O FALCÃO DE KUSTURICA - Mª João Brito de Sousa e Laurinda Rodrigues

O FALCÃO DE KUSTURIKA
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Coroa de Sonetos
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Mª João Brito de Sousa e Laurinda Rodrigues
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1.
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À Via Láctea fui com Kusturica
Voando sobre o dorso de um falcão
Cuja fidelidade o dignifica
E a mim me rouba o lastro da razão
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Mas se a genialidade o justifica,
Quem justifica a minha absurda opção
De roubar o falcão de Kusturica
Após ver Kusturika em contra-mão?
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Adormeci, por fim, a meia Via,
Láctea, suponho, a crer no que se lia
No canto esquerdo do pequeno ecrã
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Não sei se Kusturika enfim chegou
Onde entendeu chegar ou se acabou
Por chocar contra a Estrela da Manhã...
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Mª João Brito de Sousa
11.03.2022 - 10.00h
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2.
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"Por chocar contra a Estrela da Manhã"
ando eu a confundir o dia e a noite
num filme gypsi onde não é vã
a mão dum outro artista que se afoite.
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Talvez tenha vestígios de xamã
a voz de Kusturika, quando açoite
a nossa vibração que, com afã,
abriu uma cratera onde pernoite.
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Porque isto de falcão livre no espaço
fez eclodir em nós o embaraço
de poder competir com ele em voo...
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Eu não vou conseguir: sou só humano!
E, ao tentar construir um aeroplano,
fiquei presa no verso que eu entoo.
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Laurinda Rodrigues
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3.
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"Fiquei presa no verso que eu entoo"
Até que a minha Musa ao ver-me assim
Bateu as asas e se ergueu num vôo
Que resgatou o que sobrou de mim...
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Se lhe perdôo? Claro que perdôo
Esse paternalismo mas, enfim,
Confesso que da ave me condôo
Pois não a trouxe a Musa ao meu festim
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Ainda que o festim tenha acabado
Assim que Morfeu veio disfarçado
E me induziu num sono tão profundo
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Que nem sequer dei conta do sequestro
Do meu corpo e do meu franzino estro,
Humano - é bem verdade - mas fecundo.
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Mª João Brito de Sousa
11.03.2022 - 13.35h
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4.
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"Humano - é bem verdade - mas fecundo"
em palavras, que são um arco-íris
de vibrações intensas neste mundo
p'ra um diferente mundo construíres.
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Desta galáxia saltas num segundo
sem medo ou cautelosa por sentires
que afinal estás num astro vagabundo
envolto na revolta de faquires.
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E, então, gritas que volte esse falcão
que Kusturika trouxe como irmão
pois, sendo dois, a solidão fenece...
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E ele responde-te logo como amigo:
prefere a estar sozinho estar contigo
entoando a balada que não esquece.
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Laurinda Rodrigues
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5.
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"Entoando a balada que não esquece",
Respeitarei a escolha do falcão:
Em mim a mesma escolha prevalece
Se solitária (en)canto a solidão...
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Ao longe há uma estrela que arrefece,
Nalgum lugar dum`outra dimensão...
Talvez sejam os olhos do falcão
Espelhados nela até que o fim comece
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Tão curiosa quanto um bom felino,
Sigo o falcão que, embora peregrino,
Não corre a Via Láctea em dez segundos
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Não me aproximo muito. A estrela é dele,
Se nela pouso pondo em risco a pele
Talvez me afaste do melhor dos mundos...
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Mª João Brito de Sousa
11.03.2022 - 18.25h
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6.
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"Talvez me afaste do melhor dos mundos"
sem saber se esse mundo é dos melhores...
Mas, nesse jogo de contrastes moribundos,
eu espero francamente que não chores.
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Pois, sem o Kusturika, só com Edmundos
mesmo que em mutação esses adores
não te inibas de gritos furibundos
que ponham um final em tais folclores.
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É melhor viajar em plano inverso
p'ra apurares o sentido do universo
onde é possível encontrar falcões.
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E, de asas bem abertas, ambos voarem
até os Kusturikas encontrarem
na saga das estrelas e papões.
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Laurinda Rodrigues
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7.
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"Na saga das estrelas e papões"
Quis o falcão, não quis a Kusturika,
Que eu sou muito selecta nas paixões
E sendo pobre, sei quanto sou rica
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Estranhas são estas minhas ambições
Que pouca gente entende ou justifica
Porquanto advogo sólidas razões
E não me importo se alguém mas critica
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Chorar, não choro, mas lamento imenso
Porque bem sei que um choro, um choro intenso
Faz tão bem ou melhor do que um sorriso
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Sou um bicho-do-mato afectuoso,
Algo selvagem, nada rancoroso,
Que num poema encontra o Paraíso
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Mª João Brito de Sousa
11.03.2022 - 19.47h
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8.
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"Que num poema encontra o Paraíso"
e faz dele alimento permanente
porque a Musa lhe diz o que é preciso
p'ra que fique saudável e contente.
