COISAS DE TRAVESSEIROS

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COISAS DE TRAVESSEIROS
*


Meu travesseiro não tem sumaúma,

Por isso não me dá conselho algum

Que a sintética fibra feita em espuma

É menos tagarela que um atum...
*

Se bem que de auscultá-lo não presuma,

Tem o meu travesseiro algo em comum

Com esse seu que inspira, mas não fuma;

Ambos emitem um ténue zunzum.
*

O seu é sábio e dá-lhe mil conselhos,

O meu, co`a singeleza dos mais velhos,

Não fala nem por força da tortura!
*

Dos dois, não sei dizer qual o melhor,

Nem qual dos dois terá maior valor;

Vou rechear o meu de serradura!


*

Maria João Brito de Sousa - 14.10.2020 - 20.43h

*

 

Soneto inspirado no poema "Conselhos de Travesseiro" de Luís Santos.



 

Comentários

  1. Ah, poesia de um travesseiro...
    É pertinente até! É pertinente
    O meu de estimação, é de repente
    Meu confidente e até mensageiro!

    Ele me diz sobre ela, com o seu cheiro
    De delirante teor, que a alma o sente
    Em sonhos ternos e o inconsciente
    Dá as mensagens para mim primeiro,

    Depois olvida até mesmo a mim.
    Estou feliz com o travesseiro assim
    Que sabe tudo e conta o segredo.

    Ele contou-me tim-tim por tim-tim
    Que ela cobriu-me com o macio cetim
    Quando com frio eu fui dormir mais cedo!

    Grande abraço! Laerte.

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    1. "Quando com frio eu fui dormir mais cedo"

      No travesseiro pousada, a cabeça,

      Como se houvera feito uma promessa,

      Ficou o dito-cujo mudo e quedo
      *

      Concedendo o silêncio que eu concedo

      A essa delicada e fofa peça

      Que me aconchega mal Morfeu começa

      A enlear-me no seu doce enredo.
      *

      É no mutismo da contemplação

      Que o travesseiro cumpre a tal função

      De garantir-me um sono repousante
      *

      E mudo ficará enquanto eu não

      Me levantar pousando os pés no chão

      Ainda que, talvez, cambaleante.
      *

      Maria João Brito de Sousa - 23.11.2020 - 14.26h


      Forte abraço, Laerte!

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    2. "Ainda que talvez cambaleante",
      Eu lembrarei do tido e doce sonho
      E sonharei acordado, suponho,
      Que sonhei ser, ainda, o tenro infante

      A buscar sonhos de um mundo distante.
      Porém Morfeu se fez um deus bisonho,
      A inspirar-me o mais triste e medonho
      Vil pesadelo que o bem desencante.

      E o travesseiro, o que fiz afinal?
      Meu travesseiro não me leva a mal,
      Fica sozinho a me esperar na cama.

      Na noite por chegar, por ritual
      Será o mesmo! Exatamente igual:
      Deito com ela - a gente se ama!

      Abraço cordial! Laerte.

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    3. "Deito com ela - a gente se ama(!)"

      Bem mais, ainda, do que amor promete

      E a toda a hora gente se repete

      Na partilha do sonho e sono e cama.
      *

      Vistas as coisas, assim, pela rama,

      Ao travesseiro pouco já compete

      E ainda que em conforto vos complete,

      Calado fica por respeito à dama.
      *

      Quanto ao meu travesseiro surdo e mudo,

      Pesadelos não tem, nem eu lhe acudo

      Se alguma vez algum vier a ter;
      *

      Serenamente durmo a noite inteira

      A não ser que uma cãibra traiçoeira

      Me atinja as pernas e me faça erguer.

      *

      Maria João Brito de Sousa - 23.11.2020 - 17.40h

      Outro abraço, Laerte!

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    4. Se a "câimbra" traiçoeira faz-te erguer,
      Fique de pé sobre a perna dormente
      Que de repente, mais que de repente,
      Some-se a dor e sentirás prazer

      Ao analizar detalhes do teu ser
      Que de potássio parece carente
      E com banana o organismo sente
      Já com o potássio, restabelecer.

      Assim, a sobrevida tua e a minha
      Deve seguir, talvez, a mesma linha,
      A linha tênue do fio da navalha.

      Temos que ver que a idade caminha
      E nossas fibras, vértebras e espinha
      São um milagre, mas às vezes, falha.

      Abraço cordial. Laerte.

