"WHERE THE WILD ROSES BLOOM" - Maria João Brito de Sousa e Laurinda Rodrigues

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"WHERE THE WILD ROSES BLOOM"
***


COROA DE SONETOS
*


Maria João Brito de Sousa e Laurinda Rodrigues
***


1.
*



Nesta minh`alma, presa por um fio,


Tremeluz uma lágrima que insiste


Em dominar a dor a que resiste


Em vez de, solta, transformar-se em rio.
*



A sua teima, mais que um desvario,


É luta de que a alma não desiste,


E se é certo que a dor em mim persiste,


Mais certo é que eu lhe ganhe o desafio
*



Pois do mar que chorei em tempos idos


Por mágoas que nem dei a conhecer,


Nasceram-me, cá dentro, rios traídos
*



Que desaguaram antes de irromper


Criando um mar de versos (in)contidos


Ao qual, sempre que sofra, irei beber.
*


 


Maria João Brito de Sousa - 18.02.2021 - 17.35h
***


2.
*


"Ao qual, sempre que sofra, irei beber"


serenamente, como fora ópio


que, por entre essas mágoas, vai tecer


formas vibrantes em caleidoscópio.
*


E ninguém diga que amar é sofrer


porque o sofrer de amor é sempre próprio:


faz angústia e ansiedade, faz doer,


que nos desvenda como em microscópio.
*


Vamos negando a razão de ser


de tanto sofrimento do momento


e fazemos de tudo para esquecer...
*



Só que essa dor vem do nascimento


e irá ser companhia até morrer


quer seja aragem leve ou rude vento.
*


Laurinda Rodrigues
***


3.
*


"Quer seja aragem leve ou rude vento"


O que ameaça quem de nós nasceu,


Ameaça também o nosso "eu"


Que, ainda que distante, fica atento
*


A cada sopro e a cada movimento


De quem está a sofrer ou já sofreu


Pois, no segundo em que isso aconteceu,


Cerraram-se-me as asas do talento.
*



Assim fiquei numa tensão de espera


Que os poemas me ensinaram a gerir


Com a perseverança de uma hera
*


Que espera alguma impede de subir


A parede mais nua e se supera


Na própria dor que a esteja a consumir.
*


 


Maria João Brito de Sousa - 19.02.2021 - 13.22h


***


4.
*


"Na própria dor que a esteja a consumir"


encontrou o sentido da existência


porque, mesmo em período de carência,


de algum lado abundância há-de surgir.
*


Não permitindo ao corpo reagir


é o medo, crescendo com premência


que transforma em estado de latência,


a coragem de ser e de existir.
*


E todos vão esperando um novo dia


quando, afinal, o sol há-de surgir


num espetáculo de luz e de alegria,
*


Se o nosso olhar não recusar sorrir


e, dando uns aos outros a poesia,


damos abraços que a hera há-de cobrir.
*


Laurinda Rodrigues
***


4.
*


"Na própria dor que a esteja a consumir"


encontrou o sentido da existência


porque, mesmo em período de carência,


de algum lado abundância há-de surgir.
*


Não permitindo ao corpo reagir


é o medo, crescendo com premência


que transforma em estado de latência,


a coragem de ser e de existir.
*


E todos vão esperando um novo dia


quando, afinal, o sol há-de surgir


num espetáculo de luz e de alegria,
*


se o nosso olhar não recusar sorrir


e, dando uns aos outros a poesia,


damos abraços que a hera há-de cobrir.
*


Laurinda Rodrigues
***


5.
*


"Damos abraços que a hera há-de cobrir",


Sobrevivemos a todas as dores


E vamos dando o melhor dos melhores


De tudo o que façamos ressurgir
*


De um mundo que parece qu`rer ruir


Sob o domínio dos novos temores


E que solta os gemidos e estertores


Dos que estão quase, quase a desistir.
*



Dos destroços, contudo, irrompe a vida


Porque a vida abomina a rendição


E sempre que parece estar vencida
*



Encontra forma de mostrar que não,


Que apenas se calara confundida,


Que segue ainda o rumo evolução.
*


Maria João Brito de Sousa - 19.02.2021 -17.45h
***


6.
*


"Que segue ainda o rumo evolução"


mesmo que não se note, por temor


desse desconhecido que dá dor


mas é a terra inteira em convulsão.


*


Ela emitira há muito a prevenção...


Fomos traídos p'la força do pavor


e, querendo ainda evocar o amor,


ficamos esmagados sem perdão.


*


Oh liberdade de ser e de criar!


Agora és planta seca e espezinhada...


Onde escondeste a força do teu ar?
*


Ouvi gemidos quando ia cantar


Já não há alegria nesta estrada...


