CAÍA O SOL - Coroa de Sonetos

caía o sol.jpg


CAÍA O SOL
*


Coroa de Sonetos
*


Custódio Montes e Maria João Brito de Sousa
*


1
*


Caía o sol com brilho cintilante


Batia no amarelo da folhagem


Contemplava ao segundo essa imagem


Com prazer e sorriso abundante
*


Avançava contente e radiante


Na estrada depois duma paragem


Mas aquela beleza de amostragem


Trouxe-me a poesia nesse instante
*


No outono cai folha zune o vento


Mas as cores ondeiam variadas


E a beleza a crescer é um portento
*


O sol a iluminar como baladas


Em canto harmonioso num evento


Com lúdicas canções ao céu lançadas
*


Custódio Montes


(3.11.2020)
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2
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"Com lúdicas canções ao céu lançadas"


Por coloridas notas singulares


Nascidas da magia dos teares


Por invisíveis mãos sendo orquestradas,
*


Exprime-se o vento em sopros e rajadas


E as folhas tomam tons peculiares


Enquanto são levadas pelos ares


Porquanto pelo sol sendo beijadas.
*


Caía o sol, nascia um novo verso


Do irreal esplendor desse momento


Que se cristalizou, estando disperso;
*


Nesta contemplação, parou o tempo


Que tanto quanto sei não teve berço,


E, para ver também, rendeu-se o vento.
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Maria João Brito de Sousa - 03.11.2020 - 16.13h
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3
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“E, para ver também, rendeu-se o vento”


E o sol lança seus raios no Gerês


Espelho que nos mostra cada vez


A rocha, a natureza em movimento
*


Cai a luz clareia o sol cada elemento


Produz belas imagens cada vez


Orgulho-me da serra que me fez


Poeta destes tons cada momento
*


Podeis no sul vós ter coisas tão belas


Olhadas com carinho e com paixão


Mas vindo ao Gerês, destas janelas
*


Haveis de ver que abertas elas são


Produto dum pintor de lindas telas


Que enchem de alegria o coração !
*


Custódio Montes


(3.11.2020)


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4
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"Que enchem de alegria o coração (!)"


Apaziguando a dor das mil canseiras


E apagando dos rostos as olheiras


Da nossa humana e breve condição
*


Pois de olhos postos nessa imensidão


Perdemos dimensão, somos poeiras...


A mesma imensidão vejo em Oeiras,


Onde o sol beija um Tejo em redenção.
*


Será, talvez, o seu Gerês mais belo,


Mais nítido e glorioso o seu poente,


Mas o meu chão mais raso, mais singelo,
*


Também, de alguma forma, é imponente


Quando um Tejo vermelho e amarelo


Abraça um sol deposto à minha frente.


*



Maria João Brito de Sousa - 03.11.2020 - 18.13h
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5
*


“Abraça um sol deposto à minha frente”


Caindo sobre o monte que revejo


A água segue ao fundo não do Tejo


Mas segue para o mar rumo ao poente


*


E junta-se ao seu Tejo num instante


Num forte e terno abraço de desejo


Confundem-se, misturam-se num beijo


São águas que dão vida a toda a gente
*


Gerês rocha granítica bem forte


O Cávado ao fundo a seus pés


São belos e eu tenho tanta sorte
*


Que os vejo cada dia lés a lés


E mandam-lhe um abraço cá do norte


A si, Tejo, a Oeiras a vós três.
*


Custódio Montes


*


6


*


"A si, Tejo, a Oeiras a vós três"


Envio este meu ígneo entardecer


E um pouco da alegria de o viver


Que sei que também tem no seu Gerês.


*


Nada mais posso dar-vos mas talvez


Encontre alguma forma de rever


A terra que acabou de descrever


E que o Cávado inteiro tem aos pés.


*


Oeiras é mulher bonita, airosa,


Que em seu manto de areia e de alva espuma


Vê o Tejo ir ao mar e já saudosa


*


Corre a beijar-lhe as ondas uma a uma


Como se fora a dedicada esposa


De um Tejo que não quis ter esposa alguma.


