NOITE - Custódio Montes e Mª João Brito de Sousa
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Tela de Paul Cézzane
NOITE
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Coroa de Sonetos
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Custódio Montes e Mª João Brito de Sousa
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1.
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A noite tem mistérios e encantos
Encontram-se os amigos e as amigas
Dança-se a par e ouvem-se cantigas
Encobrem-se os amores nos seus mantos
*
Escondem-se na sombra muitos prantos
Indómitos valentes sem fadigas
Tecem-se muitos contos e intrigas
Há demónios que fingem ser uns santos
*
De dia vê-se ao longe a claridade
De noite vê-se bem mas só ao perto
Encobre-se a fraqueza e a idade
*
Embala-nos o sonho que, desperto,
Enfeita tudo à volta. A mocidade
Anda durante a noite a céu aberto
*
Custódio Montes
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30.11.2022
***
2.
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"Anda durante a noite a céu aberto"
Um velho e anquilosado sem abrigo
Tão gasto quanto um móvel muito antigo
Pla pátina do tempo hoje coberto
*
Pra esse a noite é um local deserto
P`rigoso para quem não sente o p`rigo,
Mas suave se encontrar um velho amigo
Que caminhe ao acaso ali por perto
*
E caminhando juntos, juntos olham
O céu cheios de estrelas. Que os não tolham
Os muitos anos que ambos já viveram
*
Que ao menos as memórias sejam belas
Já que, hoje, nada têm senão estrelas
E os sonhos que tiveram já morreram.
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Mª João Brito de Sousa
30.11.2022 - 14.00h
***
3.
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“E os sonhos que tiveram já morreram”
Mas mesmo assim à noite a conversar
Recordaram momentos e ao lembrar
Outras enormes gestas prometeram
*
Cantaram e dançaram, não temeram
As vagas já passadas do azar
Que foram e não mais iam voltar
E em novos afazeres se entenderam
*
Prometeram plantar cravos e rosas
Bem-me-queres floridos e jasmins
Tudo à volta as flores mais formosas
*
Vestirem-se de roupas com cetins
Andarem com sorrisos glamorosos
Em festas ao ar livre e em jardins
*
Custódio Montes
30.11.2022
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4.
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"Em festas ao ar livre e em jardins"
Ressuscitaram os seus sonhos mortos:
Se no asfalto plantaram seus hortos,
No céu soltaram bandos de chapins
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E esculpiram, nos becos, querubins
- que importa se perfeitos ou se tortos
eram os traços seus se tão absortos
estavam os dois em alcançar seus fins? -
*
E nessa noite aqui reinventada,
Foram jovens os dois. Talvez crianças
Fazendo traquinices na calçada,
*
Coreografando juntos novas danças,
Criando o que quiseram desse nada
Que nada deve ao banco ou às finanças.
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Mª João Brito de Sousa
30.11.2022 - 16.35h
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5.
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“Que nada deve ao banco ou às finanças”
Nem pedir emprestado, tudo a pronto
Que misérias de empréstimos nem conto
Com juros usurários nas cobranças
*
Que quem se for meter nessas andanças
Vive sem paz e em guerra nesse ponto
A ganhar para o banco e em confronto
Sem ter no seu futuro esperanças
*
Para se viver bem, para sonhar
Devemos entre nós ter por cultura
Não andar a pedir nem a roubar
*
Encher os nossos bolsos com usura
De quem anda na vida a trabalhar
Com toda a honestidade, com lisura
*
Custódio Montes
30.11.2022
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6.
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"Com toda a honestidade, com lisura",
Partilharam a noite até ser dia
E de manhã nenhum dos dois sabia
Distinguir sanidade de loucura
*
Ambos haviam feito a mesma jura
De não perder o sonho e a alegria,
Como se por milagre ou por magia
Uma tristeza não tivesse cura...
*
De novo a noite escura vai tombando
Sobre esses dois mendigos. No veludo
Do céu imenso, estrelas vão brilhando...
*
Nem um nem outro têm espada ou escudo
Mas como cavaleiros batalhando
Combatem fome e frio, vencendo tudo.
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Mª João Brito de Sousa
30.11.2022 - 19.25h
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7.
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“Combatem fome e frio, vencendo tudo”
Pois são dois bons amigos, combatentes
Que lutam contra ventos inclementes
Com o corpo sem vestes e desnudo
*
Tivessem eles mais algum estudo
E teriam empregos competentes
Ou com outras acções inteligentes
Teriam um futuro mais sortudo
*
Já não são moços, pesa-lhes a idade
Mas a noite passaram-na a cantar
Lembrando o seu passado, a mocidade
*
Os tempos de alegria, o namorar
Com mais atrevimento ou castidade
E noites que tiveram a sonhar
*
Custódio Montes
30.11.2022
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8.
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"E noites que tiveram a sonhar"
Partilham-nas também, feitas memórias
Que vão narrando como se vitórias
Sobre o que antes tiveram que penar
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Sob um céu todo estrelas e luar
Vão um e outro desfiando histórias
E as mais pequenas coisas são já glórias
Que convencem o Tempo a recuar...
*
Do pão amanhecido que um trazia
Ao outro é of`recida uma metade
E assim jantaram nessa noite fria
*
Em que ambos celebraram a amizade:
Se o amanhã traz sempre um novo dia,
Trouxe-lhes, essa noite, a eternidade.