Ajoelho na terra e vou rezar.
*


Laurinda Rodrigues
***


7.
*


"Ajoelho na terra e vou rezar"


Um verso que me chega libertado


Pois nunca tem presente, nem passado


Que nunca sei quando me irá chegar.
*


Nisto consiste o acto de criar


Que, não sabendo o que irá ser criado,


Quanto mais solto, mais harmonizado


E mais seguro de se propagar.
*


É rebelde insubmisso mas confia,


O verso, nessa força que o conduz


Como vento que sopra e que assobia;
*


Subverte a escuridão e faz-se luz


Nas malhas do momento em que se fia


Ou, no pior dos casos, se traduz.
*



Maria João Brito de Sousa - 20.02.2021 - 13.04h


***


8.
*


"Ou, no pior dos casos, se traduz"


não sei em que linguagem inventada...


Sei, apenas, que a hora da chegada


servirá às palavras que a traduz.
*


Porque a hora chegada tem a cruz


pendurada no teto da entrada


e tu olhas para ela fascinada


e escreves o poema que a seduz.
*


Vens à procura de encontrar permutas


de outros e outras almas resolutas


que insistem em criar dia após dia...
*


E sendo esses encontros que desfrutas


companheiros de tal e tantas lutas


aqui deixo o meu sonho como guia.
*


Laurinda Rodrigues
***


9.
*


"Aqui deixo o meu sonho como guia"


Ou companheiro cândido e leal


Do que nos nasce do sal que há no sal


Do mais íntimo sal que em nós havia.
*


Assim vamos somando, em sincronia,


Um verso quase sempre acidental


A outro que é também original


E dá continuidade à sinfonia.
*



Porque a Arte é pilar fundamental


E grande parte dela é poesia,


Nela encontramos sempre um ideal
*



Ao qual juntamos sonho e fantasia;


Então, sem iludirmos o real,


Podemos dar-lhe uns toques de magia...
*



Maria João Brito de Sousa - 20.02.2021 - 17.12h


***


10.
*


"Podemos dar-lhe uns toques de magia"


num circo onde seremos aprendizes:


tu e eu treinando como atrizes


de equilibristas em grande fantasia.
*



As bancadas do povo que assistia


eram, do nosso circo, as bissetrizes


feitas de troncos de árvores e raízes,


que a luz da inspiração as imergia.
*



Às vezes com aplausos, outras não,


no silêncio da voz ou na paixão,


criar seja o que for é uma virtude...
*



Mas, se deixamos vir a solidão,


correremos o risco da ilusão


de nos vermos caídos num talude.
*


Laurinda Rodrigues
***


11.
*


"De nos vermos caídos num talude",


Tal como os que, vivendo acompanhados,


Se vêem pela morte separados,


Ainda que homogéneos como grude...
*



A solidão dos poetas é virtude;


Conquistam-na e não querem ser privados


Das asas solidárias dos seus fados,


Quer gozem, quer não gozem de saúde.
*



Confundes solidão com abandono


E há um abismo entre esses dois conceitos;


Um faz sonhar, o outro rouba o sono
*



E é o carrasco-mor dos seus "eleitos"


Quando assume o poder e sobe ao trono


Da bárbara crueza dos seus feitos.
*


 


Maria João Brito de Sousa - 21.02.2021 - 12.17h


***


12.
*


"Da bárbara crueza dos seus feitos"


irá nascer, no tempo, a agonia


de os carrascos sentirem, dia-a-dia,


o remorso a que estarão sujeitos.
*


Então a solidão cresce nos leitos


onde a alma habita tão vazia


com o abandono feito a uma cria


que precisava tanto dos seus peitos.


*


Mistura-se abandono e solidão


na teia do sentir do coração


onde ambos fazem ninho pouco a pouco...


*


E, um dia, sem notar, nasce a ilusão


de poder ter da cria o seu perdão


p'ra que o carrasco não acabe louco.
*



Laurinda Rodrigues
*
***


13.
*


"Pra que o carrasco não acabe louco"?


Porquê, se bem merece esse castigo?


Terás compreendido o que aqui digo,


Se digo que o castigo é muito pouco?
*



"Conceitos", disse, e não me deste troco...


Casos particulares não são comigo;


Não penso misturar joio com trigo,


Nem Neo-realismo com Barroco,
*


Por isso demonstrei, por A mais B,


Que a solidão dos férteis dá mais frutos,


E de afectos sinceros não descrê,
*



Mas descrê, sim, e em termos absolutos,


Dos que abandonam, sem explicar porquê,


Novos ou velhos, sensíveis ou brutos.
*



Maria João Brito de Sousa - 21.02.2021 - 16.59h


***


14.
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"Novos ou velhos, sensíveis ou brutos"


todos nós já sofremos abandono


mas sem mostrar fraqueza a esse dono


vamos tentar esquecê-lo, resolutos.
*



Pensamos ficar livres mas, sem lutos,


vamos perdendo horas desse sono


que é preciso para libertar o mono


feito de raivas que já não dão frutos.
*



Mas, ao falar com alguém que saiba amar,


pode ser que retorne, em nós, o olhar


que tenha a suavidade como um rio
*



que caminha tranquilo para o mar


guardando na memória o que pesar


"nesta minh'alma, presa por fio".
*


 


Laurinda Rodrigues
***


 


 


 


 


 


 


*


 


 

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