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    5. "São um milagre mas, às vezes, falha"

      E é, no meu caso, o sódio que rareia

      Deixando-me num estado que falseia

      O aparente equilíbrio. O corpo ralha,
      *

      E até a mente, às vezes, se baralha

      Assim que a coisa se desencadeia

      E ou se recebe sódio pela veia,

      Ou morre o corpo durante a batalha.
      *

      Mas de outras coisas falemos agora

      Que eu não estou com vontade de ir-me embora

      Pois muito tenho ainda que escrever.
      *

      Tanta vez fui e tanta vez voltei

      Que, lhe garanto, até me habituei

      A essa coisa chata que é morrer.
      *

      Maria João Brito de Sousa - 23.11.2020 - 19.53h

      *

      Outro abraço, Laerte

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    6. "A essa coisa chata que é morrer."
      Mas não por falta de potássio ou sódio
      Que eu omiti e até fiquei com ódio
      Do intelecto frágil do meu ser.

      Mas não importa!... O equilíbrio é ter
      Na mesma altura ou nível do pódio
      O tempo todo não em episódio
      Que enfraquece e rompe o poder.

      Porém, Maria, chega de doença,
      Pois na verdade eu tenho outra crença
      Que a mente é tudo e se é o que pensa!

      Pensar na vida, no sonho é mania
      Que tenho tido e me proporia
      Passar-te isso junto a poesia!

      Outro abraço carinhoso. Laerte.

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    7. "Passar-te isso junto a poesia(!)"

      Que essa verdade é de importância extrema;

      É por vezes mental o que é problema

      E se não fora o SAAFs assim seria...
      *

      Entre vós com certeza não estaria

      Se a minha mente não fosse um poema

      Que em versos se refaz sem buscar tema

      Porque, de versos, nunca está vazia.
      *

      Sim, trouxe alguns "defeitos de fabrico"

      Que a custo vou vencendo. Descomplico,

      Mas mantenho-me alerta a tempo inteiro.
      *

      Talvez por isso nunca tenha ouvido

      Os tais conselhos do "senhor sabido"

      Que dizem ser o nosso travesseiro :)
      *

      Maria João Brito de Sousa - 24.11.2020 - 12.06h


      Muito obrigada e outro forte abraço, Laerte!

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    8. Podre aldeão, passando por letrado...
      Quanta bondade dessa nobre amiga
      Que me enaltece. Que Deus te bem-diga.
      E que eu te diga - meu muito obrigado!

      Os teus defeitos de fábrica é um dado
      Que eu não computo! Talvez à fadiga
      Dos componentes, algo se consiga
      Para a reforma do que há instalado.

      Porém, tua função é a poesia!
      E para isso, o cérebro, eu diria
      Que à prova de desgate ou muito além:

      Quanto mais roda, ele mais se afia
      A dar a verve maior maestria!
      Creio, Maria, que vais muito bem!

      Beijinhos! Laerte.

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    9. "Creio, Maria, que vais muito bem",

      Diz-me Laerte com a gentileza

      Que é bem própria do gestos de grandeza...

      Eu corresponderei ;"E tu, também!"
      *

      Mas, hoje, a Musa pouca força tem

      Pois como toda a musa que se preza

      Também tem seus momentos de fraqueza

      E está cansada de andar num vaivém.
      *

      Serão as suas "fases de pousio";

      Quando anda a "poetar" num corrupio,

      Fica exaurida e deixa de cantar.
      *

      Mais tarde voltará. Nunca sei quando,

      Que a sua verve nem mesmo eu comando

      E é ela quem decide, ou não, voltar.
      *



      Maria João Brito de Sousa - 25.11.2020 - 13.02h
      *

      Com o meu grato e fraterno abraço, Laerte!

      PS - Esta pontual ausência da Musa não significa que deixe de responder aos seus sonetos, se lhe aprouver continuar este nosso poético diálogo. Ainda consigo escrever qualquer coisinha, ainda que à revelia da Musa :)

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    10. No teu Olimpo tem mais de uma musa.
      Não creio que a tua musa está doente.
      Se uma afina a lira, de repente,
      Recorra a outra que não está reclusa!

      Maria, o teu cantar vem de uma eclusa
      Que vem de outra eclusa e é vertente
      Do sentimento d'alma que se sente
      Ser bem maior que o caudal que usa.

