ARTIMANHA - Coroa de Sonetos

ARTIMANHA
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Coroa de Sonetos
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Laurinda Rodrigues e Maria João Brito de Sousa
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1
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O mal faz-se sempre anunciar.
Às vezes, disfarçado, nem se nota.
Poeira venenosa envolve o ar
e um cheiro nauseabundo fica à solta.
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Não há palavras, gestos ou imagens
que emudeçam, na alma, o medo insano
São sendas de pavor como paisagens
que atravessam a terra e o oceano.
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Impõe-se a solidão. Ficarmos presos.
É essa a solução para estar ilesos
de um ataque fortuito que nos espreita...
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Não vale a pena dizer "sim" ou "não":
tudo aquilo que se diz é sempre em vão,
se a confusão lançada é tão perfeita.
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Laurinda Rodrigues
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"Se a confusão lançada é tão perfeita"
Que aos mais sábios confunde e desatina,
Cremos, então, que o Mal está sempre à espreita
Atrás de cada porta, em cada esquina
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São coisas de que a Manha se aproveita;
Bem sabemos que a Manha, essa ladina,
Se quer fazer passar por insuspeita
E aquilo que prescreve, nunca assina.
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Mas passe a Arte a bem ou passe a mal,
Contorna os riscos e enfrenta o medo
Que a ameaça de forma desleal;
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Abre as janelas de manhã bem cedo
Bebe do Sol a força universal,
Reduz o Mal a peças de brinquedo.
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Maria João Brito de Sousa - 09.11.2020 - 12.29h
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"Reduz o Mal a peças de brinquedo"
mas - cuidado! - que o sol é enganador:
faz de conta que é Pai e mete medo
quando os filhos lhe estragam o fulgor.
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Mas, afinal, o sol é apenas estrela
entre tantas estrelas que há no céu
e, quando esta verdade se revela,
uma outra dimensão aconteceu.
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Juntando as peças, que temos na memória,
vemos que "chefes-sóis" fizeram história
que lhes servem a eles, sem discussão...
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E, usando o globalismo como lema,
garantem, no poder, o seu sistema,
impondo, sem destrinça, esse padrão.
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Laurinda Rodrigues
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"Impondo, sem destrinça, esse padrão"
Que a Maga-lua acorre a transformar;
Assim que o Sol se rende à escuridão
Impõe-lhe ela o seu manto de luar
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E assim concede ao mundo a sedução
Que o Chefe-sol se nem lembrou de dar,
Quem sabe se por pura distracção,
Se por puro capricho de mandar...
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Amo o Sol e concedo-lhe o perdão
(ou penso que o consigo perdoar...)
Porque me acende a imaginação,
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Porque a todos se entrega sem cobrar,
Porque - confesso! - me enche de paixão
E porque, enfim, assumo; sou solar!
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Maria João Brito de Sousa .
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5.
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"E porque, enfim, assumo; sou solar"
presa na rota do ciclo de estações,
mesmo, sem canto, encanto à luz lunar,
esquecendo que há, na lua, mutações.
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Cresce a lua no céu, depois de prenhe
que o sol, na fase "nova", engravidou,
para correr o "quarto" e se despenhe
na "cheia" exibição que a culminou.
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Podemos ser solares enquanto humanos
mas é como lunares que cultivamos
o caminho perfeito da união...
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Nada no cosmo existe sem sentido
e é o olhar do poeta, destemido,
que faz, da lua e sol, inspiração.
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Laurinda Rodrigues
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"Que faz, da lua e sol, inspiração"
E que com Arte e Manha lhes dá voz
Porque Arte quer dizer rebelião
E Manha há sempre um pouco em todos nós.
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Rebeldes, inventamos a paixão,
Manhosos, transformamos algo atroz
Num enredo ideal cuja ilusão
Nasce purpúrea da explosão de uns pós...
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Triangulamos Terra, Sol e Lua,
Num passe de magia. A Arte, nua,
Por um momento veste os nossos mantos
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Para, logo a seguir, mostrar-se crua;
Despindo os astros, muda-se em falua
E faz-se ao Mar, explorando outros encantos.
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Maria João Brito de Sousa - 10.11.2020 - 12.54h
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"E faz-se ao Mar, explorando outros encantos"
porque, se a Arte é arte, é a expressão
seja em poesia, dança, sons ou cantos
do tempo, que traduz a mutação.
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E a mutação prevê-se nas estrelas
no para além deste planeta terra,
mesmo que tentem colocar-nos trelas
na desculpa de que Isto é uma guerra.
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Seremos sábios, mas sábios disfarçados
de humildes servidores desnaturados,
que aceitaram nascer para mendigar...
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E, enquanto os Reis solares clamam razão,
os pobres servidores vão dando a mão
prosseguindo a arte e manha de os calar.
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Laurinda Rodrigues
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"Prosseguindo a arte e manha de os calar"
Sempre que as ordens se tornam brutais,
Semeamos a flor que há-de brotar
Nos prados, nos canteiros, nos quintais
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Da Terra inteira, do céu ou do mar
No qual nadam os peixes e os corais
Proliferam, ainda, sem parar;
Nada, pra si, será longe demais
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Porque a Arte não cuida de barreiras
E há-de passar por todas as fronteiras
Mais forte a cada palmo que conquista.
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Escapar-se-á por fendas e soleiras
Mimetizando as coisas costumeiras;
Ninguém pode impedir que ela subsista!
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Maria João Brito de Sousa - 11.11.2020 - 19.24h
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"Ninguém pode impedir que ela subsista"
mesmo vendo que a arte é maltratada
e não é com protestos que resista
a tanta confusão já instalada.
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Na solidão imposta, versejamos
criando a ilusão que vale a pena...
