TELA - Coroa de Sonetos - Maria João Brito de Sousa e Laurinda Rodrigues

MENINA EM MONOCROMIA VERDE - MJBS.jpg


TELA
*
Coroa de Sonetos
*


Maria João Brito de Sousa e Laurinda Rodrigues
***


1.
*



"Chama que a cada gesto espelha a alma"


Ou mesmo alma que em chamas se acendeu,


Assim seremos nós, pintor e eu,


Que em tal labor ninguém nos leva a palma
*



Numa exacerbação que nos acalma


Porquanto ao paradoxo se rendeu,


Nada se perde quando se aprendeu


A tudo ver, mesmo sem ver vivalma...
*



Pintei ideias que de mim nasciam


E é dessa mesma forma que hoje escrevo;


Não sei se via além do que outros viam,
*



Nem sei se digo mais do que o que devo...


Não vendo o que os meus olhos prometiam,


A pouco, ou nada mais, hoje me atrevo.
*


 


Maria João Brito de Sousa - 01.06.2021 - 15.40h


*


Soneto criado a partir do verso final do soneto PALETA de Gil Saraiva.


***


2.
*
"A pouco, ou nada mais, hoje me atrevo"


não sabendo se existe um amanhã...


Mas é aqui e agora que me enlevo


jogando ao claro-escuro com afã.
*



Pinturas ou palavras, as que levo


em vibrações da minha mente sã,


são as pétalas de uma flor de trevo


que desflorei numa atitude vã...
*



Procurava a resposta: "muito ou pouco"


que faz da minha vida um mundo louco


que nem eu sei porque caminho assim...
*



Badaladas de sinos, som já oco


que repõe a música do ronco


que a minha voz ecoa sem ter fim.
*


Laurinda Rodrigues
***


3.
*


"Que a minha voz ecoa sem ter fim"


Por vales e montanhas sem começo


E sendo exactamente o que pareço,


Sou quem regula a chama acesa em mim,
*



Grata, talvez, por ter nascido assim,


Mas menos grata quando pago o preço


De cada queimadura que não peço


Aos deuses que expulsei do meu jardim.
*



Do muito, passo ao pouco... ao quase nada...


De quase nada, muito e pouco faço;


Se me desgraço, torno-me engraçada
*



E se amorosamente aqui te abraço,


Podes sentir-te, ou não, tão enredada


Quanto as fiadas em que me embaraço...
*


 


Maria João Brito de Sousa - 03.06.2021 - 17.14h
***


4.
*


"Quanto as fiadas em que me embaraço"


eu quero partilhar os fios desse novelo


e seja só em verso que há o abraço


sinto o deslumbramento de tecê-lo.
*



E pondo mais enredo nesse elo


que é apenas da história mais um passo


vai soneto mutar romance e, ao lê-lo,


percebe-se que é tudo tempo e espaço.
*



Sofridas - não doridas - mas libertas


de escolher estar fechadas ou abertas


num mundo que nos lê ou nos ignora,
*



Glorifico as paisagens, já desertas


de medos e lamentos, como alertas


de quem caminha em frente enquanto chora.
*


Laurinda Rodrigues
***


5.
*


"De quem caminha em frente enquanto chora"


Deixando atrás de si um mar de sal,


Vejo, longínquo, o vulto no final


Da estrada em que o seu choro se demora.
*



Olhando um mar que é céu naquela hora,


Esboço num breve impulso gestual


O voejar modesto de um pardal


E o de uma exuberante ave canora.
*



Junto a uma paleta, a minha a tela


Jaz, por falta de espaço, à beira tempo


E já não vivo eu no mundo dela
*



Que é outro o universo em que me invento;


Mudou-se-me esta casa em caravela


E em leme esta cadeira em que me sento.
*


 


Maria João Brito de Sousa - 04.06.2021 - 10.04h
***


6.
*


"E em leme esta cadeira em que me sento"


onde flutua a minha inspiração


navegando naquele rio que invento


para, de vez, curar meu coração.
*



Gritar bem alto como grita o vento


os temas da alegria e da paixão...


Sendo mais uma a sofrer tormento


acabando os tormentos sem razão.
*



Se estou febril, a febre é o sinal


de que todo o meu Ser percorre o mal


de uma humanidade em insanidade...
*



Somos a fruta da estação estival


que pode apodrecer sendo real


o sabor de uma luta pela verdade.
*



Laurinda Rodrigues
***


7.
*


"O sabor de uma luta pela verdade"


É doce como o mel mas de repente


A ssume uma acidez quase adstringente


Que surpreende pela intensidade
*



Mas mais nos alimenta essa vontade


De encontrar a verdade em quem nos mente...


