O DIA EM QUE O MAR TREMEU

 


 


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O DIA EM QUE O MAR TREMEU
*



"A vista embebe na amplidão das vagas"


A velha mãe do jovem pescador


Mas nada enxerga além de pranto, dor


E um mar que, de tão cru, criava garras
*



Há quantos dias levantara amarras


E se fizera ao mar o seu amor,


O seu menino cheio do vigor


E da alegria própria das cigarras?
*


 



Sobre esse areal branco o negro vulto


Confronta o mar num derradeiro insulto


Ao azul impassível que a roubara
*



E, toda raiva e fúria, avança agora


Mordendo as águas onde o filho mora:


Pra quê esperar se a dor já a matara?
*


 


Mª João Brito de Sousa


20.06.2022 - 13.45h



***


Poema criado a partir do verso final do soneto MATER DOLOROSA de Gonçalves Crespo e inspirado pelas glosas feitas por Joaquim Sustelo ao mesmo texto poético.
***


 

Comentários

  1. Gosto imenso da intensidade das palavras que sempre existe nos teus poemas! É assim mesmo que se quer, poesia é sentir!
    (Ainda a tentar fazer um soneto... escrevo, apago, emendo, depois não bate certo , enfim, uma aventura)!
    Beijinhos mil, as tuas melhoras!🌷

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    1. Obrigada, Sandra :)

      Não me esqueci de que te tinhas proposto a escrever um soneto.

      Penso que em vez de te ajudar, tornei-te a tarefa mais difícil com aquelas explicações todas. É importante saber- se o que é um soneto mas ainda é mais importante "ouvir" e seguir o ritmo "de ouvido", como se o estivesses a cantarolar enquanto o vais escrevendo...

      Beijinhos mil

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  2. Brancas nuvens negras21 de junho de 2022 às 15:23

    A vida dos pescadores, trágica, difícil, mas poucas vezes nos lembramos disso. Fica esta homenagem, merecida.
    As melhoras. Um abraço.
    L

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    1. Não é a primeira vez que presto homenagem à vida duríssima dos pescadores, mas é talvez a mais intensa e realista de todas.

      Obrigada pelas suas palavras, L.

      Forte abraço

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  3. Boa tarde Maria João
    Um soneto em homenagem às vidas que o mar desfaz.
    Que todos os pescadores tenham a nossa admiração para a coragem com que todos os dias enfrentam o mar.
    E eu adoro o mar, mas também sei que o tenho de respeitar.
    Um soneto muito tocante.
    Uma boa semana com saúde e alegria.
    Um beijo
    :)

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    Respostas
    1. Muito obrigada pela leitura e apreciação deste soneto, Piedade.

      Sempre admirei profundamente o árduo trabalho e a desmedida coragem dos que do mar retiram o peixe que os alimenta e nos alimenta a nós, também. Omar é um gigante tão generoso quanto cruel e imprevisível.

      Boa semana com saúde e alegria :)

      Um beijo

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  4. Poema lindíssimo, direi mesmo que BRILHANTE.
    .
    Uma terça-feira feliz
    .

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  5. Quem vai ao mar
    já se sabe
    mesmo sabendo nadar

    Boa e bela tarde, boas vibrações MJ, beijinhos

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    1. É bem dura e ainda cheia de episódios dramáticos, a vida dos pescadores, Anjo

      Cheguei há pouco do hospital, de uma consulta de Oftalmologia. Como, tirando o raio do ardor provocado pela blefarite e pelo olho seco, estou a ver bem, a capsulotomia a laser fica adiada para o ano que vem, ou mais tarde ainda, se não houver intensificação da opacificação das lentes que me implantaram.

      Good vibrations e beijinhos

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  6. Maria Elvira Carvalho21 de junho de 2022 às 17:44

    Um soneto muito intenso, muito sofrido. Uma dor sem tamanho, nem medida.
    Um abraço e saúde

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    1. Uma dor tão desmedida quão desmedida é a coragem da gente do mar, querida amiga...

      Obrigada, saúde e um grande abraço

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  7. Duro e belo poema que nos arremessa a vida na sua crueldade nua!
    Gostei muito.
    Beijo

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