COISAS QUE NÃO SEI SE OS OUTROS SABEM- Mª João Brito de Sousa e Custódio Montes

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COISAS


QUE NÃO SEI


SE OS OUTROS SABEM


*
Coroa de Sonetos
*


Mª João Brito de Sousa e Custódio Montes
*


1.
*


Com pedras, pedra a pedra (re)construo


O que à pedrada fora destroçado


E mantenho um passeio calcetado


Que posso utilizar, de que usufruo
*



Quando falta uma pedra, então recuo


E preencho o vazio que foi deixado


Ou dou pelo buraco e passo ao lado;


Se não reponho, também não destruo...
*



De pedras aqui falo... ou talvez não,


Que como as pedras muitas coisas são


Capazes de caber onde elas cabem
*


Porque se em vez de pedra usar ideias


Mais lacunas preencho... e ficam cheias


De coisas que eu não sei se os outros sabem.
*



Mª João Brito de Sousa


14.11.2021 - 08.40h
***


2.
*


“De coisas que eu não sei se os outros sabem”


Que a ideia passeia sem se ver


Quem a tem vê então onde a meter


Em espaço onde outras também cabem
*



Ideias que prosseguem sem que acabem


E sem alguém ao lado perceber


Aquilo que a mente anda a tecer


E sempre a prosseguir sem que a travem
*


Por fim pode surgir um resultado


Ou se se não quiser ser ocultado


Enquanto o fim da obra se planeia
*


Um compasso de espera, um novo lance


Para que o edifício avance


Enquanto o construtor molda a ideia
*


Custódio Montes


15.11.2021
***


3.
*


"Enquanto o construtor molda a ideia"


Pode uma Musa ser inoculada


E ficar tão dorida, tão magoada


Que não acerte nem uma colcheia...
*



Assim está minha Musa; febril, feia,


A tiritar de frio, toda engelhada,


Com os braços inchados da picada


E surda da batida que a norteia...
*



São coisas que bem sei que não sabia


E a pobre Musa nunca o glosaria


Se eu não teimasse tanto ou mais do que ela
*



Só lhe peço que vá bem devagar,


De forma a que eu consiga acompanhar


Os passos que deviam ser só dela...
*



Mª João Brito de Sousa


15.11.2021 - 11.15h
***


4.
*


“Os passos que deviam ser só dela”


Mas a musa não anda assim sozinha


Abre a janela e acena à vizinha


E depois fala e entende-se com ela
*



Puxa uma palavra e outra mais bela


Então abre o poema que acarinha


E uma e outra seguem a mesma linha


E pintam em conjunto a mesma tela
*



Beleza não tem pressa, devagar


Devagar e sem pressa de chegar


Desde o nascer do sol ao sol poente
*


Com sombras e paisagens deslumbrantes


A musa reconforta os dois amantes


E ao vate dá fulgor mesmo doente
*


Custódio Montes


15.11.2021
*


5.
*


"E ao vate dá fulgor mesmo doente"


A menos que ao senti-lo menos bem,


Se farte das doenças que ele tem


E se retire, irada e prepotente...
*



Tenho uma Musa louca, incoerente,


Que só faz o que a ela lhe convém,


Que num momento vai, no outro vem,


E tudo cala quando o não consente...
*



Por vezes, de candeias às avessas,


Andamos nós as duas quanto às pressas


Em que ambas nos lançamos, quando eu posso
*



Ma se me encontra um pouco enferrujada,


Vai-se de mim, não quer fazer mais nada;


Talvez queira que eu seja algum colosso...
*



Mª João Brito de Sousa


15.11.2021 - 13.50h
***
6.
*


“Talvez queira que eu seja algum colosso….”


Não, o que ela quer é brincar consigo


É nisso que se vê um bom amigo


Que quer e diz à gente: eu já não posso
*



E cada vez nos pede mais esforço


Para ver uma flor por entre o trigo


E só nos dá vantagem, não castigo


E o nosso poetar ganha reforço
*



Consigo ela é maravilhosa


Cada poema seu é como a rosa


Que enfeita o seu jardim com poesia
*



Não diga mal da musa que é tão bela


Que o poderio seu junto ao dela


Só nos trará vantagem e alegria !
*


Custódio Montes


15.11.2021
***


7.
*


"Só nos trará vantagem e alegria"


E eu bem o sei que ainda refile


Estou sempre à espera do que ela me instile


De inspiração e até de rebeldia :)
*



Somos inseparáveis. Noite e dia,


Partilhamos, num corpo, um só perfil;


Amparo-a sempre que caia ou vacile,


E ela afugenta a minha cobardia...
*



Mas discutimos muito e não é raro


Que ela censure um verso menos claro,


Ou me mude uma rima menos boa.
*



Fico possessa, mas revendo tudo,


Vejo que tem razão e eu própria os mudo;


Xô, verso "caro", vai-te ó rima à toa!
*



Mª João Brito de Sousa


15.11.2021 - 15.40h
***


8.
*


“Xô, verso “caro”, vai-te ó rima à toa”


Mas bem lhe vai, amiga, bem lhe vai


Que dessa forma em erro nunca cai


Que tem consigo a musa e alto voa
*



E cantos bem sublimes nos entoa


Com a egrégia voz que nunca a trai


Na linda melopeia que lhe sai


E que aos nossos ouvidos tão bem soa !
*


Deixe a musa falar, não seja má


Que pelos vistos é tu cá tu lá


E ela também tem as suas luas
*


Ouça-a bem e escute-a por favor


Que eu bem sei que lhe tem um grande amor


E luas cada um lá tem as suas
*



Custódio Montes


15.11.2021
***


9.
*


"E luas cada um tem lá as suas",


E tem toda a razão, poeta amigo,


Embora a Musa se zangue comigo


E às vezes me insulte e lance puas
*



Porque num corpo só cabemos duas...


