PASSA A ÁGUA - Coroa de Sonetos

passa a água.jpg


PASSA A ÁGUA


*
Coroa de Sonetos
*


Custódio Montes e Maria João Brito de Sousa


1.


*
Nas pedras passa a água a correr


Eu olho para ela devagar


Há gente junto ao rio a passear


Daqui sobre a ponte estou a ver
*



Nas margens há um verde a aparecer


Junto a uma casa um pomar


Com flores bem bonitas a brotar


Um branco um cor de rosa ...que prazer
*


Às vezes aparece um paraíso


Uma flor, uma imagem, um sorriso


Que dá tanto prazer e alegria.
*


Que a gente esquece a dor que às vezes sente


Remoça por momentos de repente


E vê em cada coisa poesia
*


Custódio Montes
*
13.3.2021
*


2.


*
"E vê em cada coisa poesia"


E sente em cada pedra em que se sente


Um coração pulsar pausadamente,


Tal qual vivesse a pedra, por magia...
*



Passa a água entoando a melodia


De um tema já esquecido mas presente


E passa a melodia pela gente


Como uma suave mão que acaricia...
*


 


Lá, nesse paraíso que descreve


Como se fosse mais que um sonho breve,


O dia pára tonto, embevecido,
*


 


E de um segundo faz-se eternidade;


Onde se erga esse templo sem idade,


Ajoelha-se o Tempo, a nós rendido.
*


 


Maria João Brito de Sousa - 14.03.2021 - 00.00h


*


3.
*


“Ajoelha-se o Tempo, a nós rendido”


Com cores, movimentos, um bailar


Da natureza em festa e o nosso olhar


Alegre e a sentir-se envaidecido
*


O rio transparente e agradecido


Entoa uma canção e esse cantar


Afaga as suas margens ao passar


Realça mais o verde colorido
*


A alma engrandece de alegria


À volta tudo encanta e a poesia


Envolve o nosso olhar e o nosso ser
*


Parece até mudarem-se os papéis


Em festa a natureza, nós os reis


Aos pés o nosso reino a agradecer
*


Custódio Montes


(14.3.2021)
*


4.
*


"Aos pés o nosso reino a agradecer"


Enquanto nós, rendidos, nos prostramos


Sabendo bem que jamais fomos amos


Nem mesmo do poema que nascer
*



Pois talvez o fiquemos a dever


À natureza que aqui contemplamos


Já que somos irmãos da flor, dos ramos


E amados filhos da raiz do Ser...
*



Seremos tudo e nada, por momentos;


Símbolos pontuais dos elementos,


Feitos de carne e osso e sonho e espanto
*



Qu` embalados pl`a musa dos sentidos,


Aos poucos vamos sendo convertidos


À adoração do seu perfeito manto.
*



Maria João Brito de Sousa - 14.03.2021 - 09.43h


***


5.
*


“À adoração do seu perfeito manto”


Que andamos neste tempo a contemplar


O sol a flor a água a marulhar


E tudo ao redor que é um encanto
*


O monte a engalanar-se e em cada canto


Sentimos alegria a germinar


Connosco a natureza par a par


Irmã ao pé de mim que amo tanto
*


Às vezes imagina que a beleza


Rodeia o nosso corpo e a natureza


É nossa mãe e em si nos faz nascer
*


E penso que sou árvore a sair


Lá das suas entranhas e a sorrir


Com a eternidade a acontecer
*


Custódio Montes


(14.3.2021)
***


6.
*


"Com a eternidade a acontecer"


Ali ficamos nós, meros mortais,


Sincronizados átomos, banais


Formulações da vida quando quer
*



Moldar-se em homem, esculpir-se em mulher


Pra com eles ascender aos ideias,


Pois tanto pode a Vida e muito mais


Que o pouco que julgamos, nós, saber...
*



Passa a água nas pedras do ribeiro;


Foi ela o nosso berço, o som primeiro,


Que se foi replicando em força e vida.
*



Tudo vem de uma eterna construção;


