SENTO-ME À JANELA - Coroa de Sonetos

sento-me à janela.jpg


SENTO-ME À JANELA
*


Coroa de Sonetos
*


Custódio Montes, Lourdes Mourinho Henriques e Mª João Brito de Sousa
*


1.
*



Sento-me à janela e olho para a porta


Atento escuto o bater do ferrolho


Abro as tuas cartas delas uma escolho


O amor nelas leio só isso me importa
*


Vejo linha a linha que tudo me exorta


Voa o pensamento, lágrima no olho


Do tempo passado a imagem recolho


Espero, espero e nada me aporta
*


Mas daqui não saio e o teu olhar terno


Aqui o espero por tempo eterno


Por noites e dias, o tempo que for
*


De volta te sinto numa caravela


Daqui eu não saio da minha janela


Que se abra o ferrolho, vem oh meu amor
*


Custódio Montes


2.11.2021
*
2.
*


“Que se abra o ferrolho, vem oh meu amor”!


Com mágoa e saudade o amigo Custódio


Vertendo uma lágrima recorda, com dor,


Ao ler uma carta de amor e não ódio.


 


Mas eis que o passado ficou lá p’ra trás


E as cartas apenas são recordações…


Momentos vividos cheios de emoções


Que o tempo sem tempo nunca mais desfaz!


 


Ainda que seja ao ler uma carta


Lembrando um amor que nunca mais se aparta


Do seu coração, é assim a vida!


 


Recordar é viver, sentir o carinho,


Trilhando por vezes o mesmo caminho…


Ao ler uma carta que não foi esquecida!
*


Lourdes Mourinho Henrirques
*


3.
*
"Ao ler uma carta que não foi esquecida"


O passado ganha a dimensão presente


E o que era saudade passou, de repente,


A ser coisa viva, palpável, sentida...
*



A leitura é chama que, reacendida,


Ilumina a vida e a alma da gente;


Sabe-o quem o escreve e sabe-o quem o sente


No corpo inocente e na alma rendida.
*



O tempo não pára mas essa janela


Não vive no tempo, vive só pra ela


E para o momento em que ela há-de voltar
*



Está escuro lá fora, mas brilham-lhe os olhos;


Vê estrelas brilhando em vez de ver escolhos


No papel da carta que abrira a chorar...
*



Mª João Brito de Sousa


02.11.2021 - 18.30h



***
4.
*


“No papel da carta que abrira a chorar..”


Relembrou uns olhos duma claridade


Que ainda os recorda com tanta saudade


Que ao entrar na porta os quer de novo olhar
*



Mas andam tão longe que tardam voltar


E eram tão lindos: era a mocidade


A força, a alegria, o carinho, a vontade


De lhe querer tanto, de tanto os amar
*



Sento-me à janela fico à sua espera


Que quem muito ama nunca desespera


Mesmo que a espera se torne ilusão
*



Mas relendo as cartas lembra-se o calor


Dos beijos ardentes e plenos de amor


E fica-se preso, freme o coração
*


Custódio Montes


2.11.2021
*


5 .
*


“E fica-se preso, freme o coração”


Como se o passado voltasse outra vez…


E serão as cartas, quem sabe, talvez


Alvo de alguns beijos cheios de emoção!
*


São o testemunho de um amor feliz


Que um dia partiu e nunca mais voltou,


As boas lembranças foi o que deixou,


Também a tristeza, a vida assim quis.
*


Mas ficar à espera é pura ilusão,


Enquanto se espera, sofre o coração


A mágoa contida sem remédio ter.
*


E as cartas velhinhas aqui recordadas


São tudo o que resta, ficarão guardadas


Com muito carinho p’ra não as perder.
*


Lourdes Mourinho Henriques


02.11.2021
***


6.
*


"Com muito carinho pra não as perder"


Guarda-as na gaveta do seu coração


Junto das saudades e do medalhão


Contendo o retrato dela, da mulher...
*



Sentado à janela, já nem quer esquecer,


Já só disso vive, da recordação


Do que recebera de amor, de paixão,


Desse tanto querê-la que foi mais que qu`rer...
*



E agora relendo, mais próximo está


Dessa que em palavras toda se lhe dá


Como se lhe dera nos tempos distantes
*



Não fecha a janela muito embora o vento


Sopre através dela louco e turbulento


Como fora em tempos, como ele era dantes...
*



Mª João Brito de Sousa


02.11.2021 - 21.30h


***


7.
*


“Como noutros tempos, como ele era dantes”