*


Maria João Brito de Sousa - 04.11.2020 -11.02h
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7
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"De um Tejo que não quis ter esposa alguma"


Mas o Cávado é um bom rapaz


E tem várias mulheres. Que bem faz


Em não se acorrentar ele a nenhuma
*


Lá segue vale abaixa, bem se arruma


Pelo fundo da serra indo em paz


Sorri pelo caminho e é bem capaz


De conquistar as moças uma a uma
*


No mar encontra o Tejo e em conversa


Com certeza é capaz de lhe ensinar


A tomar outra pose bem adversa
*


Para uma mulher ele encontrar


Ensinar-lhe a fazer uma promessa


E pôr por fim o Tejo a namorar
*


Custódio Montes


(4.11.2020)
*



8
*


"E pôr por fim o Tejo a namorar"


Com Oeiras que sempre o namorou


E a cada sol poente ajoelhou


Assim que viu o Tejo entrar no mar.
*


Nunca deixou Oeiras de o amar


E o rio também por ela se encantou,


Passou porém por ela e não ficou,


Nunca a ela se quis acorrentar...
*


Contenta-se ela com os beijos breves


Das ondas do seu Tejo marinheiro;


Toda coberta de rendadas neves
*


Julga ser noiva e esposa a tempo inteiro


De quem a cobre assim de espumas leves


Prá manter, iludida, em cativeiro.
*



Maria João Brito de Sousa - 04.11.2020 - 14.19h
*


9


“Prá manter, iludida, em cativeiro”


E para o Gerês não pode vir


Mas se viesse havia de sentir


Bastante liberdade a tempo inteiro
*


Que o Cávado a punha em primeiro


E fazia-a dançar, cantar e rir


E a cada hora a ia divertir


E deixaria então de ser solteiro
*


No norte quando existe uma paixão,


Mesmo um rio, é sempre apaixonado


E não cria no outro a ilusão
*


De que traz o amor bem enganado


Entrega sua alma e coração


Não prende em cativeiro o bem amado
*


Custódio Montes


(4.11.2020)
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10
*


"Não prende em cativeiro o bem amado"


Um rio que não foi cais de despedida,


Mas teve o Tejo a sina indesmentida


De ver partir pioneiro e até soldado.
*


Por ser cais de partida, viu chorado


O sal de todo o mar. Cada saída


Representava menos uma vida


E por isso se diz que o Tejo é fado...
*


Tanta jovem mulher em desespero


Viu, o Tejo, engrossando as suas águas,


Tanto sal recebeu como tempero,
*


Que hoje não o comovem pranto ou mágoas;


Mal chega a esta Oeiras que eu venero,


Lança-se ao mar como se ardesse em fráguas.
*



Maria João Brito de Sousa - 04.11.2020 - 18.00h
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11
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“Lança-se ao mar como se ardesse em fráguas”


O tempo cura tudo ao decorrer


E o Tejo ao passar podia ter


Pena de Oeiras, dar-lhe com as águas
*


Afago carinhoso às suas mágoas


Cantar-lhe uma canção a enaltecer


Nas margens que lhe inunda com prazer


E afagá-la até com umas loas
*


Já vi que o rio a sul é rancoroso


Alheio todo ele ao sentimento


Um rio poluído, não charmoso
*


Vivendo imbuído em tormento


Sem réstias de paixão porque amoroso


Pedia Oeiras logo em casamento
*


Custódio Montes


(4.11.2020)
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12


*
"Pedia Oeiras logo em casamento"


Enquanto o sol poente o adornava


Da cor vermelha e viva que há na lava


Na qual se exprime em força o sentimento.
*


Daria Oeiras seu consentimento


Que há tanto, tanto tempo ela esperava


O tal pedido que não mais chegava


Porque o Tejo temia o sofrimento,
*


Fingindo não ouvir, quando passava,


Os seus suspiros, num triste lamento


Que até o Cávado ao longe escutava...
*


Caía o sol num Tejo agora lento,


Sorria Oeiras porque noiva estava


De um rio que dantes fora o seu tormento.
*


Maria João Brito de Sousa - 04.11.2020 - 20.56h


*
13
*


“De um rio que dantes fora o seu tormento”