      O teu cantar, Maria, é solo e ecoa
      No universo inteiro e não à toa
      A musa se recolhe a escutar

      O que a lira doce não entoa.
      Tua canção é linda e é tão boa
      Que ecoa no Olimpo - em todo o ar!

      Beijos de carinho! Laerte.

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    11. "Que ecoa no Olimpo - em todo o ar(!)"

      E em cada ilha de cada oceano

      Canta uma musa uma canção por ano

      Dos muitos que calou qu`rendo cantar
      *

      Mas eu, que mal consigo, hoje, falar

      De afónica que estou, se não me engano,

      Em vez de poetar, vou causar dano

      À musa que acabei de mencionar...
      *

      Trago uma voz de cana bem rachada

      E embora estando presa e confinada,

      Foi na garganta e nas cordas vocais
      *

      Que o frio se fez sentir; desafinada

      Ficou a minha lira... e magoada

      Por não poder expressar senão sinais.
      *



      Maria João Brito de Sousa - 26.11.2020 - 11.52h

      *

      Com o meu carinhoso abraço, Laerte!

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    12. A tua expressão, Maria, eu sinto,
      Na tua triste e expressa afonia,
      Como uma vaga e terna melodia,
      Misteriosamente, em meu recinto

      Feito em som de estranho labirinto
      Sonoro a ecoar, qual por magia,
      A mais sublime e doce poesia
      A qual, o espírito era faminto.

      Assim, na minha alma reverberas
      Não como sonhos vagos de quimeras,
      Mas algo real, que a tua alma avia.

      São músicas das doces primaveras
      Que Vivaldi não fez em atmosferas
      Faltantes dos poemas de Maria.

      Saúde, paz e muito amor! Abraço amigo! Laerte.

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    13. "Falantes dos poemas de Maria"

      Já que em Maria todas nós cabemos

      E Joões há bem menos, bem sabemos,

      Mas por João meu pai me trataria.
      *

      Também a minha mãe me chamaria

      João, já que o Maria mantivemos

      Pois João, isolado, não pudemos

      Registar como nome... que heresia!
      *

      Maria é um apêncice, um sufixo

      Do nome de João que sempre afixo

      No final do que pinto ou do que escrevo.
      *

      Desculpe se o confesso abertamente,

      Mas por João me trata toda a gente

      E esse Maria só às leis o devo.
      *



      Maria João Brito de Sousa - 27.11.2020 - 11.50h
      *


      Laerte, quando nasci, na década de cinquenta do século passado, 99% das mulheres portuguesas eram Marias. Colocava-se o Maria antes do nome próprio apenas como indicativo de género/sexo e nunca por nunca ser a minha família ou os meus amigos me trataram por Maria. Sempre fui tratada por João e, ocasionalmente, por Jo ou Joãozita, quando era pequenina.

      Aqui vai, com o meu carinhoso abraço e votos de muita saúde!

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    14. Oi, Jô, é muito prazer
      Conheço-te por tal nome!
      E por favor, não me tome
      Por atrevido, em ser

      Espontâneo! O parecer
      Que ora, exaro, "in home"
      É de que tu'alma me some
      Aos íntimos desse teu ser,

      Para eu te chamar de Jô.
      Afinal, não sou robô
      E gosto de interação

      Entre mim e ti, distante!
      Porém, seguindo adiante
      Chamar-te-ei Jô, João!

      Abraço cordial! Laerte.

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    15. "Chamar-te-ei Jô, João!",
      Diz Laerte e eu sorrindo
      Ao vocativo bem-vindo
      Não vou dizer-lhe que não.
      *
      Sou contra a desconstrução
      Do que estamos construindo;
      Da mente me vai fluindo
      O que sai da minha mão
      *
      Pode a Musa ir-me fugindo,
      Pode o frio ir agredindo
      O meu frágil coração,
      *
      Posso estar quase dormindo,
      Mas garanto estar ouvindo
      Tudo, com toda a atenção.
      *

      Maria João Brito de Sousa - 28.11.2020 - 10.55h
      *

      Continuo à espera de melhorar um pouco, meu amigo. A Musa continua ausente e já começo a ter saudades dela...

      Fraterno abraço

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    16. Não "desconstruirei" teu nome!
      Serás Maria João,
      Dada à visceral razão
      Do meu cérebro ao abdome

      Que tortura e me consome
      Por sempre estar de plantão,
      A dar-me um beliscão
      Ao ver-te Jô com o pronome.

