DIZEM QUE MORREU II

DIZEM QUE MORREU...
*
Coroa de Sonetos
*
Maria João Brito de Sousa e Helena Teresa Ruas Reis
*
1
*
Usado, adulterado, gasto e morto
Está o velho soneto. Dizem, dizem...
Outras mãos haverá que o enraízem
Que as minhas, hoje, pedem-me o conforto
*
De uma tarde serena. Olhar absorto,
Peço às horas que passem, que deslizem,
Que, em fraçcões de segundo, mimetizem
A paz da barca que chega a bom porto.
*
Desse instante de paz nasce-me um verso
(sei lá quantos segundos já lá vão...)
E agora o que ambiciono é o inverso
*
Dessa paz que me vem da reflexão;
Parem, mentiras, de embalar meu berço,
Que o soneto está vivo e forte e são!
*
Maria João Brito de Sousa - 09.10.2020 - 12.10h
***
2
*
“Que o soneto está vivo e forte e são”
A Maria João e outros o digam,
Basta olharmos as flores que germinam
Em quadras e tercetos do seu chão
*
Pétalas atiradas por magia
Do caule das palavras que as sustêm
Procurando p’la vida, mal ou bem,
Nos entrançados versos da Poesia.
*
Instantes de surpresa, de sucesso
Adornam um jardim assaz composto,
Voraz e criativo à luz de um verso
*
Qu’ ao lê-lo um outro surge a nosso rosto
E em rimas nos arrima num progresso
Em bagos madurados, fresco o mosto.
*
Helena Teresa Ruas Reis
***
3
*
"Em bagos madurados, fresco o mosto"
Destilando-se o néctar das ideias,
Enreda-me o soneto em suas teias,
Ressurge em graça o formato deposto.
*
Soube-me o seu soneto ao sol de Agosto,
Ao sal do mar, às conchas, às areias
Que são beijadas pelas marés cheias
Deste estuário de que tanto gosto!
*
Cante o soneto, cante-o como um hino
De revolta ou de amor, que tanto faz;
Ninguém pode mudar o seu destino
*
Pois cabe nele o mundo! Em si o traz
Ainda que pareça pequenino,
Mesmo que o julguem velho e incapaz!
*
Maria João Brito de Sousa - 10.10.2020 - 12.25h
***
4
*
“Mesmo que o julguem velho e incapaz”,
Mais insignificante ou alheado
Que pó ou grãos de areia no sobrado
Varridos pelo vento mais voraz
*
Trazidos desde o mar pelas palavras
Em espuma que as fustiga, em desatino,
Como se fossem algo clandestino
E não essa poesia que desbravas
*
Eu juro em boa-fé que o vou cuidar
Tentando pela Musa segurá-lo,
Assim consiga eu não soçobrar
*
Que a onda que mo traz pode levá-lo.
Quando inda muito pouco eu sei nadar
Num pouco só de mim posso afundá-lo…
Helena Teresa Ruas Reis
***
5
*
"Num pouco só de mim posso afundá-lo"
Para num outro nada reerguê-lo,
Renovado, pujante, honesto e belo,
Que pela Terra inteira há que espalhá-lo.
*
Paremos um segundo. Este intervalo
Bastará pra gerar novo novelo;
Haverá que fiá-lo e que tecê-lo
Até que ambas voltemos a dobá-lo
*
Treze anos vivi para servi-lo,
Mais treze viveria se pudesse
E a razão me deixasse garanti-lo...
*
Nasce a vida dum fio que se não tece;
Se algumas são tão longas quanto o Nilo
Outras se acabam mal o fio comece.
*
Maria João Brito de Sousa - 10.10.2020 - 16.33h
***
6
*
“Outras se acabam mal o fio comece”
São vidas bem mais breves que um poema
Pois elas dão-se à morte sem problema
E aquele quando finda permanece
*
Pois há um não sei quê que se assegura
Jamais ser olvidado em seu sentido
E parecendo ainda estar contido
Emerge em erupção da cerviz dura.