Ou ela então podia não ligar


Que andasse lá o Tejo a falar


E não lhe dava o seu consentimento
*


Veria a água ir, soprar o vento


Depois ouvia o Cávado a passar


Deixava o Tejo e ia namorar


Em água cristalina a seu contento
*


Seguia rio acima uma vez


A ver as suas margens e olhava


O monte, um paraíso lés a lés
*


E com todo esse encanto lá ficava


No vale ali por baixo do Gerês


E com o rio Cávado casava
*


Custódio Montes


(4.11.2020)
*


14
*


"E com o rio Cávado casava"


Se não fosse mulher de um só amor;


Ama o seu Tejo e sabe-lhe de cor


A cor de cada onda, mansa ou brava
*


Pois nunca arreda pé. Seu corpo crava


No chão que o Tejo escava em seu redor


E nem a ilusão mina o valor


Dos beijos breves que o seu rio lhe dava.
*


Contra o seu próprio fado, nunca iria,


Não quer sequer pensar num novo amante


E ainda que hesitante repudia
*


Unir-se a rio tão belo quão distante;


Enquanto assim pensava e lho dizia,


"Caía o sol com brilho cintilante".
*



Maria João Brito de Sousa - 05.11.2020 - 13.40h


 


Imagem retirada daqui

Comentários

  1. Não me limito
    a dizer "lindo"
    e acabo de ter uma ideia
    Porque não eleger esta coroa
    para uma representação
    ao vivo e a cores?

    Porque não?

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. E por que não, se o co-autor estiver de acordo, claro?

      Rogério, só posso falar por Oeiras e pelo Tejo. Pelo Gerês e pelo Cávado, falará o poeta amigo Custódio Montes, mas parece-me uma excelente ideia!

      Dado que o diálogo é longo e o meu "motor central" me deixa a arfar ao fim de meia dúzia de palavras, não posso oferecer-me para dar voz a esta tua ideia mas tu, decerto, encontrarás quem possa dar-lhe voz sem correr o risco de ter uma paragem cardíaca, rsrsrs...

      Vamos a isto??? Se quiseres avançar e não tiveres forma de contactar o co-autor, avisa-me que eu trato de lho comunicar.

      Forte abraço

      Eliminar
  2. Que desgarrada
    que com uns sons de guitarra
    e com vocês dois na cantoria
    nada desafinava

    Brinco no desejo de um bom fim de Semana
    que a Pandemia
    não nos pode tirar a alegria, Beijinhos

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. A pandemia não nos matará antes de estarmos mortos, Anjo, tens razão

      Obrigada e beijinhos

      Eliminar
  3. Hoje te encontrei na liça!
    És exímia combatente!
    E no mar - tua alma iça
    Velas, em forte corrente.

    Na arena, sem ter cobiça
    Vences o que a alma sente.
    No mar, sobre a corrediça
    Deixas a escota assente.

    Seja na arena ou no mar
    És a figura exemplar
    Que admiro e respeito.

    Dominas três universos:
    A arena, mar e versos
    De extraordinário jeito!

    Abraço cordial! Laerte.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Muito, muito obrigada pelo belíssimo sonetilho que me dedica, Laerte!

      Não estou sozinha na arena,
      Outros há que igual se batem;
      Trocando a lança por pena,
      Não há nó que não desatem!
      *
      Trazemos, na tez morena,
      Sonhos dos que não se abatem;
      Nossa fé não é pequena,
      Não há monstros que nos matem!
      *
      Pelo soneto, avançamos
      E em troca nada esperamos
      Senão este encantamento
      *
      De irmos, sem donos nem amos,
      Ouvindo os sons que tocamos
      Espalhados plo firmamento!
      *
      Maria João Brito de Sousa - 07.11.20

      Pela minha parte, muito obrigada, Laerte.


      Fraterno abraço!

      Eliminar
  4. Belos sonetos dos dois amigos, não encontro igual, é um recanto mágico este teu poetaporquedeusquer.

    Abraço

    ResponderEliminar

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