IDEIAS QUE EM CASCATA SE ENTRETECEM - Mª João Brito de Sousa e Custódio Montes

Cascatas.jpg


IDEIAS


QUE


EM CASCATA SE ENTRETECEM
*


Coroa de Sonetos
*
Mª João Brito de Sousa e Custódio Montes


(verso inicial e final de Laurinda Rodrigues)



1.
*


"Tudo o que os outros sabem já de cor",


Também eu sei mas, sendo provocada,


Não posso senão dar o meu melhor


Para que fique a C`roa coroada
*



Custe o que custe e seja como for,


Ainda que da Musa despojada:


Tu terás muitos "eus" ao teu dispor


E eu, sem Musa, não sou quase nada...
*



Ainda assim, aceito o desafio


E do que de mim sobra, ao arrepio,


Arranco uns versos qu`inda permanecem
*



Embrionários, sim, mas quase prontos


Para enfrentarem todos os confrontos


De ideias que em cascata se entretecem.
*



Mª João Brito de Sousa


12.04.2022 - 16.20h
***


2.
*


“De ideias que em cascata se entretecem”


Em fios de ilusão que se acumulam


Enfeitam-se umas vezes ou se anulam


E noutras vão-se embora e se esquecem
*



Enrolam-se as ideias e envelhecem


Mas há outras que voltam e pululam


Agradam e por vezes nos adulam


E ao lembrá-las até nos envaidecem
*



Ideia puxa ideia e a inovação


Atrai o nosso gosto e atenção


E é tão bom uma ideia aparecer
*



E nascem paralelas ou em cruz


E dessa discussão provém a luz


Que parar, diz o povo, é morrer
*


Custodio Montes


13.4.2022
***


3.
*


"Que parar, diz o povo, é morrer"


Ou vegetar, o que vai dar ao mesmo,


Por isso vivo ainda e escrevo a esmo


Tudo o que a voz da Musa me disser,
*



Se a minha consciência aquiescer


Ao que diga nos versos que aqui resmo


- nisto não sofro nunca de tenesmo... -


Até ficar sem nada pra dizer...
*



Mas, sim, ideia sempre puxa ideia


E assim se torna imensa esta cadeia


De versos que entre si se vão chamando
*



Ou então serão jorros de água pura


Formando longos rios numa planura:


Cascatas se do alto vão tombando...
*



Mª João Brito de Sousa


13.04.2022 - 16.08h
***



4.
*


“Cascatas se do alto vão tombando”


E que lindas se mostram ao cair


Espumas empolgantes a sair


Batendo umas nas outras e saltando
*



Vi as de Nicarágua sempre olhando


A água que p’lo rio estava a vir


Só desviava o olhar para sentir


Aquela espuma branca flutuando
*



Veja bem como a ideia nos flutua


Como ondas que acompanham a falua


A nascer uma aqui e outra acolá
*



Andando uma e outra em companhia


Como esta que me trouxe a fantasia


De falar do distante Canadá!
*


Custódio Montes


13.4.2022
***
"De falar do distante Canadá"


Ou do belo Iguaçu trazer ao verso


Que sob as águas ficará submerso


Ou sobre elas, se ousar, flutuará
*



E agitam-se as ideias, cá ou lá,


Como se as águas fossem o seu berço


E o seu rumo este instante em que converso


Consigo que decerto me ouvirá...
*



Por vezes repousamos quais lagoas,


Paramos de tecer estas coroas,


Cansados flutuamos... mas, em breve,
*



Já subimos aos céus feitos vapor:


Somos agora nuvens ao sabor


De ventos que vos trazem chuva ou neve.
*



Mª João Brito de Sousa


13.04.2022 - 21.00h
***


6.
*


“De ventos que vos trazem chuva ou neve”


Ou simplesmente só o sibilar


Pelos montes, outeiros ao passar


Ora lentos, depressa ou ao de leve
*



A falar sobre os ventos serei breve


Que gosto de me pôr a assoalhar


Ou até junto à areia a ver o mar


E então quero que o vento faça greve
*



E a ideia que sinto a surgir


É a de descansar e de dormir


Essa sim sinto-a bem e com afã
*



Por isso no soneto não avanço


Desejo-lhe também um bom descanso


Retomamos, por isso, amanhã
*


Custodio Montes


13.4.2022
***
7.
*



"Retomamos, por isso, amanhã"


Quer faça chuva quer um Sol brilhante


Desenhe uma cascata cintilante


Exactamente entre um e outro ecrã
*



Não sei se a Musa volta alegre e sã


Ou se se manterá muda e distante,


Mas seja como for serei garante


Desta nossa conversa, em nada vã...
*



O dia é de consulta de enfermagem,


Duvido que me sobre grande margem


Pró nosso versejar de cada dia
*



Antes de dar um jeito à minha sala:


Quem a vir como está, fica sem fala,


Ou julga estar nalguma livraria...
*


 


Mª João Brito de Sousa


13.04.2022 - 23.30h
***


8.
*


“Ou julga estar nalguma livraria”


E julga certamente muito bem


Que ao ver livros no chão aqui e além


Que coisa imaginar ele podia ?
*



Agora que acordei digo bom dia


Para também dizer que hoje ninguém


Se iria acreditar no adeus de alguém


Que em nota me dizia o que dizia
*



Despediu-se de mim e foi-se embora


Eu despedi-me então e vejo agora


Que ao meu adeus voltou a responder
*



Hoje vou à aldeia, vou podar


E só responderei quando voltar


Porque tenho lá muito que fazer
*


Custódio Montes


14.4.2022
***


9.
*


"Porque tenho lá muito que fazer"


E, por aqui, há tanto que arrumar


Que, confesso, começo a duvidar


Que tanto livro aqui possa caber...
*



Pudesse eu estes livros encolher


Ou conseguisse os móveis aumentar


E tudo ficaria em seu lugar


Sem problema bicudo a resolver...
*



São, contudo, estes livros como ideias:


Em estando as prateleiras todas cheias


Há que pô-los em pilhas sobre o chão
*



Ou em pequenas resmas sobre a mesa...


