CADA POEMA

o parto da viola - amadeo sousa cardoso.jpeg


CADA POEMA


* 


Cada poema
Tem asas de papel nascendo incertas
Como velas rumando à descoberta
Da Ilha de S. Nunca da partida


*

Quando ressurge
Muito embora vencido é temerário
Como a luta tenaz de cada operário
Que aspira à igualdade prometida


*

Onde um termina
Começa um outro verso inevitável
Cada um deles gerando um infindável
Rosário de memórias de uma vida


*

Cada poema
Tem alma de mulher, corpo de chama
De onde irrompe uma voz que então proclama
O culminar da luz na pele rendida


*

Cada poema
É raiva, urgência, amor,
Silêncio, grito e voz da mesma dor
Numa explosão domada ou incontida


*

Cada poema
É mais do que uma inércia ou um transporte,
É eixo, é a matriz deste suporte
Das minhas transgressões de fera ferida


*

Cada poema
Tem sempre a dimensão de um corpo estranho,
Imensurável, pois não tem tamanho,
Porta-voz de uma força indesmentida


*

Quando ressurge
Muito embora vencido é temerário
Como a luta tenaz de cada operário
Que aspira à igualdade prometida


*

Onde um termina
Começa um novo verso inevitável,
Cada um deles gerando um infindável
Rosário de memórias de uma vida.


*


 


 




Maria João Brito de Sousa – 16.09.2010 – 14.38h


 


 Parto da Viola, Amadeo de Souza-Cardoso

Comentários

  1. Maria João,
    Cada verso deste seu poema, é VIDA !!!
    Perfeita a escolha da tela sensorial de Amadeo de Souza-Cardoso.

    Um beijinho

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    Respostas
    1. Mais uma vez, muito obrigada, Blue Bird

      Só agora reparei que data de 2010, este poema... o tempo voa

      Um beijinho

      Eliminar
  2. E que bonito rosário que leio

    Bom fim de Semana de Páscoa com alegria MJ

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Ai, Anjo...

      Vai ser um fim de semana sem Musa, porque não há meio de descobrir onde a inspiração se me escondeu...
      Pode ser que apareça a qualquer momento, mas duvido. A manhosa costuma evaporar-se muito bem evaporada sempre que estou com os olhos a arder e muito inchados, que é o caso...

      Beijinhos e boa Páscoa

      Eliminar
  3. Brancas nuvens negras3 de abril de 2021 às 00:59

    Cada poema é o acto de inspirar para poder expirar.
    Um poema com conteúdo para além da beleza.
    Um abraço
    L

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Obrigada, L.

      O dia de hoje está a ser muito singular, para mim. E tudo por causa de uma insónia, de um telefonema e de uma curiosíssima coincidência. Sim, claro que acredito em coincidências, essas coisas que são fruto de uma longa, complexa e sofisticadíssima sequência de relações causa/efeito :)

      Forte abraço

      Eliminar

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