Amadurece o fruto inda recente


Da nossa muito humana identidade,
*



Veste-se a tela nua à nossa frente


De quanto houver de criatividade


- porque essa nunca morre, é ponto assente -
*



E, enfim, se entende a transitoriedade


Daquilo que se pensa e que se sente,


Quando se sente e pensa em liberdade.
*


 


Maria João Brito de Sousa - 04.06.2021 - 12.21h


***


8.


"Quando se sente e pensa em liberdade"


cresce o deslumbramento de existir


de ter nascido Gente de verdade


e não ter de lutar para fugir.
*



Porque ter de fugir cria ansiedade


que destrói aquele sonho de partir


p'lo prazer de encontrar noutra cidade


apenas um lugar para divertir.
*



Fomos tão nacionais pela raiz


reconhecendo em nós essa matriz


de descobrir, sem ser um navegante...
*



E olhamos este mar que apenas diz:


já nada corresponde aquilo que quis!


Estou presa de mim mesma a cada instante.
*


Laurinda Rodrigues
***
9.
*


"Estou presa de mim mesma a cada instante"


Em que tentar deixar de ser quem sou,


Que a liberdade só me conquistou


Por ser rebelde, utópica e distante...
*



De mim, serei eterna navegante


Porque o tempo das fugas já passou;


Mal esta minha tela naufragou


Passei a navegar no verso errante.
*



No verso sempre encontro o que procuro


E mais que o que procuro encontrarei


Assim que colha um fruto mais maduro
*



Dentre os que ainda agora semeei;


Onde cada colheita for futuro,


Há-de haver espaço para o que eu criei.
*


 


Maria João Brito de Sousa - 05.06.2021 - 20.37h


***


10.
*


"Há-de haver espaço para o que eu criei"


pois espaço é relação de mim com alguém...


O tempo não existe: eu o sonhei


sempre presente, agora, aqui e além.
*



Vivo comigo, sabendo aquilo que sei.


Quem me visita só virá por bem


alertando para um mundo que deixei


ficar lá fora, a rodar num trem,
*



Onde já não viajo há muitos anos


porque viajam nele os muito insanos


que usam os milhões por vestimenta,
*



escondendo, no porão, os muitos danos


que são esquecidos, depois de muitos anos


sem ninguém lhes ter dado reprimenda.
*


Laurinda Rodrigues
***


11.
*
"Sem ninguém lhes ter dado reprimenda"


Vivem os amos/servos da riqueza


Vestindo a "caridade" e a "nobreza"


Que num vídeo viral põem à venda
*



E assim prosseguem nessa sua senda


De conquistar as graças da pobreza;


Mentiras são anzóis cuja agudeza


Escapa a quem de vileza pouco entenda...
*



Assim tornei concreta a tela abstracta;


Mais pincelada, menos pincelada,


Nesta estância da tela se delata
*



A grande, a gigantesca mascarada


Em que o capitalismo se retrata;


Todos o servem e nem dão por nada!
*


 


Maria João Brito de Sousa - 06.06.2021 - 11.21h


***


12.


"Todos o servem e não dão por nada"


porque, no seu inconsciente cultural,


resguardam o segredo da montada


num cavalo feito em pérolas e cristal
*



Expõem-se então à fúria da nortada


que os submete ao medo de animal


simbolizando o grande camarada


que veio salvá-los da desgraça e mal.
*



Esqueceram que são a trilogia


que podem alcançar no dia-a-dia


sem ter de denegar a sua crença...
*



Será esse o motivo da poesia


quando deixa de lado a alegoria


que não é sua a voz que a si pertença.
*


Laurinda Rodrigues
***


13.
*


"Que não é sua a voz que a si pertença"...


Mas agora é só minha a decisão;


Camaradas não são o "grande irmão"


E a minha ideologia não é crença
*



Que me assegure privilégio ou tença...