*
Não sonhe o pensamento em abolir
Aquilo que na alma tem raiz
Ou de si mesmo tinha de sorrir…
*
Na dor ou na revolta em crescimento
Pode um Soneto ter sua matriz
Mas é de Amor e Vida o seu alento.
*
Helena Teresa Ruas Reis
***
7
*
"Mas é de Amor e Vida o seu alento"
E é da força imensa em si contida
Que o soneto renega a despedida
Pra renovar-se em graça e em talento.
*
Em si se abraçam Alma e Pensamento
De uma forma nunca antes conseguida
E cresce a poesia em força e vida
Enquanto amaina o próprio sofrimento.
*
Porém ópio não é que em lucidez
É rico como poucos... tudo of`rece!
Se num momento gera embriaguês
*
Logo a seguir demonstra que não esquece;
Responde a quase todos os porquês,
E quando o repreendem nem estremece.
*
Maria João Brito de Sousa - 11.10.2020 - 13.52h
***
8
*
“E quando o repreendem nem estremece"
Tão certo está de si, do que revela,
Sabendo que nos versos o que sela
É mais do que num todo nos of’rece.
*
A cada qual que lê ele aparenta
Ser coisa tão diversa e solitária
Que ao próprio até surge solidária
Mas, mais que a esse, a outros acrescenta.
*
Entendo como ópio o tal efeito
Que enleia na leitura quem o lê
Tornando-se um anseio já eleito
*
Mas se este é uma droga eu sei porquê:
Apanha-nos a estrofe com seu jeito
Revemo-nos com ela e ela vê!
*
Helena Teresa Ruas Reis
***
9
*
"Revêmo-nos com ela e ela vê "
E perante esse enlevo carinhoso
Torna-se bilha de barro poroso
Em que outrem crê bem mais do que ela crê.
*
Do que recebe, bem certo é que dê
Em dobro, inda que em gesto vagaroso
Faça jorrar um verso já penoso
Porquanto o sol desmaia e pouco vê.
*
Toda dádiva viva se o sol brilha,
Esmorece ao lusco-fusco da tardinha
A estrofe transmutada numa bilha
*
De puro barro que agora se alinha
Para of`recer-te a água da partilha;
Dá-me dessa água, que eu já dei da minha!
*
Maria João Brito de Sousa - 11.10.2020 - 17.11h
***
10
*
“Dá-me dessa água, que eu já dei da minha”…
Aguadeira serei, por quem o manda,
Se o soneto não me der uma desanda
Caindo-me essa água p’la bordinha.
*
Ainda tornarei para a encher
Falando-lhe ao cuidado e ligeirinho,
Pode ser que ao sentir o meu carinho
‘stremecida ela queira se conter.
*
Perdoa estrofe, assim estropiada,
De aproveitar o pouco que te sobra
Enchendo-te eu a bilha desse nada…
*
As gotas lacrimejam na manobra
Mas eu sinto-me pura, renovada,
Por fazer através delas uma obra.
*
Helena Teresa Ruas Reis
***
11
*
"Por fazer através delas uma obra"
Feliz fiquei e mais que saciada!
Garanto que não peço hoje mais nada;
Acabo de beber água de sobra!
*
Hoje o soneto nada mais me cobra
Pois sabe bem que estou muito cansada;
Para estes olhos meus é madrugada,
A hora em que Morfeu me vence e dobra...
*
Já o soneto arrulha aos meus ouvidos,
Já o verso se perde em nebulosas
Manchas inacessíveis aos sentidos;
*
Só nuvens, muitas nuvens vaporosas
Sobre os meus versos quase adormecidos
Vêm saudar-me as pálpebras teimosas.
