece!
*
Lá entende Morfeu a minha situação;
Pega na minha mão e sussurra; adormece!
Acabam muito bem as horas de aflição
Se evoco esse Morfeu que sempre me aparece...
*
O pior, o pior, é quando vem de dia
E sem nada dizer, reclama a primazia
Das horas laborais, dos versos, dos poemas...
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Vem Morfeu quando quer, não quando deveria
E se o não detiver, começa a distopia;
- Deixa-me em paz, Morfeu! Já chega de problemas!
*
Maria João Brito de Sousa – 09.06.2020 – 17.18h
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"Deixa-me em paz, Morfeu! Já chega de problemas"
De problemas estou cheia que julgo não merecer
Será que foste tu que inventaste os esquemas
de torturar a mente para nunca adormecer?
*
Eu sei, Morfeu, eu sei, que és o filho da noite
o deus grego do sono que fala ao inconsciente
Vou descobrir a arma que a tua alma açoite
até que a minha alma possa acordar diferente
*
E a lucidez regresse com serena humildade
sem que o meu corpo sinta qualquer medo ou vaidade
mesmo, quando cansado, não consegue sorrir...
*
Talvez um companheiro pudesse aliviar-me
oferecendo um abraço que pudesse acalmar-me
e toda a minha noite fosse um eterno partir.
*
Laurinda Rodrigues
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“E toda a minha noite fosse eterno partir”
Num perfeito ir e vir daqui pra mais além,
Não fora vir alguém para me distrair,
Que agir só por agir nem sequer sabe bem...
*
Bem sei que já ninguém me pode proibir
De ser ou de exprimir o que mais me convém
E nem a dor detém aquilo que eu sentir
Desperta ou a dormir, com companhia ou sem.
*
Desobedeço, sim, se injustiçada for
E faço frente à cor da dor que trago em mim...
Talvez não seja assim que alguém se deva impor
*
Nunca fui, porém, flor, nem vivo num jardim,
Mais sou pé de alecrim escondido, sem se expor
Ao sol e ao calor... mas firme até ao fim.
*
Maria João Brito de Sousa – 09.05.2020 – 20.05h
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"Ao sol e ao calor... mas firme até ao fim"
Ninguém tente impedir-me a denúncia do mal
Há uma luz secreta a distinguir para mim
a minha parte humana de uma parte animal
*
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Não reajo, impulsiva, apenas por prazer
e esta minha vontade depende da razão.
Que venha então Morfeu para me adormecer
depois de mais um dia que não me foi em vão.
*
Nas palavras já ditas, quer em prosa ou poesia,
são as minhas mensagens de paz e alegria
para todos aqueles que me queiram ouvir...
*
Ah, como é bom sentir que a vida continua
a olhar toda esta gente que caminha na rua
para calar o medo, que a pôs a dormir!
*
Laurinda Rodrigues
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*
“Para calar o medo que a pôs a dormir”,
Deitou-se a descobrir o sinistro segredo
E a Morfeu deixou quedo incapaz de admitir,
Tentando reagir, em vão rezando um credo...
*
Era um impulso ledo, uma urgência de rir,
Uma ânsia de sentir sabor menos azêdo
Que o último degredo a fizera engolir
Depois de a denegrir e de apontá-la a dedo.
*
Mas nem sequer negou; o riso a preencheu
E assim se apercebeu do tanto que ganhou
No riso que a vingou do que outrora temeu.
*
Talvez nesse “ela” um “eu” vos mostre o que ficou
De um tempo que passou mas nunca se esqueceu;
Tudo quanto perdeu, por fim frutificou!
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Maria João Brito de Sousa – 10.06.2020 – 10.45h
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"Tudo quanto perdeu por fim frutificou
na terra do planeta, cheia de água e calor
e a energia do ar onde o aroma passou
todos em harmonia procriaram o amor.
*
Há janelas abertas e uma luz a inundá-las.
Há um som de magia, de uma nova estação
de palavras ousadas, que querem transformá-las
numa janela que se abre perante a imensidão.
*
Estou sozinha mas sinto que pertenci ao todo
onde gestos libertos de uma raiva de lodo
estenderam pela areia o desenho do mar.
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Talvez não compreendam esta minha ansiedade
de não perder o tempo com canto de saudade:
"impõe-se-me escrever, mais do que respirar"!
*
Laurinda Rodrigues
Isto sim que é Poetar
ResponderEliminare espantar
os males do Mundo
neste nosso acordar '_~)))
Bom fim de semana
beijinhos que já chove e faz frio
e fica-se assim sem brio brrrrrrrr
Por aqui também faz um friozinho desagradável, Anjo!
EliminarQuando ia estender ao ar o meu edredão - velhinho, velhinho... - é que me dei conta de que caía uma chuvinha molha-tolos que me impediu de arejar a roupa de cama...
Ah, quem me dera que os poemas espantassem mesmo os males do mundo... ajudam e ajudam-nos a enfrentá-los, é tudo.
Beijinhos