Mas se, por mero acaso, fraquejamos
as imagens cruéis voltam à cena.
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Atados ao visor dos aparelhos
que são agora os nossos novos espelhos
retratando o olhar da rendição,
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talvez ainda sobreviva o sonho
de que este pesadelo tão medonho
se transforme num sonho de paixão.
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Laurinda Rodrigues
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"Se transforme num sonho de paixão"
O que hoje nos parece uma utopia
E a mais que condenada aspiração
De algum idealista em distonia
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E surdo, face a esta distorção,
Ou cego, face a esta pandemia...
É o sonho, contudo, evolução
E a essa nenhum vírus contraria.
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Com Arte e Manha enfim se concretiza
O sonho que ninguém desenraíza
Do ser humano que em si próprio o traz
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E que de quase nada se improvisa
Quando sobre si mesmo profetisa
E acerta, pois de tudo ele é capaz!
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Maria João Brito de Sousa - 11.11.2020 - 22.53h
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"E acerta, pois de tudo ele é capaz":
salta barreiras com a mente adormecida
porque, na noite, o sonho dorme em paz
diferente da vigília consentida.
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Das trevas do profundo inconsciente
compõe lembranças do aqui e agora
e, às vezes, quando o corpo está doente
a alma criadora ri e chora.
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A confusão, que alastra, não entrava
que faças com teu sonho a tua lavra
numa terra de fértil energia...
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Não fiques agarrada à voz macabra!
talvez seja o silêncio que nos abra
os sonhos mais proféticos da poesia.
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Laurinda Rodrigues
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"Os sonhos mais proféticos da poesia"
Nascem-me assim que acordo e fico alerta;
A Manha é pouca, mas a Arte cria
A partir de uma mente bem desperta
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Que a toda a voz macabra repudia,
Nem a ouvindo que outra é descoberta
Nos tons cantantes de uma melodia
Que sobre mundo e vida se concerta.
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É dum sossego desassossegado,
Talvez silêncio de pronto quebrado,
Que o verso nasce e depois se compõe.
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Mas só em força nasce se acordado;
Se dorme, nasce tão desafinado
Que nem percebe ao certo o que propõe.
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Maria João Brito de Sousa - 12.11.2020 - 11.35h
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"Que nem percebe ao certo o que propõe"
seguindo em linha a voz dos ditadores
que a todos nós a submissão impõe
para, depois, nos tratar como traidores.
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Antigamente três "fs" suportavam
a perda, raiva, medo e frustração;
mas, agora, nem "fs" aguentavam
os espaços vazios da solidão.
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Todos falam. Ninguém percebe nada.
Fazem-se regras apenas para fachada.
Mais tarde se verá quem vai mandar.
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Pobre consolação em grande estilo!
Cantam melhor o galo, o melro, o grilo
que a gente entende, mesmo sem escutar.
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Laurinda Rodrigues
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"Que a gente entende, mesmo sem escutar"
Porque esses sabem sempre como e quando
E até entendem que comunicar
É bem mais que dar ordens de comando
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Pois também será forma de exaltar
A própria vida que lhes vai pulsando
Nos pequeninos corpos, a vibrar,
Enquanto a Terra inteira vai girando
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E eu, aqui sentada, vou glosando,
Apesar de uma mão me estar sangrando,
Os versos que me deste pra glosar.
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Enquanto alguns de nós vão acordando,
Outros, sem Arte e Manha, vão tombando;
"O Mal faz-se sempre anunciar".
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Maria João Brito de Sousa - 12.11.2020- 15.26h
Se o mal sempre se faz em anunciar,
ResponderEliminarNão deve ser o mal, tão mal assim
Pois não destila o suco biliar
Provando ser o mal não tão ruim!
Porém, eu quero o mal, longe de mim!
Porque não posso dar sorte ao azar
E eu não arrisco nem tento, enfim
Visto que bem é bem melhor, sem par!
Por isso creio que entre o mal e bem
Prefiro estar com o bem um pouco mau
Do que estar com o mal bonzinho e sem
A garantia que o mal fique bem
Ou bom, esse tal mal cara de pau,
Visto que mente estar em outro grau!
Abraço cordial! Laerte.
Não são, os dois conceitos, lineares,
EliminarNão é, por vezes, fácil distinguir
O Bem do Mal. Se acaso os encontrares,
Cuidado porque podem confundir
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Desde o mais apurado dos olhares
Até ao mais sensível do "sentir";
Amigo meu, se disto discordares,
Imploro-te que me ouses desmentir.
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Às vezes pelo Bem se faz o Mal
E, noutras, pelo Mal pode obter-se,
Inadvertidamente, o bem geral,
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Cortando o Mal pela raiz, tão cerce,
Que só tarde e de forma pontual
O Mal dá conta e volta a reerguer-se.
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Maria João Brito de Sousa - 14.11.2020 -16.04h
Chego muito tarde porque continuo menos bem, Laerte.
O meu grato e fraterno abraço!
Êláááá´
ResponderEliminarque temos Festa e desgarrada
e onde as letras por notas
fazem jus de forma encontrada e aconchegada
Bom fim de Semana de Pandemia
bom dia com alegria
Beijinhos pra vocês
Bom dia e obrigada pela parte que me cabe, Anjo!
EliminarContinuo muito longe de me sentir minimamente bem, mas sempre tentarei responder-vos, ainda que possa ser mais sucinta.
Beijinhos
Aqui sim! Vale a pena vir ler Poesia, vou encantada, parabéns às Poetas.
ResponderEliminarBoa semana um carinhoso abraço
n.nuno
Muito obrigada, pela parte que me cabe, Natália!
EliminarQue tenhas uma excelente semana, amiga!
Forte abraço!