Trago-a na mente e diz-me o coração


Que ao nascer filha da revolução


Me compete cantá-la até que vença
*



E, vez por outra, a minha branca tela


Pode encher-se dos traços realistas


De quem morreu lutando, não por ela,
*



Mas pelos objectivos humanistas


Cuja memória, morta numa cela,


Ainda me sussurra; "Não desistas!"
*


 


Maria João Brito de Sousa - 07.06.2021 - 12.04h
***


14.
*


"Ainda me sussurra: "Não desistas"


porque tudo na vida é transição


e mesmo o mais fatal nos mostra pistas


p'ro reencontro com o nosso coração.
*



Ouço falar em histórias de revistas


cheias de sentimentos e emoção...


São, afinal, desfiles em que vistas


o melhor para mostrar à multidão.
*



Somos trapos caídos a um canto


onde não chega o riso, nem o pranto,


que dê o privilégio de ter calma?
*



Aos chutos, pontapés do desencanto


acendemos o fogo como um manto,


"chama que, a cada gesto, espelha a alma".
*


Laurinda Rodrigues
***


(Reservados os direitos autorais)

Comentários

  1. Maria João,
    Melhor do que esta inspirada coroa de sonetos, é "vê-la" novamente aqui.
    Já estava a ficar preocupada. Tudo bem consigo minha amiga ?

    Levei na sexta-feira a vacina, da Johnson portanto só uma dose, o maior efeito que sinto é um grande cansaço, mas ainda estou por aqui também :) , somos umas resistentes !



    Grande beijinho

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. OBRIGADA PELA PARTE QUE ME CABE, BLUE BIRD

      NESTE MOMENTO ESTOU COM OUTRA CRISE DE BLEFARITE, MAL CONSIGO MANTER OS OLHOS ABERTOS E NÃO VOU PODER VISITAR-VOS NEM PRODUZIR MAIS ENQUANTO NÃO MELHORAR.

      PEÇO DESCULPA, MAS... TOMARA EU PODER LER E ESCREVER!

      UM BEIJINHO

      Eliminar
    2. LAMENTO, MARIA JOÃO.
      SÓ QUERO QUE MELHORE, CUIDE DE SI !

      GRANDE BEIJINHO!

      Eliminar
    3. EU CUIDO... SÓ SAIO MUITO DE QUANDO EM QUANDO PARA IR AO CAFEZINHO - A 5 OU 6 METROS DA MINHA PORTA - BEBER UM PINGADO, VOU SEMPRE DE MÁSCARA AFIVELADA... MAS TUDO ME CAI EM CIMA!

      AGORA NEM SEQUER POSSO CANTAR PORQUE O REFLUXO GASTRO-ESOFÁGICO QUEIMOU-ME A LARINGE E NEM COM O SUCRALFATO RECUPEREI A VOZ... E EU QUE PASSAVA A VIDA A CANTAROLAR...

      GRANDE BEIJINHO

      Eliminar
  2. Respostas
    1. PELA PARTE QUE ME CABE, MUITO OBRIGADA, RIK@RDO!

      DESCULPE-ME AS MAIÚSCULAS MAS QUASE NÃO VEJO...

      ABRAÇO

      Eliminar
  3. Só falto eu
    com aminha Guitarrinha, afinadinha

    Bela tarde com alegria e cuidados MJ, beijnhos

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    Respostas
    1. OLÁ ANJO

      TENHO MIL CUIDAOS, SIM, MAS MESMO ASSIM ESTOU COM UMA INFLAMAÇÃO NAS PÁLPEBRAS - BLEFARITE - E AGORA É QUE NÃO VEJO QUASE NADA...

      BEIJINHOS

      Eliminar
  4. Brancas nuvens negras8 de junho de 2021 às 19:14

    Que folgo, que cumplicidade, que sintonia têm estas duas mulheres a fazer sonetos. A pintura a servir a poesia e a poesia a homenagear a pintura, sou sensível ao tema, bem como ao afloramento das motivações sociais e políticas, nosso horizonte.
    As melhoras, um abraço.
    L

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. MUITO OBRIGADA PELA PARTE QUE ME CABE, L.

      DESCULPE-ME AS MIÚSCULAS E A AUSÊNCIA NO "BRANCAS NUVENS NEGRAS", MAS NÃO VEJO QUASE NADA... ESPERO MELHORAR, SÓ NÃO SEI QUANDO...

      FORTE ABRAÇO

      PS - DEMOREI UM TEMPO INFINDO A TERMINAR ESTA COROA.

      ESCREVER SONETOS PALAVRA A PALAVRA É, PARA MIM, QUASE UM CRIME CONTRA NATURA, MAS TEVE DE SER, DADO O ESTADO DOS MEUS OLHOS...

      Eliminar

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