SINESTESIA(S) II - Coroa de Sonetos - Maria João Brito de Sousa e Custódio Montes

SINESTESIA(S) II
*
Coroa de Sonetos
*
Maria João Brito de Sousa e Custódio Montes
1.
*
Vem desvendar-me a cor destes sentidos,
Deslinda-me o compasso em descompasso,
Pressente os dedos hábeis e compridos
Das mais simples palavras que aqui traço...
*
Em ti, mesmo que apenas pressentidos,
Terão a dimensão do mesmo abraço
Com que, letra por letra concebidos,
Magicamente, ou não, se abrem num laço...
*
Ah, soubesse eu que podes decifrar-me
E que, por cada letra que te estendo,
Te aponto mil razões pra adivinhar-me,
*
Ou que pudesses ver, no que desvendo,
A cor dos sons que entendem visitar-me
Na paleta do verbo em que me acendo...
*
Maria João Brito de Sousa - Março, 2016
In A Ceia do Poeta - (inédito)
***
2.
*
“Na paleta do verbo em que me acendo...”
Escrevo a tinta azul como convém
Misturo o vermelho e também
As cores que me chegam e vou vendo
*
Depois à claridade vou cedendo
Em tons que vejo e apanho nesse além
Provindo do horizonte e que me vem
Das imagens que chegam e vou lendo
*
Palavras que componho em harmonia
Com tudo o que me vai no coração
À paleta dou luz, sinestesia
*
Envolta numa troca de oração
Tentando que esta minha poesia
Não me fuja nem entre em contramão
*
Custódio Montes
20.42021
***
3.
*
"Não me fuja nem entre em contramão"
Verso que das entranhas me nasceu,
Tal como das entranhas nasci eu,
De minha mãe, depois da gestação...
*
Há sempre um tom escondido na canção
Que a paleta dos versos prometeu
E canta cada cor que se escondeu
Na palma agora aberta desta mão.
*
As letras são pequenas criaturas
Que se juntam em grupos coloridos
Para formar orquestras e pinturas
*
Que são captadas pelos meus sentidos
E que ao som de invisíveis partituras
Subvertem mil princípios estatuídos.
*
Maria João Brito de Sousa - 20.04.2021 - 17.33h
***
4.
*
“Subvertem mil princípios estatuídos.”
Mas sem essas palavras que seria
Nada mais que um montão, cacofonia
Sem grandes pensamentos construídos
*
Agrupadas em tons bem coloridos
As palavras contêm a melodia
Que ouvimos e nos trazem alegria
Mantendo-nos no sonho embevecidos
*
As letras são as cores das palavras
Que enfeitam a conversa e a nossa vida
São sementes que crescem entre as lavras
*
Pintada a palavra é colorida
Nunca deteriora ou escalavra
O tema (em) que, com cor, fica inserida
*
Custódio Montes
20.4.2021
***
5.
*
"O tema (em) que, com cor, fica inserida"
Transmuta-se em cenário ou em paisagem
E faz, cada palavra, uma viagem
Em direcção à terra prometida
*
Que é um soneto quando ganha vida
E, embora formal, vibra selvagem,
Metade som e outra metade imagem
Numa duplicidade garantida...
*
Minh` âncora é também isto que faço
E a minha barca, que nasceu comigo,
Faz-se num dia ao mar e noutro ao espaço
*
Sem ter destino nem porto de abrigo;
Mil sensações nascendo em cada traço
E esta semi-cegueira - o meu castigo!
*
Maria João Brito de Sousa - 20.04.2021 - 18.49h
***
6.
*
“E esta semi-cegueira - o meu castigo”
Mas eu nessa cegueira vejo luz
E ao ver tudo tão claro isso seduz
E corro sem saber se o consigo
*
Mas se falhar, amiga, é cá comigo
Porque esta desgarrada que propus
A novas árias lindas me conduz
E corro indiferente no perigo
*
O jogo das palavras traz encanto
Alumia a candeia ao pensamento
E ao vir a ideia então eu me levanto
*
Afasto as amarguras e o tormento
E fico tão contente no meu canto
Que sou muito feliz nesse momento
*
Custódio Montes
***
7.
*
"Que sou muito feliz nesse momento"
Em que o verso me nasce e, sem travões,
Bem mais depressa voa que os tufões
Não causando, contudo, sofrimento
*
Que o verso é sábio, mago e tem talento;
Por tudo e nada se exalta em paixões
E arrebata os nossos corações
(embora o meu já esteja sonolento...)
*
Como é dif`rente escrever devagar
De escrever a galope, à rédea solta...
Amanhã voltarei a galopar!
*
Sumiu-se-me a visão. Hoje não volta,
Mas amanhã, assim que eu acordar,
Renascerá, embora em névoa envolta!
*
Maria João Brito de Sousa - 20.04.2021 - 21.05h
***
8.
*
“Renascerá, embora em névoa envolta!”
Às vezes com um olho é-se rei
E mesmo assim governa ele a grei
E anda toda a gente à sua volta
*
A palavra é assim e anda à solta
Mas ordenada bem como é de lei
É monumento em si como logrei
Ver na forma tão bela como a escolta
*
Queixume muitas vezes é a mais
A névoa não impede o seu valor
A palavra consigo tem ramais
*
Que expressam pensamentos com fulgor
Em poemas que são monumentais
Em tudo que lhes dá com tanto amor
*
Custódio Montes
20.4.2021
***
9.
*
"Em tudo que lhes dá com tanto amor",
E em dobro cada verso lhe devolve
Quando em doçura infinda se dissolve
No poema a que empresta o seu sabor.
