DE VIGIA - Custódio Montes e Mª João Brito de Sousa

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Imagem retirada daqui


 


DE VIGIA
*
Coroa de Sonetos
*
Custódio Montes e Mª João Brito de Sousa
***


1.
*


Naquele fim de tarde olhei teu rosto


As mãos nas tuas mãos o peito a arfar


Pulava o coração e teu olhar


Brilhava como brilha o sol de agosto
*



Enorme o nosso amor, origem mosto


De uvas que pisadas no lagar


Deitavam uma seiva que ao brotar


Que bem sabia ! Lembro ainda o gosto
*


Ao longe vai o barco que te leva


E para que essa seiva ainda beba


Eu tento apanhá-lo onda a onda
*



E vai-se pondo o sol e acaba o dia


Que venha a noite, fico de vigia


Enquanto ali à volta o barco ronda
*


Custódio Montes
10.11.2021


***
2.
*



"Enquanto ali à volta o barco ronda"


A ilusão de um rasto de sereia,


Sobe o gajeiro ao mastro e avista areia


Por trás da branca espuma além da onda
*



Grita então: Terra à vista!, enquanto sonda


O ansiado horizonte de uma ideia,


Porque areia não há, nem terra alheia,


Tão só vira a sereia em sua monda
*



Colhendo o vivo visco dos sargaços


Que sorrindo aconchega nos seus braços


Como se filhos dela e do seu mar...
*



E na gávea, de pé, fica o gajeiro,


Hora após hora, o dia todo inteiro,


Vigiando o que julga vislumbrar...
*



Mª João Brito de Sousa


11.11.2021


***


3.
*


“Vigiando o que julga vislumbrar”


Sem olhar para a praia onde estou


Meu grito de amor alto soou


E ele distraído sem olhar
*



Eu vou fazer sinal para avisar


Da minha ansiedade. Espera vou


Por aqui esperar….ah já olhou


E vê-me claramente a acenar
*


Mas não sabe o motivo, a razão


Da mágoa que me invade o coração


E vai e torna a vir sempre ao redor
*


Gajeiro, olha ao longe, olha outra vez


Sou eu, apaixonado, não me vês ?


Atraca o barco e traz-me o meu amor
*


Custódio Montes


11.11.2021



***


4.
*


"Atraca o barco e traz-me o meu amor",


Pede a sereia com voz sedutora


E logo o bom gajeiro se enamora


Duma canção que o mar lhe quis compor
*



Desce da gávea e ao leme se vai pôr


Pra, depois, dar aos remos que a demora


Muda cada segundo numa hora,


E a cada hora cresce o tal clamor
*



Vindo do grande atol onde a sereia,


Serena e branca à luz da lua cheia,


Canta para o sargaço adormecido...
*



Vai, humano gajeiro, ter com ela,


Mas tem muito cuidado, que ela é bela,


Mas se te lança às ondas `stás perdido!
*



Mª João Brito de Sousa


11.11.2021 - 16.25h


***


5.
*


“Mas se te lança às ondas `stás perdido”


Que importa se eu andar nos braços dela


Apenas um segundo …é tão bela


Que sinto logo o amor correspondido
*


E eu não sou gajeiro já vencido


E sei bem manobrar a caravela


Afago a sereia e junto a ela


Navego rumo à praia dirigido
*


Então bem vejo ao longe aquela ânsia


Do pobre apaixonado que à distância


Anseia por rever sua paixão
*


Em frente caravela a navegar


Sereia não me venhas afundar


Para salvar aquele coração!
*


Custódio Montes


10.11.2021
***


6.
*


"Para salvar aquele coração"


Que me importa arriscar a própria vida?


- Naufragarás!, responde decidida


A voz que antes cantava uma canção.
*



Mas o gajeiro, surdo de paixão,


Não escuta essa ameaça mal contida


E ouve ainda a canção que fora ouvida


Antes de ser lançada a maldição...
*



Já se aproxima a barca do atol,


Já o dia rompeu, já brilha o sol


Sobre o vulto da ninfa dos sargaços
*



E o pobre do gajeiro enfeitiçado


Saltando borda fora faz a nado


Os metros que o separam dos seus braços.
*



Mª João Brito de Sousa


10.11.2021 - 20.00h
***


7.
*


“Os metros que o separam dos seus braços”


Gajeiro não vás, pára, volta atrás


Tu podes, anda lá, tu és capaz


Se fores vais passar por embaraços
*



E também vais quebrar os fortes laços


Que me interligam já desde rapaz


Ao grande amor que o barco dentro traz


E para o ter passei grandes cansaços
*



Não deixes esse barco à deriva


Deixa lá a sereia apelativa


E foge dela foge ao seu enredo
*



E regressa ao comando do navio


Vira-te para trás em rodopio


Protege o meu amor tão belo e ledo
*


Custódio Montes


10.11.2021


*
8.
*


"Protege o meu amor tão belo e ledo"


Da Barca lhe suplica a sua amada


Que chora e se debruça da amurada


Por seu gajeiro perdida de medo...
*



Ouve-a o gajeiro e trepa a um rochedo


Para vê-la melhor, mas não vê nada;


Ao longe, a voz da ninfa ecoa irada


Que o pobre é para ela outro brinquedo
*



E não o quer perder para a mortal


Que assim derrama um sal que é do seu sal


E tanto implora a volta do gajeiro...
*



Vem ter comigo - diz- serás um rei!