Posso zangar-me, mas nunca a castigo


E ela chega a pôr-me o corpo em p`rigo


Quando enfrenta mostrengos de mãos nuas...
*



Eu, que sempre a escutei atentamente,


Já não sei qual é Musa e qual é gente,


Nem consigo aceitar que ela me ralhe
*



Se me falham os olhos, se no peito


Meu pobre coração não pulsa ao jeito


Que "sua alteza" ordena que não falhe...
*


 


Mª João Brito de Sousa


15.11.2021 - 17.30h


***


10.
*


“Que “sua alteza” ordena que não falhe”


Mas diga-lhe “oh musa tem juízo”


Porque desse conselho não preciso


E não gosto também de quem me ralhe
*


E se insistir impante nela malhe


Dizendo que lhe causa prejuízo


E faça-lhe mais um ou outro aviso


Para que ela não a atrapalhe
*


 


Já sei vai desculpá-la, gosta dela


Está à sua beira sempre à vela


E não a quer por certo magoar
*


Faça orelhas moucas, vá em frente


E seja mais um pouco paciente


Este conselho dou: deixe-a falar


*
Custódio Montes


15.11.2021
***


11.
*


"Este conselho dou: deixe-a falar",


E é isso exactamente o que farei;


Se longe dela, pouco ou nada sei,


E ela longe de mim não pode estar,
*



Por isso, assim que a Musa refilar


Porquanto em qualquer coisa lhe falhei,


Em vez de me calar, como calei,


Serei eu quem a manda, então, calar
*



Reconheço, contudo, o seu valor,


Sei que ela me vai dando o seu melhor,


Tal como o meu melhor sempre lhe dou...
*



Um pouco de paciência, Musa minha;


Esta "embalagem" pode estar velhinha,


Mas nunca, em caso algum, te abandonou.
*



Mª João Brito de Sousa


15.11.2021 - 21.00h
***


12.
*


 


“Mas nunca, em caso algum, te abandonou”


E sou junto de ti a grande amiga


Que depressa nos passa qualquer briga


Que por nós algum dia se passou
*



Nunca estive zangada nem estou


Sorri lá para mim, oh rapariga


Senão jamais ó musa alguém me liga


E dizem que o poema em mim parou
*



Convença-a de maneira que ela entenda


E que aos seus argumentos se lhe renda


Porque sem musa o vate passa mal
*


Falta-lhe o jeito, falta a inspiração


E também não lhe afoita o coração


Para se ser poeta especial
*


Custódio Montes


15.11.2021
***


13.
*


"Para se ser poeta especial"


É necessário um pouco de loucura,


Alguma irreverência e, de ternura,


Uma imensa montanha. Essencial!
*


Fazer do verso o prato principal,


Não nos trará riquezas, nem fartura,


Tão só nos traz a consciência pura,


Do que em nós é profundo e visceral...
*



Das coisas que não sei, mas que procuro,


Ergo agora uma ponte em vez de um muro


Com pedras que sobraram da calçada...
*



Vamos cruzando a ponte. Mais uns passos


E os seus versos terminam dando abraços


Aos meus, que vão na sua peugada.
*



Mª João Brito de Sousa


15.11.2021 - 22.40h
***


14.
*


“Aos meus, que vão na sua peugada”


Andando com cuidado devagar


Pelo caminho em frente e a pensar


Na forma de tecer sua meada
*



Pela rua a pensar na minha amada


Que passo a passo dei para a amar


E lembro cada pedra, ao andar


Que de amor afaguei nessa jornada
*



Pedras aqui são rosas ao redor


Da rua onde andei com meu amor


Que agora ao passar vejo e recuo
*



Na muralha do tempo que revi


Lembro cada degrau que construí


“Com pedras, pedra a pedra (re)construo”
*



Custódio Montes


16.11.2021


 


 


 


 


 


 


 

Comentários

  1. Sonetos lindíssimos.
    .
    Um dia feliz … cumprimentos
    .

    .

    ResponderEliminar
  2. Parece uma festa de palavras
    em tercetos e quadras

    Boa e bela tarde com alegria
    noite agasalhada também que estará fria, beijinhos

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Olá, Anjo!

      Parece e é! As Coroas são longas e animadas conversas entre sonetistas, através de sonetos, claro.

      Sempre que entro numa coroa, fico em "festiva tensão" à espera do próximo soneto para lhe responder de imediato... olha, é mesmo uma grande Festa, pelo menos para mim

      Obrigada pela parte que me cabe

      Beijinhos

      Eliminar

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