NÃO SEI - Custódio Montes, Maria João Brito de Sousa e Helena Teresa Ruas Reis

NÃO SEI.jpg


NÃO SEI
*


Coroa de Sonetos
*


Custódio Montes, Maria João Brito de Sousa e Helena Teresa Ruas Reis
***



1.
*
Não sei o que fazer…. o que farei ?


Divago lentamente ao som da avena


Escrevo o que sair da minha pena


E aquilo que escrever logo verei
*



Avanço linha a linha mas não sei


Se a peça que vier, trazida à cena


Será grande essa obra ou pequena


Para me envergonhar perante a grei
*



Não sei não sei não sei…vou escrever


E tu leitor amigo vais dizer


Depois de ver e ler com atenção
*



Se merece um aplauso este poema


Se só merece encomio pelo tema


Ou se nem vale dar opinião
*


Custódio Montes


27.6.2021
***



2.
*


"Ou se nem vale dar opinião",


Pergunta-me o poeta companheiro


Do verso que criado a tempo inteiro,


Traz no celeiro do seu coração.
*



E está pronto a glosar, que em profusão


Se vai multiplicando, bem ligeiro,


Épico às vezes, noutras mais brejeiro,


Mas jamais sem sentido e nunca em vão!
*



Não sente o tal "bichinho-carpinteiro"


Que sempre exige um verso e, feiticeiro,


Faz renascer o espanto e a paixão?
*



Estou certa de que o sente vir, certeiro,


Pedir verso que nasça do primeiro


E outro e mais outro... até à exaustão!
*


 


Maria João Brito de Sousa - 27.06.2021- 13.42h
***


3.
*


"E outro e mais outro... Até à exaustão!"


Porém, a exaustão não chega aqui.


Se há um que mal vê ou dói-lhe a mão,


Há outro que aparece qual escanção...
*



E saboreia assim o melhor bago,


Depois de já maduro para o dente.


Poeta só degusta, num afago,


Palavras que se escapam do que sente.
*



Na mesa de um café pus-me a teclar


Sorvi o dito cujo sem dar conta


Mas sei que o que paguei foi pouca monta.
*



Antes que uma razão me possa achar


Agora, sem rever o que escrevi,


Receio ver-me já sair daqui.
*


Helena Teresa Ruas Reis - 15.20h
***


4.
*


“Receio ver-me já sair daqui”


Não fuja amiga Ruas que é bem-vinda


Porque se eu não sabia bem ainda


O que ia escrever, agora vi
*



Porque este belo encontro tido aqui


É conjugar poesia bela e linda


E pôr os três autores na berlinda


E nela aqui estou, já a senti
*



Poema é mesmo assim, como cereja


Seguindo-se um ao outro em peleja


Combate sim mas só de amizade
*



Discute-se a palavra com certeza


Mas sendo alinhada com beleza


Com graça e também simplicidade
*


Custódio Montes


27.6.2021
***


5.
*


"Com graça e também simplicidade"


Não faltando o tempero do talento,


Os versos voam mais que o próprio vento


Que hoje açoita os telhados da cidade.
*



Em cada verso, um gesto de amizade


Vem galgar a distância, sempre atento,


Não vá algum de vós perder alento,


Ou eu, a habitual temeridade...
*



Um verso chama o outro que, ao ouvi-lo,


Corre para o soneto e faz aquilo


Que um verso melhor faz, quando liberto;
*



Se achar lugar no peito de um irmão,


Logo o abraçará num gesto são


Deixando, para os mais, um espaço aberto.
*


 


Maria João Brito de Sousa - 27.06.2021 - 19.05h
***


6.
*


“Deixando, para os mais, um espaço aberto”


Onde o talento possa prorromper


Sem nunca se cansar ou se perder,


Mesmo tendo passado pelo deserto.
*



Que há mãos e pensares na amizade


Para te retirar à inacção,


Levando a construir, na emoção,


Por laços fraternais e de vontade.


*


Um verso atento a outro e a outros chama.


A muda e calma voz que assim proclama


Só ouves no bater do coração…


*


Sonoro, dentro em ti porque palpita,


É vida, e se procria, Deus permita


Que seja sempre eterna a criação.


*


Helena Teresa Ruas Reis - 27/06/2021
***


7.
*


“Que seja sempre eterna criação”


E há-de ser pois nele há liberdade


E diz o que quiser e à vontade


Pois não tem o poema um travão
*



Diz o que quer e sempre com razão


Imagina e descreve a realidade


Escreve sobre o campo e a cidade


E cria um mundo novo em construção
*



E a gente lê o texto que se cria


Todo o seu conteúdo e fantasia


E acha graça e fica-se contente
*



E nesta criação e a inovar


O mundo ganha forma e outro andar


Com isso ganha muito toda a gente
*


Custódio Montes


27.6.2921
***


8.
*


"Com isso ganha muito toda a gente"


Porquanto esta arte a todos nos eleva


E não será apenas a quem escreva,


Pois quem o ler alegra-se igualmente
*



E aprende a sentir... pois quem não sente


Aquilo que um poema a ninguém nega?


Ah, todos nós sentimos esta entrega


Que o verso faz brotar, como semente.
*



Assim se multiplica a poesia


Como se uma infindável sinfonia


Fosse, de geração em geração,
*



Galvanizando toda a humanidade;


Reparem bem no verso que se evade,


Que voa e vem pousar nesta canção!
*



Maria João Brito de Sousa - 27.06.2021 - 22.07h
***



9.
*


“Que voa e vem pousar nesta canção”


Qual pássaro nos ramos do arvoredo,


Que esconde, no seu ninho, mais segredo


Que aquele que fez esta construção.


