PRAGMATISMO(S) - Coroa de Sonetos - Maria João Brito de Sousa e Laurinda Rodrigues

PRAGMATISMO(S)
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COROA DE SONETOS
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Maria João Brito de Sousa e Laurinda Rodrigues
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1.
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Às vezes julgo ser tão só produto
Duma vontade que transcende a minha,
Mas se vejo crescer, linha após linha,
A força deste sonho por que luto
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Sei ser o sonho o último reduto
De um corpo que envelhece, que definha
E que faz frente ao fim que se avizinha
Fingindo-se invencível, forte e bruto.
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Não me iludo contudo. Isto é fugaz,
Tudo o que nasce, morre tarde ou cedo,
Deixando, para alguns, um; "Aqui Jaz ...
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...alguém que foi ouvido ou que, em segredo,
Passou sem ser notado e dorme em paz,
Que a morte também cala a voz do medo."
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Maria João Brito de Sousa - 09.02.2021- 13.24h
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2.
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"Que a morte também cala a voz do medo"
mas de uma forma digna e muito sã
pois ela é testemunho do segredo
que fez comer Adão uma maçã.
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Ele não escolheu a eternidade vã
que nos envolveria no enredo
de ter sempre na mão um amanhã
que nunca acabaria muito cedo.
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Choramos ao nascer. É o sinal
de respirar com o corpo, que é mortal,
mas que tem uma alma consciente...
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E essa alma renega o que é fatal
e enfrenta a morte como um temporal
que destrói a matéria, não a mente.
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Laurinda Rodrigues
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3.
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"Que destrói a matéria, não a mente"
Qu`inda resiste porque vai criando
Ainda que não saiba como ou quando
O verbo se lhe impõe de forma urgente
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Que o verbo que me atiça, irreverente,
Passa por mim sem rumo nem comando;
Bicho-do-mato, o mato desbravando,
Sopro de vento ou jorro de nascente...
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Não há, pra mim, encanto nem feitiço
Que mais me prenda à vida do que a sede
De fruir da palavra e do seu viço.
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Tal sede é coisa que mais ninguém mede;
É estranho apelo, é bicho que, insubmisso,
Se esconde em lura mas procria em rede.
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Maria João Brito de Sousa - 09.02.2021 - 17-19h
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4.
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"Se esconde em lura mas procria em rede"
juntando, em união, vozes de tantos
que, por ele, estimulados, têm sede
de partilhar, em verso, os seus encantos.
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É um "bicho insubmisso" que não cede
à dor da solidão, desfeita em prantos,
onde esconde, atrás de uma parede,
o virtuoso inspirador de cantos.
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Gritos de mágoa, envoltos em modorra,
onde não há um gesto que socorra
essa febre de olhar, de olhos fechados,
*
um mundo onde o verso nunca morra
mesmo que o mal o prenda na masmorra
daqueles que não entendem os seus brados.
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Laurinda Rodrigues
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5.
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"Daqueles que não não entendem os seus brados"
Está bem ciente; próprio é dos humanos
Sobreviver a erro e desenganos,
Seguir somando os passos que são dados
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Cantando versos inda não cantados,
Aspirando, talvez, a mais uns anos
Sobre jangada tão cheia de danos
Que parece desfeita em mil bocados.
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Ah, se o verso se perde ou se naufraga,
Se tomba a vela ou se entra em colisão
C´o velho Adamastor da nova vaga...
*
Mas segue em frente, firme no timão;
Falta-lhe em siso o que lhe sobra em garra
E nunca irá mudar de direcção.
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Maria João Brito de Sousa - 10.02.2021 - 11.30h
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6.
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"E nunca irá mudar de direção":
o velho Adamastor espera por ele
pois sendo navegante é seu irmão
mesmo sendo diferente a cor da pele.
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Vou ao seu lado a esperar que sele
a Cruz de Cristo na minha embarcação
à descoberta de um mundo que revele
que só navega quem tiver paixão.
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Fica no cais, esperando, a multidão
que espera apenas a desilusão
porque nunca tentaram navegar...
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Ouço os seus gritos de exortação:
" Queremos comer o doce do teu pão!"
"Voltem para o cais e deixem de sonhar!"
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Laurinda Rodrigues
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7.
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"Voltem para o cais e deixem de sonhar!",
Gritam alguns que o sonho não conhecem;
Não criam, nem o fiam, nem o tecem,
Que nem a todos coube um bom tear...
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Mas vai-se a barca já fazendo ao mar
E, muito ao longe, as vozes mais parecem
Um marulhar que os sonhos reconhecem
Como sendo o das ondas a chamar.