Mas forte que fosse eu ia junto dela


Não havia rosa que fosse mais bela


E bastava vê-la por poucos instantes
*



E ao ler a carta há imagens distantes


De caminho andado por rua ou viela


É essa lembrança que por mim apela


A paixão sentida que une os amantes
*


Ponho-me à janela quero relembrar


Voltando ao passado, voltamos a amar


Estendem-se os braços e lançam-se ao vento
*


Voamos no espaço, estendemos as asas


A paixão regressa pisamos as brasas


E sobre elas voa nosso pensamento
*


Custódio Montes


2.11.2021
***
8.
*


“E sobre elas voa nosso pensamento”…


E tal como outrora o amor acontece,


Momentos vividos que nunca se esquece


Que são recordados, momento a momento!
*


E a vida ao passar é por vezes tormento,


Mas deixa alegrias para recordar,


Momentos de vida do tempo de amar


Que ‘oje são saudade, da alma alimento!
*


E nessa janela que tanto lhe diz


O amigo Custódio vai sendo feliz,


Saudoso recorda todo o seu passado.
*


Que assim continue, com boa lembrança


Mesmo que a sonhar, não perca a esperança


E guarde a cartinha com muito cuidado.
*


Lourdes Mourinho Henriques


03.11.2021
***
9.
*


"E guarde a cartinha com muito cuidado",


No bolso do peito onde pode ir buscá-la


A qualquer momento. Se a carta lhe fala


Ganhou-lhe o presente, vencendo o passado
*



No instante preciso, à janela sentado,


No quarto de cama, na copa ou na sala,


Falará a carta, que amor não se cala


Se, em tempos vivido, ora for recordado.
*



Que a velha cadeira em que agora se senta


Seja a testemunha que os versos sustenta


No pinho ou nogueira em que alguém a talhou.
*



Que todos os dias a todas as horas


Lhe fale essa carta de amor e de amoras,


Dos beijos e abraços com que o cativou!
*



Mª João Brito de Sousa


03.11.2021 - 14.25h
***


10.
*


“Dos beijos e abraços com que o cativou”


Mas não têm cartas como eu recebidas


De amores de outrora, pessoas queridas


Ou de amores perdidos apenas eu sou ?
*



Ao que tenho ouvido e alguém me informou


Também as amigas andaram perdidas


E foram amadas em tochas ardidas


Por muito amor que de certo as queimou
*


Contemos a história que não a negamos


Recordamos tempos, todos nós amamos


Todos nós tivemos o nosso desejo
*


Quem não teve cartas que agora não lê


Teve bem mais sorte, teve o amor ao pé


E pôde de certo enchê-lo de beijos
*


Custódio Montes


3.11.2021
***


11.
*


“E pôde de certo enchê-lo de beijos”


Mas ficou mais pobre de recordações,


Nem todas as cartas são desilusões,


São troca de amor confessando os desejos.


 


E são essas cartas que há quem não as tenha,


Que dão o conforto, que dão a ilusão


De sentir agora a mesma paixão


Um dia sentida e que hoje a retenha.


 


Os altos e baixos que nos dá a vida


São provas de fogo que logo à partida


Nos vão ensinando a escolher o caminho.


 


Bem cedo encontrei o meu no passado


Guardei-o com ‘sprança, até que ao meu lado


Surgiu o amor que esperei, com carinho.
*


Lourdes Mourinho Henriques


03.11.2021
***


12.
*


"Surgiu o amor que esperei com carinho"


Bem cedo, tão cedo que ainda que aponte


Os dias e as noites, não há quem os conte


Entre as muitas gentes que achar no caminho
*



E eu que escrevia sobre pergaminho,


Que pintava as linhas de um novo horizonte


Por dentro de um rio ou atrás de uma fonte,


De amor nunca tive nem um postalzinho.
*



De amor estive perto e de amores me perdi


Num tempo em que a sorte de amar descobri...


Para quê escrevê-lo se assim tão de perto
*



Podia vivê-lo? Passaram-se os dias,


Os meses, os anos... surgiram magias;


Perdi-me das cartas neste desconcerto...
*



Mª João Brito de Sousa


03.11.2021 - 19.00h


***
13.
*


“Perdi-me das cartas neste desconcerto”


Mas encontrei uma entre todas elas


Abri-a e li-a era das mais belas


Devagar olhei-a cada vez mais perto
*



E fiquei contente de a ter aberto


Havia passagens lindas e singelas


Que me deslumbraram como luz de estrelas


Ao ler linha a linha um e outro excerto
*



E tinha nos olhos a mesma esperança


Dos dias passados, agora lembrança,


Que tanto queria tornar a rever
*



Recordei seus olhos e os seus cabelos


Momentos vividos tão lindos tão belos


Recuei no tempo, parei para os ter
*


Custódio Montes


3.11.2021
***


14.
*


“Recuei no tempo, parei para os ter”


E tal como outrora vivi os momentos


Como se hoje fosse, tantos sentimentos,


Paixão e carinho que nos fez viver.
*


Vivemos um amor que não é p’ra esquecer


Ambos percorremos um longo caminho,


Com altos e baixos, mas muito carinho


E que hoje num sonho voltei a rever.
*


E junto à janela eu vejo, sem fim,


Uma longa ‘strada onde esperas por mim


Quando um dia partir, quando? Pouco importa!
*


 


Só sei que acordei desta minha apatia


Que a ti me juntou… mas já vai longe o dia…


“Sento-me à janela e olho para a porta”.
*


 


Lourdes Mourinho Henriques


03.11.2021


***


Reservados os direitos de autor


 


 


 


 


 


 


 


 

Comentários

  1. Nem consigo dizer qual o soneto mais bonito. São todos fascinantes de ler

    Feliz fim de semana

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    Respostas
    1. Fico-lhe muito agradecida pela parte que me cabe, Rik@rdo!

      Feliz fim-de-semana e um fraterno abraço

      Eliminar
  2. Muito frio aqui
    céu sem nuvens e muito sol
    bom fim de semana com alegria e saúde MJ
    que as janelas assim descritas
    propiciam momentos bonitos e desditas, brinco
    Beijinhos

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. B-b-b-bom d-d-d-dia, Anjo, brrrrrr

      Muito f-f-f-f-frio, também por aqui! Já estou transformada numa trouxa de roupa ambulante...

      Obrigada e que tenhas um excelente fim-de-semana.

      Beijinhos

      Eliminar

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