Porém, onde olhos meus vêem beleza,


Vêem, os outros, desarrumação.
*



Mª João Brito de Sousa


14.04.2022 - 09.50h
***


10.
*


“Vêem, os outros, desarrumação”


Mas desarrumação é o que mais vejo


Neste lugar, que tenho, sertanejo,


Que mais ninguém conhece este sertão
*



Estantes levantadas sobre o chão


Durante o dia olhado e que revejo


Às vezes sem vontade nem desejo


Mas que às vezes me prendem a atenção
*



Computador e livros mais diversos


De direito, de prosa e de versos


Por sobre a secretária empilhados
*



Por trás muitos outros em degraus


À minha volta os livros são um caos


Mas na cabeça estão memorizados
*


Custódio Montes


14.4.2022
***


11.
*


"Mas na cabeça estão memorizados"


Junto às ideias que nos vão nascendo


Do muito que nel`s fomos aprendendo


E do mais de que fomos nós dotados...
*


Estão os meus livros já quase arrumados


Mas alguma batota fui fazendo


Pois fui-me da despensa socorrendo


E de outros cantos bem mais recatados...
*



As ideias, porém, não têm fim,


Não as posso arrumar dentro de mim


Por isso as vou espalhando por aí
*



Em versos tantos que lhes perco a conta...


Podem não ter valor, nem ser de monta,


Mas são fruto daquilo que vivi.
*



Mª João Brito de Sousa


14.04.2022 - 20.30h
***


12.
*


“Mas são fruto daquilo que vivi”


E daquilo que sucede dia a dia


Ideias que me nascem de harmonia


Com sonhos ou vivências que senti
*



Que nascem uma aqui e outra ali


Sozinho ou então em companhia


Da tristeza que chega ou da alegria


Dum menino que chora ou que ri
*



Por vezes vê-se força vê-se calma


Mas é difícil ver-se a nossa alma


Onde a ideia medra até brotar
*



E com passado longo e enriquecido


Vai-se ao baú no sótão esquecido


Para lá dentro a ideia encontrar
*


Custódio Montes


15.4.2022
***


13.
*


"Para lá dentro a ideia encontrar"


Ainda em flor, tal qual como nasceu


Num canto recatado do seu "eu"


Onde a irá colher se a relembrar
*



E se a quiser fazer desabrochar


No instante preciso em que a colheu


Ou em que levantou o espesso véu


Com que o Tempo tratou de a ocultar...
*



Ideias são sementes - sempre o foram -


Que às vezes, muitas vezes, se demoram


No fundo do baú das nossas mentes
*



Ou escondidas nas pedras, invisíveis,


Até que, de repente, imprevisíveis


Começam a brotar como nascentes...
*



Mª João Brito de Sousa


15.04.2022 - 14.05h
***



14.
*


“Começam a brotar como nascentes”


Em catadupa jorram sem cessar


E basta uma vir e começar


As outras acrescentam as enchentes
*



E lá vão elas todas nas correntes


Engraçadas a rirem, a cantar


E ao ver esse lindo emalhetar


Os olhos logo se abrem sorridentes
*



Isto que conto aqui a descrever


Duma ideia que outra faz nascer


Tal como da roseira brota a flor
*



Não é como se sabe novidade


Mas eu reitero aqui nesta verdade


"Tudo o que os outros sabem já de cor".
*


Custódio Montes


15.4.2022
***

Comentários

  1. Maravilhoso de ler. Poemas deslumbrantes.
    .
    Deixando votos de uma Páscoa muito Feliz, extensivos à sua família, e mais pessoas, que estejam em seu coração.
    .

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    Respostas
    1. Pela parte que me cabe, muito obrigada, Rik@rdo!

      Retribuo os votos de uma Páscoa feliz para si e para todos os seus.

      Fraterno abraço

      Eliminar
  2. Maravilha o que acabo de ler, fico emocionada com tanta beleza, pois a vossa poesia é isso mesmo... a imagem da beleza!
    Desejo-vos uma Páscoa Feliz, com saúde e paz

    Um afectuoso abraço

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Pela parte que me cabe, muito obrigada, cara anónima.

      Desejo-lhe uma Páscoa feliz.

      Abraço

      Eliminar
  3. Quando sentires uma anónima descuidada, cuja cabeça já funciona devagar, é a rosafogo que conheces...
    m abraço, óptimo dmingo.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Ah, Natália

      Desta vez não te reconheci, até porque pensei que fosses a jovem médica que me atendeu no HSFX e que andou encantada a passear pelos meus blogs...

      Um GRANDE abraço e um feliz Domingo!

      Eliminar

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