Mesmo a poesia é pura evolução


Multiplicada, enquanto dividida...
*



Maria João Brito de Sousa - 14.03.2021 - 11.11h
***


7.
*


“Multiplicada, enquanto dividida


Mas num élan maior se conjugada


A vida é bela então se irmanada


Que sem conjugação é mal vivida
*


O amor bem como a luta sempre erguida


Em prol da natureza tão amada


Aumenta o amor da gente nesta estrada


Agreste mas também muito florida
*


Irmã é sempre irmã para beijar


E para ter connosco e acompanhar


A cada tempo e hora com magia
*


A irmandade chega à natureza


Afagamos-lhe a alma e a beleza


E juntos lhe cantamos poesia
*


Custódio Montes


(14.3.2022)
***


8.
*


"E juntos lhe cantamos poesia"


Já que por ela fomos concebidos


E dela somos frutos prometidos


Ao compromisso de quem gesta e cria.
*



Passaremos, também, num qualquer dia,


Mas teremos, então, sido cumpridos


Não só no palco fértil dos sentidos,


Mas também nestes vôos da harmonia
*



Quando, em poemas vindos das entranhas,


Subimos montes, escalamos montanhas,


Numa vertigem que nos liga ao todo
*



E não paramos nem pra descansar;


Só na vertigem podemos criar


Pois não sabemos ser de um outro modo
*



Maria João Brito de Sousa - 14.03.2021 - 12.30h
***


9.
*


“Pois não sabemos ser de outro modo”


Que somos o que somos nada mais


Sem termos preconceitos doutorais


E sem pensar que o mundo é nosso todo
*


E deste pensamento à volta rodo


E não avanço aqui nada demais


A gente nunca deve ser jamais


Aquilo que não é nem mesmo engodo
*


Mas ter um sentimento uma paixão


É a forma de mostrarmos gratidão


Que nessa humildade há só grandeza
*


E nada é demais ver e louvar


A alegria de estarmos a cantar


A vida que nos dá a natureza
*


Custódio Montes
*


(14.3.2021)
***


10.
*


"A vida que nos dá a natureza"


Concede-nos paixão, mas não poder


Que esse não sabe nem pode entender


O quanto nos fascina essa beleza
*



Da ribeira que ri e chora e reza


Mas que não pára nunca de correr


Até chegar à foz e se render


Ao grande mar que a espera sem surpresa.
*



Dessa mesma humildade somos feitos


(embora alguns possam julgar-se eleitos)


Pois bem sabemos; tudo tem um fim
*



Mas a paixão, se mal compreendida,


Pode passar por ser intrometida,


Vaidosa, egocentrada... ou coisa assim....
*



Maria João Brito de Sousa - 14.03.2021 - 14.08h
***


11


“Vaidosa, egocêntrica...ou coisa assim”


Mas esta natureza que se canta


Com a paixão que sempre nos encanta


Não pensa desse modo tão ruim
*


Ao cantar-lhe a beleza até ao fim


Não nos pode acusar de forma tanta


Que nos deixe ficar pela garganta


O canto que há nas rosas dum jardim
*


A paixão que mostramos desta forma


É o modo como a gente assim a informa


De como nós gostamos tanto dela
*


Não é intromissão é modo de arte


Para cantá-la assim por toda a parte


Fazendo ressaltar como ela é bela
*


Custódio Montes


(14.3.2021)
*


12.


*


"Fazendo ressaltar como ela é bela"


E como dela nós fazemos parte,


Receio que me falte "engenho e arte"


Pra descrever os mil encantos dela
*


E, ou exagero, ou calo-me, à cautela...


Soubesse eu, natureza, aqui explicar-te


Como é que me é possível tanto amar-te


Sem poder retratar-te sobre tela,
*


Sem jamais ter tentado, no passado,


Reproduzir em tela um rio, um prado,


Ou as plantas que são minhas irmãs...
*



Mas os teus filhos, homens e mulheres,


Pintei como quem pinta mal-me-queres


Sob um sol que se enchia de amanhãs...
*



Maria João Brito de Sousa - 14.03.2021 - 15.40h


***


13
*


“Sob um sol que se enchia de amanhãs”