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Em simultâneo frágil mas tão forte
Quanto a vontade dos que vão remando,
A barca ruma em direcção ao Norte
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Com a vontade e o sonho no comando;
Ninguém pode prever a sua sorte,
Ninguém sabe onde aporta, e como ou quando.
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Maria João Brito de Sousa - 10.02.2021 - 12.59h
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8.
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"Ninguém sabe onde aporta e como ou quando",
talvez até se perca no alto-mar.
Mas pouco importa! com o sonho comandando,
podem sorrir ou rir, vamos ficar!
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Descobrimos canais, sempre esperando
a voz da inspiração feita radar.
Aqui permanecemos, suspeitando
qual é altura certa de aportar.
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Já gastamos palavras repetidas.
Já contabilizamos muitas vidas
como se fossem peças num armário...
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Os lamentos e preces concebidas
já não ajudam, chamam recaídas,
porque o medo se esconde no fadário.
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Laurinda Rodrigues
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9.
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"Porque o medo se esconde no fadário"
Dos tempos mais remotos e primeiros,
Os medos mais reais, mais verdadeiros,
Vão muito além do nosso imaginário.
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Alguns dormem guardados nesse armário
Em que também guardámos os tinteiros
E as brasas que roubámos aos braseiros
De um momento qualquer, mais visionário.
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Gastas palavras? Sobram-te as ideias
Que em novas frases serão combinadas,
E renovam-se as em teias em cadeias
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Onde as ideias nascem libertadas;
Assim corre a poesia pelas veias
Das gentes que não murcham confinadas.
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Maria João Brito de Sousa - 10.02.2021 - 14.35h
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10.
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"Das gentes que não murcham confinadas",
porque o tempo da espera as libertou,
renascem as memórias já passadas,
que, agora, a saudade transformou.
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Vão fazendo dos gestos as pegadas
num espaço resguardado, que as deixou
voar para outro espaço, mesmo atadas
à sua própria sombra que ficou.
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E correm pelo chão dos aposentos
brincando à solidão e aos tormentos
compostos numa peça teatral...
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São pedaços de azul de firmamentos
traçados no trajeto de fragmentos
como avatares do Ser Primordial.
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Laurinda Rodrigues
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11.
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"Como avatares do Ser Primordial"
Que convertido em átomos se expande
E do nada que foi se torna grande,
Quem sabe se de forma acidental,
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Fazendo da palavra o nosso sal,
Não deixamos que nada nos abrande
E pedimos à Musa que comande
Algo que seja mais que ornamental.
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Tornamo-nos actrizes principais
De uma peça aqui escrita de improviso
Porque os poemas pedem sempre mais
*
E os versos não se esgotam num sorriso;
Toda a paixão exige originais
Do que escrevemos por nos ser preciso.
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Maria João Brito de Sousa - 10.02.2021 - 18.08h
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12.
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"Do que escrevemos por nos ser preciso"
já ficámos reféns por livre opção;
por isso o verso cresce de improviso
como se nada fosse inspiração.
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É uma forma de Ser, onde o juízo
com palavras sensatas é em vão:
se somos avatares do paraíso,
fazemo da loucura o nosso chão.
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E os dias vão passando, na espiral
dum carrossel de versos, em coral,
num ritmo não esperado, como vento...
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Crescem bichos no nosso matagal
todos com natureza de um chacal
que faz da nossa carne o alimento.
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Laurinda Rodrigues
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13.
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"Que faz da nossa carne o alimento"
E, ao topo da cadeia alimentar,
Fica quanto soubemos nós caçar
Daquilo que tivémos por sustento
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Enquanto o predador ganhava alento
Pra dar um salto e nos abocanhar...
Mas não temo chacal que ouse trincar
A carne de um soneto suculento;
*
Antes lhe of`reço um verso, de bandeja,
Para matar-lhe a fome que, bem sei,
Matá-la é tudo aquilo que deseja.
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Fome igual me compele ao que criei;
Não vou jurar que assim tão igual seja,
Mas ao teu predador já me irmanei.
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Maria João Brito de Sousa - 10.02.2021 - 19.50h
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14.
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"Mas ao teu predador já me irmanei"
porque gosto do cheiro da caçada
e, à presa, que sempre cobicei
deixo que espere, livre e descansada,
*
Para ser um alimento dado a rei
que há muito não comia quase nada
vítima de depressão que enclasurei
como fazendo parte da manada.
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E, agora, na família dos chacais
seremos só irmãos, filhos e pais
a procurar unidos esse fruto
*
Que vai tornar-nos fortes e fatais
e, mesmo nunca sendo seres iguais,
"às vezes julgo ser tão só produto".
*
Laurinda Rodrigues
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Ilustração - Gravura de Manuel Ribeiro de Pavia in "Livro de Bordo" de António de Sousa
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