PRAGMATISMO(S) - Coroa de Sonetos - Maria João Brito de Sousa e Laurinda Rodrigues

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PRAGMATISMO(S)
***


COROA DE SONETOS
*


Maria João Brito de Sousa e Laurinda Rodrigues
***


1.
*


Às vezes julgo ser tão só produto


Duma vontade que transcende a minha,


Mas se vejo crescer, linha após linha,


A força deste sonho por que luto
*


Sei ser o sonho o último reduto


De um corpo que envelhece, que definha


E que faz frente ao fim que se avizinha


Fingindo-se invencível, forte e bruto.
*


Não me iludo contudo. Isto é fugaz,


Tudo o que nasce, morre tarde ou cedo,


Deixando, para alguns, um; "Aqui Jaz ...
*


...alguém que foi ouvido ou que, em segredo,


Passou sem ser notado e dorme em paz,


Que a morte também cala a voz do medo."
*
***


Maria João Brito de Sousa - 09.02.2021- 13.24h
***


2.
*



"Que a morte também cala a voz do medo"


mas de uma forma digna e muito sã


pois ela é testemunho do segredo


que fez comer Adão uma maçã.
*


Ele não escolheu a eternidade vã


que nos envolveria no enredo


de ter sempre na mão um amanhã


que nunca acabaria muito cedo.
*


Choramos ao nascer. É o sinal


de respirar com o corpo, que é mortal,


mas que tem uma alma consciente...
*


E essa alma renega o que é fatal


e enfrenta a morte como um temporal


que destrói a matéria, não a mente.
*


Laurinda Rodrigues


***


3.
*


"Que destrói a matéria, não a mente"


Qu`inda resiste porque vai criando


Ainda que não saiba como ou quando


O verbo se lhe impõe de forma urgente
*


Que o verbo que me atiça, irreverente,


Passa por mim sem rumo nem comando;


Bicho-do-mato, o mato desbravando,


Sopro de vento ou jorro de nascente...
*


Não há, pra mim, encanto nem feitiço


Que mais me prenda à vida do que a sede


De fruir da palavra e do seu viço.
*


Tal sede é coisa que mais ninguém mede;


É estranho apelo, é bicho que, insubmisso,


Se esconde em lura mas procria em rede.
*



Maria João Brito de Sousa - 09.02.2021 - 17-19h
***


4.
*


"Se esconde em lura mas procria em rede"


juntando, em união, vozes de tantos


que, por ele, estimulados, têm sede


de partilhar, em verso, os seus encantos.
*


É um "bicho insubmisso" que não cede


à dor da solidão, desfeita em prantos,


onde esconde, atrás de uma parede,


o virtuoso inspirador de cantos.
*


Gritos de mágoa, envoltos em modorra,


onde não há um gesto que socorra


essa febre de olhar, de olhos fechados,
*


um mundo onde o verso nunca morra


mesmo que o mal o prenda na masmorra


daqueles que não entendem os seus brados.
*


Laurinda Rodrigues
***


5.
*


"Daqueles que não não entendem os seus brados"


Está bem ciente; próprio é dos humanos


Sobreviver a erro e desenganos,


Seguir somando os passos que são dados
*


Cantando versos inda não cantados,


Aspirando, talvez, a mais uns anos


Sobre jangada tão cheia de danos


Que parece desfeita em mil bocados.
*


Ah, se o verso se perde ou se naufraga,


Se tomba a vela ou se entra em colisão


C´o velho Adamastor da nova vaga...
*


Mas segue em frente, firme no timão;


Falta-lhe em siso o que lhe sobra em garra


E nunca irá mudar de direcção.
*


Maria João Brito de Sousa - 10.02.2021 - 11.30h


***


6.
*


"E nunca irá mudar de direção":


o velho Adamastor espera por ele


pois sendo navegante é seu irmão


mesmo sendo diferente a cor da pele.
*


Vou ao seu lado a esperar que sele


a Cruz de Cristo na minha embarcação


à descoberta de um mundo que revele


que só navega quem tiver paixão.
*


Fica no cais, esperando, a multidão


que espera apenas a desilusão


porque nunca tentaram navegar...
*


Ouço os seus gritos de exortação:


" Queremos comer o doce do teu pão!"


"Voltem para o cais e deixem de sonhar!"
*


Laurinda Rodrigues
***


7.
*


"Voltem para o cais e deixem de sonhar!",


Gritam alguns que o sonho não conhecem;


Não criam, nem o fiam, nem o tecem,


Que nem a todos coube um bom tear...
*


Mas vai-se a barca já fazendo ao mar


E, muito ao longe, as vozes mais parecem


Um marulhar que os sonhos reconhecem


Como sendo o das ondas a chamar.
*


Em simultâneo frágil mas tão forte


Quanto a vontade dos que vão remando,


A barca ruma em direcção ao Norte
*


Com a vontade e o sonho no comando;


Ninguém pode prever a sua sorte,


Ninguém sabe onde aporta, e como ou quando.
*



Maria João Brito de Sousa - 10.02.2021 - 12.59h
***


8.
*


"Ninguém sabe onde aporta e como ou quando",


talvez até se perca no alto-mar.