*
Maria João Brito de Sousa - 11.10.2020 - 20.55h
***
12
*
“Vêm saudar-me as pálpebras teimosas”,
Das linhas mais perfeitas as que ousei
Glosar neste jardim em que passei
Buscando um qualquer pão tornado rosas.
*
Milagre que proponho à santidade,
Encíclica que quero publicada.
Soneto é pr’a mim coisa sagrada,
Aquela que nos toca de verdade.
*
Perdoe-me o papado se ajuízo,
Se elevo a voz ao Céu agradecida
Toldada num sentir menos conciso.
*
É que me sinto já embevecida
Por encontrar a forma que preciso,
De elevar, qual Soneto, a minha vida.
*
Helena Teresa Ruas Reis - 11/10/2020
***
13
*
"De elevar, qual soneto, a minha vida"
É um milagre ao qual nunca resisto;
Poucas coisas tão belas tenho visto,
Nenhuma me deixou tão comovida.
*
Sei bem que estou à beira da partida,
Mas se mais um soneto, um só, conquisto
Fico a saber que para isto existo;
Escolhi pelo soneto ser escolhida!
*
Embora sonolenta e fatigada
Vão-me os versos fluindo, formam fios
Que irão depois formar uma meada...
*
São, os sonetos, longos como rios;
Sobre um dos rios flutua uma jangada
Sobre a qual vão meus doces desvarios...
*
Maria João Brito de Sousa - 11.10.2020 - 22.49h
***
14
*
“Sobre a qual vão meus doces desvarios”
Arrimados nos remos dum quebranto,
Saboreando, às ondas, o encanto
Marinado por ébrios delírios.
*
Desde a nascença, em verso estruturado,
Sou tal qual uma criança que procura
Um pouco de afeição ou de ternura
Que consiga levar a todo o lado.
*
E os risos e as dores se confundem,
As traquinices faço, não me importo,
Que o tempo decompõe ou faz que mudem.
*
Serei Soneto, ainda em desconforto
Nas pautas musicais que afora fluem,
“Usado, adulterado, gasto e morto”!
*
Helena Teresa Ruas Reis - 12/10/2020
***
Será soneto, mas sempre soneto belo, encantador, lindo de ler e reler! Um beijo grande minha amiga querida, um dia muito feliz 🙏🌷🌻❤
ResponderEliminarPela parte que me cabe, muito obrigada, Sandra!
EliminarVisitá-la-ei mais tarde, pois estou a mãos com mais uma Coroa de Sonetos
Beijinho grande!
É preciso muito fôlego.
ResponderEliminarUm abraço
L
Tem razão, L., é preciso muito fôlego até para ler tanto soneto, quanto mais para escrevê-lo. Fôlego e paixão pela sonoridade, pela musicalidade do soneto...
EliminarA Helena Teresa Ruas Reis, no meu entender, tem ambos de sobra. E eu também, mas isso já dura há muito, pois sou uma mulher de longas/grandes paixões.
Obrigada , pela parte que me cabe. Um forte abraço
Está vivo e bem vivo!
ResponderEliminarVivinho da Silva.
Gostei dos sonetos.
Beijinhos a ambas
Piedade Sol
http://olharemtonsdemaresia.blogspot.com/
Está pois, Piedade!
EliminarMuito obrigada pelo que cabe à minha metade nesta Coroa!
Beijinhos
De mote em mote
ResponderEliminarescolho
aquele aquele que mais me tocou
"Nasce a vida dum fio que se não tece"
(hei-de voltar a reler)
Tocou-te algo que também a mim me toca profundamente, Rogério...
EliminarPela parte que me cabe, obrigada e um forte abraço
Cá pra mim
ResponderEliminare com curiosidade
onde mora o fado
nesta minha sinceridade
de o ouvir com agrado, e desgarrado
Beijinhos pra vocês neste belo dia de Sol que já temos
Ai, Anjo, tens razão; eu adoro desgarradas destas
EliminarPela minha parte, obrigada! Beijinhos