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Mª João Brito de Sousa
30.11.2022 - 22.15h
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9.
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“Trouxe-lhes, essa noite, a eternidade”
Mas só em pensamento que a viver
Continuaram mais e a conviver
Lembrando toda a sua mocidade
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De noite só se vê pela metade
Mas eles viram bem no seu dizer
Tudo aquilo que andaram a fazer
Chegando mesmo até à hilaridade
*
Um lembrou as amigas e conquistas
O outro suas fases do namoro
Aquele disse até as longas listas
*
De moças que beijou sem ter decoro
Este também lhe deu algumas pistas
E riram riram riram ambos em coro
*
Custódio Montes
30.11.2022
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10.
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"E riram riram riram ambos em coro"
Do seu passado e até das suas dores,
Das suas ambições, dos seus amores,
De forma tal que desaguava em choro
*
Todo esse riso, como um meteoro
Rasgando a noite com as suas cores...
E foi a melhor cura, entre as melhores,
Valendo tanto ou mais do que um tesouro!
*
Dissessem-lhes que a vida são dois dias
E rir-se-iam de quem tal dissesse:
Não crêem nessas vãs filosofias,
*
Sabem que nada é o que parece
E se a noite lhes traz tais alegrias,
Que não se apresse o dia que amanhece.
*
Mª João Brito de Sousa
01.11.2022 - 11.00h
***
11.
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“Que não se apresse o dia que amanhece”
Para gozar a vida e a mais valia
De voltar ao passado e à alegria
Que tanto nos recorda e engrandece
*
Nestas recordações a gente tece
A manta que nos cobre de euforia
E busca-se aí toda essa magia
Que no-la traz de volta e oferece
*
Que continue o sonho e a alvorada
Demore que ao voltar de novo a vir
Havemos de cantar à desgarrada
*
Voltando-nos de novo a divertir
Da nossa vida bela, vida airada
Que nessa altura era um elixir
*
Custódio Montes
1.12.2022
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12.
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"Que nessa altura era um elixir"
E continua a sê-lo noite afora
Porque hoje é numa noite que se escora
A c´roa que se está a construir
*
Na qual dois velhos tentam redimir
Os muitos pecadilhos desse outrora
Que ambos recriarão antes que a aurora
Radiosa comece a ressurgir
*
Mesmo as falsas memórias são bem vindas
À noite que em coroa entretecemos
E que, antes de fechar, toda se alinda
*
Com os sons e silêncios que lhe demos...
Mas dois sonetos vão faltando ainda
Pra que feche em beleza, bem sabemos.
*
Mª João Brito de Sousa
01.12.2022 - 14.40h
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13.
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“Pra que feche em beleza, bem sabemos “
E ao fechar abriu-se o coração
Por ter voltado a ter recordação
De tudo o que amamos e vivemos
*
De noite, nas estrelas, tudo vemos
Lampeja à nossa volta um clarão
Que nos recorda os anos que se vão
E voltamos atrás e tudo temos
*
Na noite giram muitos impropérios
Mas também flui a luz e a claridade
E são sonhados tantos desidérios
*
Que se emaranha em nós gosto e vontade
De sondarmos amores e mistérios
Que trazem à memória a nossa idade
*
Custódio Montes
1.12.2022
***
14.
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"Que trazem à memória a nossa idade"
E as muitas ilusões de antigamente
Que a vida derrubou tão lentamente
Quão depressa cresceu esta amizade
*
Que à noite, numa rua da cidade,
Nasceu de uma conversa frente a frente...
Quase no fecho, sinto-me impotente
Pra prolongar toda esta f`licidade
*
Prossigo porque tudo tem um fim
E engendrámos dois homens, não dois santos
Desses que são talhados em marfim,
*
Que (en)cobrem a nudez com longos mantos
E que jamais virão dizer-me assim:
"A noite tem mistérios e encantos"...
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Mª João Brito de Sousa
01.12.2022 - 17.45h
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Que grande desgarrada
ResponderEliminarque pelos vistos é festa
letras daqui e dali
ao compasso da Orquestra, pom pom, pompompom
Bela noite sossegada pra vocês MJ, beijinhos
Pompompompom, ding-ling-ling
EliminarHoje há festa de letras, sim senhor!
Uma noite aconchegada e beijinhos!
Que sonetistas extraordinários! Feliz Natal com coroas de sonetos!
ResponderEliminarMuito grata pela parte que me cabe, Francisco!
EliminarFeliz Natal com muita inspiração! [<<-]
Um abraço!
Um alternar de poetas que muito bem acontece. De fundos temáticos diversos, mas muito interessantes, assim unidos.
ResponderEliminarUm beijo aos dois
Obrigada pela parte que me cabe, Ana.
EliminarSei que estas longas conversas em soneto - coroas de sonetos - não agrada a todos por obrigar a uma leitura muito prolongada e atenta, mas acredito que ainda conseguem angariar alguns entusiasmados leitores :) e gosto tanto de escrever assim, a quatro mãos, que quase posso garantir que continuarão enquanto eu por cá andar e houver sonetistas com paciência para "dialogarem" comigo.
Um beijo!