      Portanto, João ou Maria
      És diva da poesia
      E esse pobre aprendiz

      Tem Maria João por guia
      A qual me perdoaria
      Por tratamento que eu fiz.

      Meu abraço fraterno e escusas, se houve melindres! És maravilhosa! Estou preocupado se não estou a invadir teu espaço literário em prejuízo de leitores teus. Dá-me um grito! Minha gratidão! Laerte.

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    17. "Por tratamento que eu fiz",

      Do qual gostei, lhe garanto!

      Tão pouco e soube-me a tanto,

      Esse nome de petiz!
      *

      Fui eu quem assim o quis;

      Não se desculpe, portanto,

      Que esse Jo traz-me o encanto

      Da meninice feliz.
      *

      Nenhum tempo me roubou,

      Eu é que doente estou

      E, por isso, "desmusada"...
      *

      Escrevo muito pouco, ou nada,

      Porque a Musa me faltou

      Quando o "motor" vacilou.
      *

      Maria João Brito de Sousa - 29.11.2020 - 11.47h

      *

      O "motor" é o coração, mesmo. Mas não se preocupe pois não me está a roubar tempo algum; eu é que estou fisicamente menos bem e entrei em "fase de pousio" o que é muito comum em todos os poetas e, de certa forma, favorável à própria poesia.

      Fraterno abraço, Laerte!



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    18. Valeu, Jô! Fico feliz
      Em tratar-te Jô. Assim
      O teu nome fica afim
      À intimidade que quiz

      Estabelecer e o fiz
      Por estar dentro de mim
      Vontade de amar, sem fim,
      Mas cônscio "do meu nariz'!

      E assim, Jô, chamar-te-ei,
      Não contrariando a lei
      Nem a vontade de quem

      Outorgou-me esse direito
      E o guardo dentro do peito
      Com o carinho que convém!

      Abraço cordial! Laerte.

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    19. Hoje já não encontro forças nem para uma única quadrazita, Laerte, portanto fico-me pelo costumeiro agradecimento :)

      Fraterno abraço

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  2. Gostei dessa sucessão de poesia sobre os travesseiros. Atenção que se os fabricantes descobrem que "eles" ouvem e falam, o preço vai aumentar.
    Um abraço
    L

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    1. Ahahahah, que delícia de comentário, L.!

      Mas o meu é mudo, coitado... ou serei eu que não lhe presto atenção, talvez... a verdade é que há muitos anos lhe não oiço uma única palavrinha.

      Forte abraço!

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  3. E com alegria
    bom dia que que a manhã é fria
    e o travesseiro não pia

    Bonito e alegre poema MJ
    Beijinhos

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    1. Bom dia, Anjo!

      Se ainda estivesse entre nós, hoje faria 58 anos, a minha irmã...
      Não foi o travesseiro quem mo lembrou, foi a memória que tantas vezes me falha até no meu próprio aniversário...

      Beijinhos!

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  4. Um poema muito interessante, seguido de outros também muito gostoso de ler.
    Adorei.
    Abraço e saúde

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    1. Pela parte que me cabe, muito obrigada, Elvira!

      Forte abraço e muita saúde, amiga!

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  5. MAria João

    estive a ler os comentários e gostei dessa interacção.
    mas de um travesseiro fazer este soneto tão bom é realmente impressionante.
    Boa semana.
    Cuide-se
    Beijinhos
    Piedade Sol
    http://olharemtonsdemaresia.blogspot.com/

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    1. Muito obrigada pela parte que me cabe, Piedade!

      Os sonetos do poeta amigo Laerte Tavares também contribuíram muito para enriquecer este meu espaço :)

      Beijinhos e muita saúde!



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  6. Um bom e belo dia
    no desejo de que tudo vá bem MJ

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    1. Bom dia, Anjo, que eu estou afónica de todo... raio do frio

      Beijinhos!

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  7. Cuidados MJ

    Bom dia
    bom fim de Semana com alegria '.~)

    Beijinhos

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    1. Passo metade do meu dia a aplicar a mim mesma cuidados de enfermagem, rsrsrs... ele são compridos atrás de comprimidos, medições da TA, aquecimento artificial, massagens, aspiração de bombas preventivas da asma... é tão chaaaaaato, Anjo!

      Bom fim-de-semana e beijinhos

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  8. Tão irónico este seu soneto. Mas gostei da ironia e do sentimento que nela disfarçou.
    Cuide-se bem.
    Um beijo.

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