E ao cantar dessa forma, de certeza


Que o seu canto provém da natureza


E das flores que são nossas irmãs
*


Atrai, a natureza, como imãs


Que atiram para longe esta pobreza


Que rodeia o humano; e a nobreza


Faz-nos fortes, assim como titãs
*


Hoje cantou o rio e a sua água


E foi um dia inteiro sem ter mágoa


Contente e toda cheia de mestria
*


Não seja, minha amiga, tão modesta


Que pôs a natureza toda em festa


E a nós todos bem cheios de alegria
*


Custódio Montez


(14.3.2021)
***


14.
*


"E a nós todos bem cheios de alegria"


Por tão extrema beleza termos visto,


Ou mesmo imaginado. Até do xisto


Brota uma áspera torga, em rebeldia...
*



Rude mas bela, é pura sinfonia


Doce e selvagem em estranho registo;


Quando nela me (a)fundo, não existo,


Não sou nada onde tudo é sinergia!
*



A montanha escarpada, o vale escondido,


A brisa que sussurra ao meu ouvido


Segredos que não mais irei esquecer
*



E enquanto as aves sob o manto azul


Adiam a partida rumo ao Sul,


"Nas pedras passa a água a correr"
*


 


Maria João Brito de Sousa - 14.03.2021 - 17.20h



***


 

Comentários

  1. Como já comentei no HP.... não se pode parar para fazer anos. Vocês inventam logo uma coroa..ehehehe... São demais.
    Beijinhos aos dois.♥️

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Rsrsrsrs... somos todos muito trabalhadores , mas eu tenho cá para mim que o Custódio Montes anda a tomar uma vitaminas bem fortes...

      Mal acabei esta Coroa tecida em tempo record, adormeci que nem uma pedra, de tão cansada que fiquei, rsrsrs
      Pela minha parte, muito obrigada, MEA.

      Outro bjo gde

      Eliminar
  2. Parabéns a ambos, está magnífico!
    Um dia feliz

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Muito obrigada, A.L., pela parte que me cabe nesta Coroa de Sonetos

      Vou visitá-la num pulinho porque já estou a trabalhar noutra :)

      Dia feliz

      Eliminar
  3. Gostei muito desta coroa. A água tão purificadora, as pedras que deixam passar a luz de uma forma tão bela. Sonetos a lembrarem-nos que sempre chegamos à água pelos caminhos da sede.
    Parabéns aos dois.
    Uma boa semana com muita saúde.
    Um beijo.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Longos são e sempre irresistíveis, os caminhos da sede, Graça.

      Muito lhe agradeço pelo que cabe à minha metade desta coroa construída à velocidade da luz.

      Um beijo

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  4. «Seremos tudo e nada, por momentos;
    Símbolos pontuais dos elementos,
    Feitos de carne e osso e sonho e espanto»

    É assim que me vejo
    Quando me olho ao espelho
    E disso me envaideço

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    Respostas
    1. E eu muito me alegro por assim te reveres, Rogério!

      Abraço grande

      Eliminar
  5. Boa desgarrada erudita

    Bom e belo dia pra vocês
    bom dia com alegria e saúde
    e nada de festanças
    antes que o covid agude '_~`)

    Beijinhos

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    Respostas
    1. Olá, Anjo!

      Festanças das boas, para mim, são estas conversas em soneto

      Já que mal me posso mexer, por que não aproveitar ao máximo aquilo que ainda posso fazer bem?

      Obrigada pela parte que me cabe!

      Beijinhos

      Eliminar
  6. Maria João,
    diga-me como conseguem esta ligação poética tão profunda, imagino o tempo que demora, e como devem ficar esgotados, mas felizes

    "Mesmo a poesia é pura evolução
    Multiplicada, enquanto dividida...

    Um beijinho

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Ah, Blue Bird, a poesia faz "milagres" e cria laços fortíssimos entre os poetas

      È bem verdade que cheguei ao final desta coroa escrita à velocidade da luz, feliz e tão exausta que adormeci que nem uma pedra assim que acabei de a editar

      E, sim, a poesia multiplica-se sempre que se divide (partilha)

      Pela parte que me cabe, muito obrigada.

      Outro beijinho, ainda

      Eliminar

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