Mas pouco importa! com o sonho comandando,


podem sorrir ou rir, vamos ficar!
*


Descobrimos canais, sempre esperando


a voz da inspiração feita radar.


Aqui permanecemos, suspeitando


qual é altura certa de aportar.
*


Já gastamos palavras repetidas.


Já contabilizamos muitas vidas


como se fossem peças num armário...
*


Os lamentos e preces concebidas


já não ajudam, chamam recaídas,


porque o medo se esconde no fadário.
*


Laurinda Rodrigues
***


9.
*


"Porque o medo se esconde no fadário"


Dos tempos mais remotos e primeiros,


Os medos mais reais, mais verdadeiros,


Vão muito além do nosso imaginário.
*


Alguns dormem guardados nesse armário


Em que também guardámos os tinteiros


E as brasas que roubámos aos braseiros


De um momento qualquer, mais visionário.
*


Gastas palavras? Sobram-te as ideias


Que em novas frases serão combinadas,


E renovam-se as em teias em cadeias
*


Onde as ideias nascem libertadas;


Assim corre a poesia pelas veias


Das gentes que não murcham confinadas.
*



Maria João Brito de Sousa - 10.02.2021 - 14.35h


***
10.
*


"Das gentes que não murcham confinadas",


porque o tempo da espera as libertou,


renascem as memórias já passadas,


que, agora, a saudade transformou.
*


Vão fazendo dos gestos as pegadas


num espaço resguardado, que as deixou


voar para outro espaço, mesmo atadas


à sua própria sombra que ficou.
*


E correm pelo chão dos aposentos


brincando à solidão e aos tormentos


compostos numa peça teatral...
*


São pedaços de azul de firmamentos


traçados no trajeto de fragmentos


como avatares do Ser Primordial.
*


Laurinda Rodrigues
***


11.
*


"Como avatares do Ser Primordial"


Que convertido em átomos se expande


E do nada que foi se torna grande,


Quem sabe se de forma acidental,
*


Fazendo da palavra o nosso sal,


Não deixamos que nada nos abrande


E pedimos à Musa que comande


Algo que seja mais que ornamental.
*


Tornamo-nos actrizes principais


De uma peça aqui escrita de improviso


Porque os poemas pedem sempre mais
*


E os versos não se esgotam num sorriso;


Toda a paixão exige originais


Do que escrevemos por nos ser preciso.
*


 


Maria João Brito de Sousa - 10.02.2021 - 18.08h


***


12.
*


"Do que escrevemos por nos ser preciso"


já ficámos reféns por livre opção;


por isso o verso cresce de improviso


como se nada fosse inspiração.
*


É uma forma de Ser, onde o juízo


com palavras sensatas é em vão:


se somos avatares do paraíso,


fazemo da loucura o nosso chão.
*


E os dias vão passando, na espiral


dum carrossel de versos, em coral,


num ritmo não esperado, como vento...
*


Crescem bichos no nosso matagal


todos com natureza de um chacal


que faz da nossa carne o alimento.
*


Laurinda Rodrigues
***


13.
*


"Que faz da nossa carne o alimento"


E, ao topo da cadeia alimentar,


Fica quanto soubemos nós caçar


Daquilo que tivémos por sustento
*


Enquanto o predador ganhava alento


Pra dar um salto e nos abocanhar...


Mas não temo chacal que ouse trincar


A carne de um soneto suculento;
*


Antes lhe of`reço um verso, de bandeja,


Para matar-lhe a fome que, bem sei,


Matá-la é tudo aquilo que deseja.
*


Fome igual me compele ao que criei;


Não vou jurar que assim tão igual seja,


Mas ao teu predador já me irmanei.
*



Maria João Brito de Sousa - 10.02.2021 - 19.50h
***


14.
*


"Mas ao teu predador já me irmanei"


porque gosto do cheiro da caçada


e, à presa, que sempre cobicei


deixo que espere, livre e descansada,
*


Para ser um alimento dado a rei


que há muito não comia quase nada


vítima de depressão que enclasurei


como fazendo parte da manada.
*


E, agora, na família dos chacais


seremos só irmãos, filhos e pais


a procurar unidos esse fruto
*


Que vai tornar-nos fortes e fatais


e, mesmo nunca sendo seres iguais,


"às vezes julgo ser tão só produto".
*


Laurinda Rodrigues
***


Ilustração - Gravura de Manuel Ribeiro de Pavia in "Livro de Bordo" de António de Sousa


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 

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