AS VELHAS DE AGORA

AS VELHAS DE AGORA.jpg


Imagem retirada daqui


 


AS VELHAS DE AGORA
*



Moldamos os sonhos que vamos sonhando,


Sopramos as brasas que vão esmorecendo


Na lareira morna, quase arrefecendo,


Do que antes foi fogo crescendo, queimando...
*



Falamos das nuvens que passam voando


E do que alcançámos, remendo a remendo;


Memórias que a traça dos anos, roendo,


Pra nós foi aos poucos tecendo e bordando.
*



As velhas de agora não morrem sentadas


Em salas sombrias. Talvez em esplanadas


Consigam que o Tempo se entenda com elas
*



E que, por instantes, bebendo um café,


Esquecido de ser o tirano que é,


Se atreva a sorrir e a soltar-lhes as trelas...
*


 


Maria João Brito de Sousa - 07.10.2021 - 19.00h


 

Comentários





  1. Boa noite, Maria João
    Das velhas (e velhos) da minha infância lembro-me de as ver percorrer os caminhos da aldeia de casa em casa, saquitel na mão a pedir esmola.
    Mais tarde lembro-me de as ver sentadas no banco do jardim a tricotar com agulhas e línguas. Num outro banco próximo os velhos jogavam a bisca lambida entre saudades do passado.
    Já adulto adiantado lembro-me de os visitar em lares - armazéns de pessoas sem préstimo - à espera do fim dos seus dias.
    Os velhos de hoje, estou eu a entrar nessa categoria - embora a cabeça não se conforme - não sei como vai ser. O que for será.
    Zé Onofre





    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Bom dia, Zé Onofre!

      Entrei há quase quatro anos na "categoria" que menciona; "oficialmente", já sou velha

      Antes de mais quero deixar bem claro que a palavra "velha" tem, para mim, uma belíssima conotação, não é de forma alguma redutora e muito menos insultuosa.

      Relembro "O VELHO E O MAR" de Hemingway... que força teria este título se a palavra "velho" fosse substituída por "sénior", por exemplo?

      Tenho memórias idênticas às suas, mas posso garantir-lhe que sabia do que falava quando escrevi "As Velhas de Agora". De quando em quando, apesar das múltiplas e incapacitantes maleitas físicas, gosto de ir até à esplanada do cafezinho da esquina para "enganar o tempo"

      Abraço

      Eliminar
  2. Raio do tempo
    sempre em contratempo MJ

    Bom dia com alegria
    que é já fim de Semana
    de Sol que porfia, beijinhos

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Olá, Anjo meu

      Anda o tempo em contra-tempo,
      Pois troca-lhe, a gente, as voltas;
      Pra nosso contentamento,
      Passamos por folhas soltas...

      Está um solzinho que regala! Até a minha sala/escritório aqueceu de ontem para hoje...

      Beijinhos

      Eliminar
  3. O envelhecimento é diferente do de antigamente.
    Gostei do poema, é excelente.
    Bom fim de semana, amiga Maria João.
    Beijos.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Muito obrigada, Jaime!

      Sem dúvida. É um envelhecimento muito mais activo, embora apenas mentalmente activo para quem tenha grandes limitações ao nível da mobilidade.

      Bjs

      Eliminar
  4. Também estou quase a entrar no grupo de velhas de agora
    Quando penso por exemplo, na minha avó paterna, a única que conheci, que com a minha idade, parecia uma velhinha de 100 anos, penso que o Tempo tem sorrido e soltado as trelas

    Um beijinho querida Maria João,
    desejo a continuação de sol e cafezinho na esplanada

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Olá, Blue Bird!

      Ui, ui! Eu já sou "oficialmente" uma "velha de agora". E sou-o vai para quatro anos... e se falássemos de maleitas, sê-lo-ia desde os trinta e poucos, rsrsrsrsrsrs...

      Sim, recordo-me perfeitamente dos tempos em que, depois dos cinquenta e tal, todas as mulheres pareciam condenadas a nada fazer para além de esperarem, mais ou menos amarguradas, a sua última hora.

      Nem sempre o corpo ajuda, quando quero ir arejar as ideias, mas vou sempre que posso



      Obrigada e um grande beijinho!

      Eliminar
  5. Velhas... mas então
    eu sou uma velha?
    É que me revejo
    em cada verso
    eu, que não sendo velha
    me identifico e sinto
    assim,
    independentemente do género

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Pois tens toda a razão, Rogério!

      Baseava-me numa experiência pessoal e calhou usar o feminino, mas poderia falar dos velhos de agora...

      No entanto... lá no fundo sabes que as velhas de antigamente eram muito reprimidas e ficavam em casa a coser meias, enquanto os velhos bebiam o seu copito de três...

      Aos mais jovens, isto pode parecer um exagero ou mesmo uma mentira, mas a conquista desta horita de ócio nas esplanadas é bem mais recente do que se pensa.

      Forte abraço

      Eliminar
  6. Brancas nuvens negras9 de outubro de 2021 às 00:58

    As velhas são a riqueza da memória, da experiência, da sabedoria, depois delas muita coisa ficará esquecida.
    Um abraço
    L

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. E somos, L.!

      Para algumas de nós, não é muito fácil lidar com a omnipresente evolução tecnológica, mas continuamos a ser riquíssimas fontes de sabedoria e experiência de vida.

      Obrigada e um forte abraço

      Eliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

UM VOO DE PARDAL - Soneto muito ligeiro, dedicado à Ligeirinha

OBRIGADA!

ESPANTO