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E, dia a dia, num caminho liso
onde caem destroços, de repente,
troca-lhe as voltas mostrando juízo
porque não é nem torpe nem demente.
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Assim, a glória espalha-se p'lo ar
sem que haja falcão p'ra agarrar
porque as asas não chegam ao telhado.
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Fazemos versos como furacão
e, quando vemos p'ro que está no chão,
é o nosso retrato, lado a lado.
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Laurinda Rodrigues
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9.
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"É o nosso retrato, lado a lado"
O mundo tresloucado que hoje vemos?
Não sei, que o furacão - talvez tornado -
É a arma que tenho. Ou a que temos?
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Voltemos ao falcão que, ao ter voado,
Deixou na praia o bote e os seus remos;
Mudei a velha rota a este Fado,
Ficou-me a meta além do que entendemos...
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É esta a grande "Ceia do Poeta",
Não há manjar que a Musa não prometa
A quem a saiba, em vida, preparar
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E enquanto fia a Grande Fiandeira,
Somam-se os versos sobre a cabeleira
De um cometa que passa sem passar.
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Mª João Brito de Sousa
12.03.2022 - 10.30h
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10.
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"De um cometa que passa sem passar"
ou asteróide feito em raio de luz,
em todos nos podemos retratar
sejam astros de amor ou sejam cruz.
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Num diálogo louco, sem parar,
mesmo quando parar o que traduz,
iremos num veleiro navegar
por águas que ao nordeste nos conduz.
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E sejas tu o Kusturika ardente
que transportas a Musa já cadente
a juntar-se, no céu, ao tal cometa...
*
Que eu sou apenas uma mosca-morta
e, se ela te incomoda, então exorta
que, um dia, também possa ser poeta.
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Laurinda Rodrigues
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11.
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"Que um dia também possa ser poeta"
Disseste e eu sorri, pois tanto quanto
O sou, tu és também... e a dilecta
Da minha Musa, quando aspira ao canto!
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Este rio nunca corre em linha recta,
Nem suas águas param num quebranto,
Que sempre crescem na razão directa
Da força do seu estranho, infindo espanto...
*
Nas asas de um falcão, algures no espaço,
Acendemos agora um novo abraço;
Duas gotinhas somos, nada mais,
*
Mas, ao juntar-nos, crescemos um pouco;
Voa um falcão sobre este mundo louco
E a Barca fica à espera, presa ao cais...
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Mª João Brito de Sousa
12.03.2022 - 11.40h
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12.
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"E a Barca fica à espera, presa ao cais"
enquanto as multidões olham a guerra
onde uma propaganda é já demais
p'ra quem quer a mudança nesta terra.
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Somos navegadores, que o tempo encerra
na coragem de povos tão fatais,
que eretos ficam, mesmo ao pé da serra
que, p'la grandeza, nos torna imortais.
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Damos as mãos com os olhos no além
feito de sonhos e reais também
até p'ro desafio mais imprevisto...
*
Aves do céu, afastem vossas asas,
porque a poesia invadiu as casas
num concerto de amor nunca antes visto.
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Laurinda Rodrigues
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13.
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"Num concerto de amor nunca antes visto"
Voarão juntos pombas e falcões
E surgirá a Paz em que hoje invisto,
Sem bombas, sem granadas, nem canhões
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Terá a Paz a solidez do xisto
E a justa força das revoluções
Do proletariado - nisto insisto! -
De todas, mesmo todas, as nações
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"Utopias!", dirão, talvez sorrindo
Os que vão dando o mundo por já findo
E não crêem na força da Vontade
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Dos que avançam sobre os que vão caindo,
Esses que o mundo vão (re)construindo,
Sem egoísmos, pela Humanidade!
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Mª João Brito de Sousa
12.03.2022 - 14.30h
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14.
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"Sem egoísmos, pela Humanidade!"
Que seja a lucidez o seu guião!
A Razão é só parte da Verdade
quando não foi ouvido o coração.
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O gesto de uma mão, com suavidade,
que dá uma palavra, além de pão,
nasce quando nasceu a caridade
consagrada por Cristo na Paixão.
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Se são injustas a pobreza e a dor
de gente que trabalha com fervor
sem nunca ser bastante o que lhe fica,
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Todo o Universo está em harmonia.
E, criando no céu a fantasia,
"À Via Láctea fui com Kusturika".
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Laurinda Rodrigues
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Parece haver chá, torradinhas e bolinho
ResponderEliminarque afinar a ganganta ao ler
sabe bem um golinho brinco.
Parabéns a ambas MJ, beijinhos e uma bela tarde
Pois claro, Anjo
EliminarNós duas a bebermos chá com torradinhas e tu a dares uns belos acordes com a tua guitarra
Mas, sabes? , agora ando para aqui com uma vontade enorme de chamar a GRINALDAS às Coroas... sei que não é lá muito ortodoxo, que as coroas já foram batizadas há muitos anos, que há regras que não se podem quebrar. Enfim!
Mas tu não achas muito mais bonito escrever - ou dizer- Grinalda de Sonetos em vez de Coroa de Sonetos?
Beijinhos