- Que sei eu, bela ninfa? Eu nada sei


Se não que amo a mulher que amei primeiro!
*



Mª João Brito de Sousa


10.11.2021 - 22.00h


***
9.
*


“Se não que amo a mulher que amei primeiro”
Tu que queres de mim, algum traidor ?
Que vai abandonar o seu amor
Para deixar de ser um timoneiro?
*


Conduzo a barca, levo-a ao roteiro
Fui eu o escolhido, o condutor
Por ter tanto empenho no labor
E queres tu que eu seja traiçoeiro?
*


Não deixo a minha barca noite e dia
Sou o seu timoneiro, o seu guia
E tenho que a levar direita ao cais
*


Vai dentro dela a prenda, a rosa, a flor
Que tem à sua espera um grande amor
E eu conduzo a barca sou arrais
*


Custódio Montes


11.11.2021
***


10.
*


"E eu conduzo a barca sou arrais",


Verás que te resisto, ó feiticeira,


E volto para a minha companheira;


Depois de ouvi-la, não me tentas mais!
*



Que seja a minha Barca eterno cais


E seja a minha amada eterna obreira


De um cais que me preencha a vida inteira


Não de beijos fictícios, mas reais...
*



Portanto, bela ninfa dos sargaços,


Renegarei teus beijos, teus abraços


E até o teu castigo ignorarei!
*



Volto prá minha humilde e velha Barca,


Prà minha amada de amor`s nada parca;


Teu brinquedo, sereia, não serei!
*



Mª João Brito de Sousa


11.11.2021 - 10.00h
***


11.
*


“Teu brinquedo, sereia, não serei”


Que o que queres, bem sei, é enganar


Simulas um amor de muito amar


Que quem tu és, sereia, bem eu sei
*



Por este mar já muito naveguei


E tenho visto coisas de pasmar


É gente nos teus braços a gritar


Que todos sabem disso, toda a grei
*



Por isso vai ao largo, onde cantas


Que vou seguir viagem, não me encantas


Bem sei o que me queres vai embora
*



Bem vejo junto à praia quem espera


Por este amor há muito e desespera


Adeus que vou levar-lho mesmo agora
*



Custódio Montes


11.11.2021
***


 


12.
*


"Adeus que vou levar-lho mesmo agora",


Te juro que jamais me impedirás


De renegar-te e de voltar pra trás,


Prós braços da mortal que por mim chora!
*



Amor assim fruído, hora após hora,


É um amor que já ninguém desfaz...


De resistir-te julgas-me incapaz,


Mas sei que nunca amaste, ó impostora!
*



Podes tentar-me tanto quanto entendas,


Podes cobrir-te de jóias e rendas


E prometer-me impérios que não quero!
*



Prá Barca em que me aguarda a minha amada,


Vou nadando, braçada após braçada,


Que um Amor verdadeiro é quanto espero!
*



Mª João Brito de Sousa


11.11.2021 - 13.35h


***


 


13.
*


“Um verdadeiro amor é quanto espero”


E vou já refrescar na fresca aragem


Ao leme que oriento na viagem


Sou eu que escolho o rumo que bem quero
*



Não sigo já, vou ser muito sincero,


Ainda vou levar ali à margem


O doce amor que espera aquele pagem


Que acena com vigor e desespero
*



Está sempre a olhar e de vigia


De noite, sem dormir dia após dia


À chuva, ao vento, ao frio, ao calor
*



O barco já lá vem em direcção


À praia e traz lá dentro o coração,


Que tive e volto a ter, do meu amor
*


Custódio Montes


11.11.2021
***


14.
*


"Que tive e volto a ter, do meu amor"


Carinhos tantos e tão verdadeiros


Que nunca esses teus olhos feiticeiros


Poderão igualar em seu fulgor
*



Rói-te de inveja, engasga-te em furor,


Invoca os teus trovões e aguaceiros,


Recorre aos grandes deuses, teus parceiros,


Que, de mim, não terás qualquer favor!
*



Adeus, ó criadora de ilusões


Que de vigia ao mar das aflições


Tão poderosa és nesse alto posto,
*



Não ficarei jamais sob o comando


Da beleza ilusória que vi quando


"Naquele fim de tarde olhei teu rosto"!
*


 



Mª João Brito de Sousa


11.11.2021 - 16.45h


***


 


 

Comentários

  1. Êlááááááaáá temos Festa de palavras
    nestes dias de S. Martinho
    onde castanhas e jeropiga
    fazem jus ao pipo de novo vinho

    Bela tarde pra vocês MJ, beijinhos
    que hoje vi o Isaltino na TV a inaugurar as luzes de Natal
    bem bonitas por sinal
    e a distribuir castanhas assadas saborosas e sem igual
    em Oeiras ( um golinho )

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    1. Olá, Anjo

      Aqui, no meu passeio/alameda, não há luzinhas nenhumas...

      Para a semana ilumino eu o meu gigantesco cacto de Natal Quem não tem cão, caça com gato e eu sempre fui muito imaginativa [<<-]

      Quanto à Coroa, agradeço-te pela parte que me cabe. Eu e o poeta Custódio Montes criámos para aqui uma epopeiazinha de algibeira, mas bem bonita

      Não vi castanhas, nem jeropiga, mas fiz braço-de-ferro com uma sereia malvada que eu mesma inventei... e ganhei!

      Beijinhos e que tenhas um restinho de tarde muito animado

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  2. É preciso muito folgo para um trabalho poético destes, além de ser longo tem de ser coerente, o que acontece com esta coroa de sonetos que glorifica a fidelidade.
    Um abraço
    L

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    Respostas
    1. Obrigada, pela parte que me cabe, L.

      Este tipo de trabalho é, sem dúvida, muito exigente, mas proporciona-nos umas largas horas de profunda alegria e cumplicidade poética. Claro está que falo por mim, mas... creio que o sentiram todos os que já participaram em coroas de sonetos.

      Forte abraço!

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  3. Muito belo!
    Que mais te diga?

    Abraço
    querida amiga

    ResponderEliminar

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