*


E as penas pequeninas a forrá-lo


De conforto e de amor bem maternal,


A terra feita em barro filial


Como argamassa forte a preservá-lo,


*


Nada são, comparand’ à fantasia


Que surge como nova melodia


Nas palavras que irrompem em registo.


*


Ficará sempre mais do que se escreve


Do que a frase ou o verso quase breve,


Riscos, rimas saídas de um rabisco.


*


Helena Teresa Ruas Reis - 28/06/2021
***
10.
*



“Riscos, rimas saídas de um rabisco”


Mas feito com a arte e a mestria


De quem olhando as coisas vê e cria


Como construção feita em obelisco
*



Palavra ornamentada posta em disco


Canção que integrada em sinfonia


Enche e engrandece a alma de alegria


E sabe tão bem como um petisco
*



Poemas que umas vezes divertidos


São outras bem mais sérios e sentidos


Com arte com destreza com glamor
*



Tem tudo a poesia é ingente


Tem graça, sentimento anima a gente


E é também ternura paz e amor
*


Custódio Montes


28.6.2021
***


11.
*


"E é também ternura paz e amor"


Isto que os nossos dedos vão criando


Enquanto os vamos, nós, (des)comandando,


Já que ninguém comanda um verso em flor
*



Que voa como o vento e, ao seu sabor,


Pode ser ora forte, ora tão brando


Quanto o que a poesia for ditando


E conseguirmos, nós, depois compor...
*



Então, por um momento, o tempo pára


Para dar tempo ao verso que dispara


Como uma flecha rumo ao ponto exacto
*



Em que outro verso o espera e, sem saber,


Sabe contudo como o preencher,


Concretizando o que antes fora abstracto.
*


 


Maria João Brito de Sousa - 28.06.2021 - 14.08h
***


12.


*


“Concretizando o que antes fora abstracto”,


Há coisas que a poesia nos ensina


Por vezes, não fosse ela feminina,


Tem um sexto sentido imenso e lato.


*


E vem assim amena, p’la tardinha


Na hora de uma sesta disfarçada


Em sonho bem real, duma assentada,


Trar-te-á a cor-de-rosa numa linha.


*


Tal linha contornada a ponto flor


Borda tudo a seu jeito e com amor


Remata esse bordado à perfeição.


*


Artífices dos bilros, finas rendas,


Desejo de um artista é que aprendas


E que nunca se canse a tua mão!


*


Helena Teresa Ruas Reis - 27/06/2021
***
13.
*


“E que nunca se canse a tua mão”


Mão sem género não só feminina


Masculino o poema e que rima


Da poesia gémeo e seu irmão
*



Macho e fêmea a mesma condição


O poeta é assim que nos ensina


E não temos que sair dessa doutrina


Que une e agiganta o coração
*



Mas mais “não sei” agora o que dizer


O pensamento está-me a esmorecer


E vou deixar que outrem esclareça
*



Talvez eu já não veja ao redor


E quem venha a seguir veja melhor


Dando a opinião que lhe pareça
*


Custódio Montes


28.6.2021
***


14.
*


"Dando a opinião que lhe pareça"


Mais própria deste tema e do momento,


Chega o próximo verso muito atento


(que um verso sempre cumpre uma promessa!)
*



Isto vos comunica e vos confessa


O verso - ora em sorriso, ora em lamento -


Que ainda que fervilhe em sentimento,


É fiel à harmonia que professa.
*



E agora que está quase a terminar


O soneto que assim o fez cantar


Bem mais alto e melhor do que eu sonhei,
*



Não pára o verso de me pressionar


E a cada instante vem-me perguntar;


"Não sei o que fazer... o que farei?"
*


 


Maria João Brito de Sousa - 28.06.2021 - 18.42h
***


 


(Reservados os Direitos de Autor)


 


 


 


 

Comentários

  1. Respostas
    1. MUITO GRATA PELA TERÇA PARTE QUE ME CABE , RIK@RDO!

      FRATERNO ABRAÇO

      Eliminar
  2. HÊLÁÁÁÁÁÁ´´A´
    QUE ATÉ ME SALTARAM OS OLHITOS AFLITOS

    BOA E BELA TARDE PRA VOCÊS MJ, BEIJINHOS

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. OBRIGADA, ANJO MEU, PELA PARTE QUE ME CABE NESTA COROA A SEIS MÃOS

      FELIZ TARDE PARA TI TAMBÉM


      BEIJINHOS

      Eliminar
  3. Uau, ficou muito lindo um gosto de se ler, Maria João! Muito bem, amiga! Beijinhos mil e boa semana 🌼

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    Respostas
    1. MUITO OBRIGADA PELA PARTE QUE ME CABE, SANDRA

      QUE TENHAS UMA EXCELENTE SEMANA!

      BEIJINHOS MIL

      Eliminar
  4. "Se merece um aplauso este poema "
    Merece muito mais que um aplauso, merece uma grande ovação, e de pé. pois adorei cada verso desta bela coroa que nos ofereceram.
    Grande beijinho querida poeta Maria João,
    outro para o poeta Custódio Montes, e para a poeta Helena Teresa Ruas Reis .

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. MUITO OBRIGADA PELO QUE RESPEITA À MINHA TERÇA-PARTE DESTE TRABALHO, BLUE BIRD

      NÃO SEI SE OS MEUS DOIS COMPANHEIROS E CO-AUTORES DA COROA TÊM ACESSO A ESTE MEU BLOG, PORTANTO DEIXO UM BEIJINHO POR CADA UM DE NÓS

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