*
Queixume? Não, pois não cedi à dor,
Cedi a uma névoa que me envolve
Quando nem mesmo o esforço me resolve
Esta impotência que já sei de cor...
*
Por tempo limitado sei vencê-la
Juntando as letras, em vez de soltá-las,
Mas quando a noite chega, ganha-me ela;
*
Só vejo nebulosas, baças, ralas,
Manchas indecifráveis sobre a tela...
Não me deixa, essa névoa, decifrá-las.
*
Maria João Brito de Sousa - 21.04.2021 - 11.15h
***
10.
*
“Não me deixa, essa névoa, decifrá-las”
Mas sempre vê aquilo que pretende
Alcança e é sagaz como um duende
Que salta tudo em frente e até valas
*
Princesa que passeia pelas salas
E olha em redor e tudo entende
Navega sobre as ondas, não ofende
E vence sem mostrar festas e galas
*
Na cor é um matiz de muito enfeite
Adorna o seu palácio de beleza
Que olhado no seu todo é um deleite
*
Eu gosto desse tom de realeza
Nessa cama deixe, amiga, que me deite
A sentir e a olhar essa grandeza
*
Custódio Montes
21.4.2021
***
11.
*
"A sentir e a olhar essa grandeza"
Que, amigo, só no verso é bem real;
Eu sou tão pequenina e tão banal
Quão banal possa ser qualquer burguesa...
*
Mas, sim, terá lugar na minha mesa
Desde que a refeição seja ideal;
Sirvo a palavra coberta do sal
Que colho nas salinas da pobreza.
*
Se vir beleza nisto que lhe of`reço,
Ficarei tão feliz por convidá-lo,
Que da minha pobreza até me esqueço
*
E este repasto irá ser um regalo;
Aguarde-me um minuto enquanto aqueço
O manjar com que irei presenteá-lo.
*
Maria João Brito de Sousa - 21.04.2021 - 14.25h
***
12.
*
“O manjar com que irei presenteá-lo”
Amiga, que prazer em aceitar
Sentados sobre a areia junto ao mar
À tarde, à noite até cantar o galo
*
Delícias que já vejo e de que falo
E sem o condimento me escapar
Uma pinga de Dão a terminar
Só desta vez vai ver que é um regalo
*
Nas doenças nem pense que a alegria
Compensa-nos queixumes e mazelas
Junto ao mar nós os dois com a magia
*
Das ondas a vogar sob as estrelas
Do enlevo do sonho e poesia
Com odes e cantigas das mais belas
*
Custódio Montes
21.4.2021
***
13.
*
"Com odes e cantigas das mais belas"
Iremos celebrar a poesia
E ainda a singular sinestesia,
À luz das ondas e ao som das velas...
*
Saber-nos-á, esse manjar, a estrelas,
Crescerá a maré quando vazia
E arredondar-se-á a maresia
Num círculo perfeito, em nossas telas.
*
O Dão também será imaginário
E embora imaginado, embriagante;
Não mais que um golo será necessário
*
Pra trazer até nós o céu errante
Que este sistema em código binário
Engendrou para unir quem está distante.
*
Maria João Brito de Sousa - 21.04.2021 - 19.23h
***
14.
*
“Engendrou para unir quem está distante.”
E pinta na paleta as suas cores
Num quadro enfeitado com as flores
Mais belas e de aroma inebriante
*
Eu pinto as tuas mãos em tom sonante
Em ilha que me leva onde fores
A ilha desvendada dos amores
Sinestesia sim dialogante
*
E ouço uma guitarra e uma canção
Que soa suavemente aos meus ouvidos
Em decibéis que vêem e se vão
*
E este entrecruzar de sons queridos
Se os não vês a pulsar no coração
“Vem desvendar-me a cor destes sentidos”
*
Custódio Montes
21.4.2021
***
"Amanhã voltarei a galopar !"
ResponderEliminarMaria João,
Admiro a sua força, e este seu dom maravilhoso, que nos envolve, com palavras tão belas e sentidas.
Acredite que é para mim, que felizmente tenho o privilégio de a ler, um exemplo inspirador.
Obrigada!
Agradeço-lhe também o poema que deixou no meu cantinho, e que se me permitir, vou em breve publicá-lo a preceito.
Que o seu galope continue, hoje e sempre, solto e mágico !
Um grande beijinho
Muito obrigada, pela parte que me cabe desta Coroa, Blue Bird
EliminarFico muito feliz por saber que gostou da minha humilde homenagem ao lobo, também ele em risco de extinção. Claro que sim; não só autorizo a partilha como lha agradeço.
Um grande beijinho
Só falto eu
ResponderEliminarno acordeão
Bom fim de Semana com alegria pra vocês
Beijinhos
Ora bem , Anjo!
EliminarObrigada, pela parte que me cabe, e que tenhas um animado fim-de-semana, que o Domingo vai ser de FESTA!
Beijinhos
Não há palavras que consiga exprimir para vos enaltecer.
ResponderEliminarCada um melhor que o outro.
Admiro muito essa sua força e capacidade de criar e ou tesponder criando, cada vez mais e mais.
Obrigada aos dois.
Beijinhos 😘😘😘
Esqueci de entrar com a minha conta.
EliminarO comentário é meu...MEA😘😘😘
Obrigada, pela parte que me cabe, querida MEA!
EliminarEsta é outra daquelas coroas que, como a "Chave" - recorda-se? - se tornaram especialmente belas. Creio que as musas estavam connosco, rsrsrs
Um beijinho GRANDE!
Já vi, já vi
Eliminar