É DAQUI QUE TE ESCREVO

cravo de Abril.jpg


É DAQUI QUE TE ESCREVO


*


 


É daqui que te escrevo,


desta vontade que me veste de Abril


de poemas e de trapos, também


 *


Daqui,


de onde me reconheço em ti espelhada


embora o perfil simples do meu cravo


sem nome nem espinhos


e


tão menos glorioso


pareça vergar-se a cada verso que canta


*


 


Mas é daqui,


deste lado aguerrido de mim


onde vestida de um Abril em farrapos


não dispo Abril


apesar do despontar


duma resistência que te não sei explicar


mas presumo que


ninguém imaginaria florescendo ainda


*


 


Daqui,


de onde também eu


aprendi a amar a solidão


e


a recriar o mundo


na sombra da ausência


dos anos – tantos… -  do verde caule


de um mesmo sonho de pétalas ao rubro


*


Daqui


e


porque o poema me apetece


insurrecto e vermelho


este escrever-te


sem rima nem medo


com as armas florindo num canto maior


 *


 


Maria João Brito de Sousa – 19.06.2011 – 16.31h


*


 A um camarada que ainda estava entre nós 


no ano de 2011

Comentários

  1. E continua sempre a escrever, minha amiga, a tua escrita ilumina o dia e inspira-nos! A foto de hoje foi muito bem escolhida! Um abraço de anizade, e desde já, uma boa Páscoa, com muita tranquilidade🌷🌻

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    1. Obrigada e que tenhas uma serena e doce Páscoa, Sandra!

      Beijinho grande

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  2. Brancas nuvens negras1 de abril de 2021 às 12:22

    Quando dizemos, ou ouvimos dizer Abril, de imediato uma ideia floresce em nós.
    Um abraço
    L

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    1. Não poderia estar mais de acordo consigo, L.

      De tal forma as nossas memórias são fortes, ricas e marcantes que, mesmo mais adoentada do que o habitual, toda eu refloresço assim que nasce Abril...

      Forte abraço

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  3. Olá, de um ilustre desconhecido. Que feliz fico por ver que há, ainda, quem mantenha a chama de Abril 25 e o que daí se seguiu. Eu estou mais ceptico, talvez mais anos de desilusões, ou mais pessimismo que a idade arrasta.
    .
    Lembro-me dessa manhã clara,
    de sol sorridente ao nascer.
    Lembro-me dessa manhã clara
    Que com muitas dúvidas me acordou.
    A minha alma só sossegou,
    Com Grândola Vila Morena,
    Com a Liberdade está a passar por aqui,
    E a música de Semana Santa,
    Não acompanhou os militares
    Na avenida da Liberdade.
    Lembro-me,
    Quando alguém,
    Com muita responsabilidade e treta
    Sem mais nem menos
    Meteu o socialismo na gaveta.
    Lembro-me
    De uma AD
    Que sem dizer ao que vinha claramente
    Queria controlar
    Um Parlamento,
    Um Governo,
    Um presidente.
    Lembro-me,
    Quando um governo
    Desrespeitando de Abril a semente,
    Foi para uma guerra Colonial,
    No Kosovo,
    Por conta de outrem.
    Lembro-me
    De sucessivos governos,
    Que a troco de alguns milhões,
    Venderam este povo,
    Como quem vende mexilhões.
    Assim com estas tropelias
    Que nos resta daquele sonhador Abril?
    Os cravos secaram
    Abandonados à sua sorte.
    O seu aroma perdeu-se
    No Kosovo
    Com o fedor da morte.
    Agora só com um esforço enorme
    Continuo a acreditar num Abril,
    Não no que foi,
    Mas num outro que havemos de construir.

    Zé Onofre





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    1. Bem-vindo, ilustre desconhecido Zé Onofre.

      De tudo, tudo isso me recordo também e só não lhe garantirei que maiores ainda foram as desilusões que vivi, porque nunca houve quem medisse o tamanho às ilusões.

      Da mesma forma que nunca esquecerei o camarada que em 2011 me suscitou este poema e que há muito deixou de estar entre nós, não me é possível esquecer aquele 25 de Abril de 1974.

      Claro que também vi muitos cravos murcharem, mas posso garantir-lhe que o meu se mantém bem vivo, vermelho e florido. Eu é que murchei fisicamente. Os meus ideais nunca murcharam.

      Fala-me de um Abril novo, ainda por construir. E desde quando esta semente/recordação de Abril é obstáculo a essa reconstrução?

      Obrigada pela sua visita e pelas suas palavras.

      Abraço

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  4. Recordar
    é bom
    saudade é relembrar

    Beijinhos e um belo dia aconchegado MJ

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    Respostas
    1. É uma recordação antiga, Anjo, mas seria muito difícil recordar coisas que ainda não aconteceram

      Que tenhas um restinho de dia muito feliz

      Beijinhos

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  5. Daqui te leio
    e me comovo

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  6. Bom fim de Semana de Páscoa
    bom dia com alegria
    e cuidado com as amêndoas saborosas
    beijinhos.

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    Respostas
    1. Bom dia e boa Páscoa também para ti, Anjo!

      Não tenho em casa nem uma amêndoazinha.
      Estou a engordar muito e isso é péssimo para quem é muito cardíaco...

      Vou ficar-me pelas amêndoas virtuais, rsrsrs

      Beijinhos

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  7. Maria Elvira Carvalho2 de abril de 2021 às 09:40

    Um belo e comovente poema. Quando chega Abril sempre renovamos esperanças e sonhos que tardam em se concretizar.
    Votos de boa Páscoa
    Abraço e saúde

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    Respostas
    1. Muito obrigada, Elvira.

      A propósito de renovação, recordo-me que foi exactamente em Abril de 2007 que me apaixonei pelo soneto...

      Boa Páscoa e um forte abraço, amiga

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  8. Maria João, este poema foi escrito com a emoção de quem o viveu por inteiro. Ninguém que o lê, pode ficar indiferente.
    Nasci em Abril e em Abril me apaixonei pela primeira vez. Descobri o significado da liberdade com o 25 de Abril, portanto trago sempre Abril no coração.
    Um curiosidade o meu sobrenome é Páscoa, portanto vivo-a o ano inteiro.

    Um beijinho e uma Páscoa com a melhor saúde possível .

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    Respostas
    1. Curiosamente, foi também em Abril (no de 2007) que me apaixonei pelo soneto, Blue Bird

      Sei que o SARS-CoV-2 nos traz presos a uma trela muito curtinha, mas que tenha, então, uma feliz Páscoa, agora e todos os dias de todos os anos.

      Muito obrigada e um beijinho

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  9. Lindíssimo, como são todos os seus poemas, seja qual a forma ou o conteúdo.
    Beijinho grande ❤️

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